09 dezembro, 2014

De como era arriscado chegar à ETFPE.






Havia para mim duas opções mais baratas de linhas de ônibus para chegar à escola: a 431 – Cidade Universitária; e a 423 – Engenho do Meio.  Nenhuma delas passava perto da minha casa. Claro que havia a opção de pegar Monsenhor Fabrício e descer na avenida Caxangá, mas não havia recursos para tantas passagens. O que me restava era caminhar cerca de 15 minutos até chegar a avenida Caxangá e esperar pelo 431 ou pelo 423. Essas linhas de ônibus eram feitas pela CTU, à época, empresa pública da prefeitura do Recife. Os ônibus eram insuficientes e velhos, com assentos rasgados e mais paravam do que circulavam devido aos frequentes defeitos mecânicos.



Depois de um longo tempo de espera, o ônibus chegava à parada do antigo Colégio Pio XII apinhado de passageiros. Tinha-se a impressão que naquele coletivo não cabia nem pensamento quanto mais um passageiro. Cansei de ver alunos pendurados na traseira com metade do corpo para dentro e a outra metade para fora do ônibus. Quando via a possibilidade venturosa de ficar espremido no vão anterior da catraca, eu protegia o meu peito com os braços e forçava a passagem. Só assim para entrar naqueles ônibus.

É verdade que a linha de Engenho do Meio tinha mais ônibus, mas também tinha mais gente, o que no final, dava no mesmo. Para piorar, o terminal dessa linha ficava distante da ETFPE (anos depois a prefeitura da cidade mudou o terminal para as margens da BR 101, que ficava mais próximo da escola), e era preciso mais uma boa caminhada para se chegar ao nosso destino. Aqui há um detalhe importante: quem vinha pelo Engenho do Meio só podia chegar à ETFPE atravessando as três faixas da BR, ou passando pela passarela. O que mandava a prudência? Que atravessássemos pela passarela, ainda que houvesse um alto risco de assalto. Mas o que a maioria fazia? Economizava três minutos atravessando as três faixas da BR, afinal, éramos adolescentes, e a prudência raramente acompanha essa fase da vida.

Não sei exatamente quando começou uma moda entre os estudantes da escola de pedir carona, seja para voltar para casa, seja para chegar à escola. A coisa toda era organizada, tinha até plaquinha informando o destino pretendido pelo caroneiro. Algumas placas eram galhofeiras, como a de um estudante que pedia carona para o México, e a de outro, que pedia carona para Pasárgada.  Admirava a coragem daqueles estudantes que de frente ao Quartel, que ficava ao lado da escola, ou mesmo na BR 101 pedindo carona para a Avenida Recife, o IPSEP, ou para Boa Viagem. Havia outros destinos, mas esses eu guardei mais. 

Como eu não morava nesses bairros, me faltava coragem de pedir solitariamente carona para voltar para casa. Mas um dia papai teve problema com o emprego e passamos alguma dificuldade. Diante da nova conjuntura, aderi à carona. 

Eu ia até o viaduto que cruza a Caxangá, ali perto do Hiper, que hoje é o Wal Mart, e caminhava com a mochila nas costas, devidamente uniformizado com a camisa azul da ETFPE. Apontava o polegar para o sul e esperava que algum carro parasse. A espera não era grande. 

Nos dois primeiros dias em que virei caroneiro fiquei maravilhado com a gentileza de desconhecidos que ajudavam um estudante sem grana a chegar à escola. Mas aí veio o terceiro dia e meus dias de caroneiro se encerraram.

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