18 dezembro, 2014

O cinismo da militância de esquerda



Há alguns dias as redes sociais reverberaram mais uma petetice de Jair Bolsonaro. E quando as redes sociais reverberam essas tolices é porque de algum modo elas são úteis à ideologia da militância esquerdopata.  

E por que digo isso? Porque um militante de esquerda só abraça uma causa por pragmatismo, não por valor. Explico-me: quando se vê um militante de esquerda indignado com as torturas praticadas pelos regime militar no Brasil, por exemplo; não é porque ele é contra as torturas e as ditaduras em si - porque se assim fosse, eles não justificariam regimes de esquerda antidemocráticos e que praticam a tortura contra opositores políticos - Eles são contra essas barbaridades porque elas os atingiram e porque, vá lá, eles podem posar de defensores da democracia e de vítimas de um regime cruel.

Quando a militância de esquerda se mobiliza na imprensa e nas redes sociais contra as declarações estúpidas de Bolsonaro, seja contra os homossexuais ou contra as mulheres, a militância está sendo igualmente pragmática. Porque se essa indignação fosse sincera, essa mesma militância não se calaria quando a jornalista Rachel Sheherazade foi vítima de um ataque ainda mais violento promovido por um professor de filosofia da UFRRJ, que no final do ano passado desejou, como votos de fim de ano, que a referida jornalista fosse estuprada. E por que se calaram? Porque a jornalista não era do time deles. O silêncio da militância diante desse ataque me leva a supor que para essa gente a jornalista merecesse mesmo ser estuprada.

E o que dizer das perseguições aos homossexuais em Cuba, no Irã, na Rússia? Por que a militância se cala? Porque a indignação dela tem cálculo político, não é um valor humano. É como se a violência sofrida pelos inimigos ideológicos, ou praticadas pelos regimes amigos fosse desculpável, mas aquelas em que as vítimas são da turma deles fosse um crime contra a humanidade.

Nenhuma pessoa, seja homem ou mulher, sob qualquer circunstância, merece sofrer qualquer tipo de violência. Não há nada que justifique o estupro, a humilhação, a tortura. Nem o mais vil dos criminosos merece, sob a tutela do Estado, um tratamento desumano. Defender o contrário disso, apenas revela que nos falta senso de humanidade. O que me espanta é o cinismo da militância de esquerda que é capaz de protestar contra crimes que seus regimes favoritos praticam ou praticaram como método. 

09 dezembro, 2014

De como era arriscado chegar à ETFPE.






Havia para mim duas opções mais baratas de linhas de ônibus para chegar à escola: a 431 – Cidade Universitária; e a 423 – Engenho do Meio.  Nenhuma delas passava perto da minha casa. Claro que havia a opção de pegar Monsenhor Fabrício e descer na avenida Caxangá, mas não havia recursos para tantas passagens. O que me restava era caminhar cerca de 15 minutos até chegar a avenida Caxangá e esperar pelo 431 ou pelo 423. Essas linhas de ônibus eram feitas pela CTU, à época, empresa pública da prefeitura do Recife. Os ônibus eram insuficientes e velhos, com assentos rasgados e mais paravam do que circulavam devido aos frequentes defeitos mecânicos.



Depois de um longo tempo de espera, o ônibus chegava à parada do antigo Colégio Pio XII apinhado de passageiros. Tinha-se a impressão que naquele coletivo não cabia nem pensamento quanto mais um passageiro. Cansei de ver alunos pendurados na traseira com metade do corpo para dentro e a outra metade para fora do ônibus. Quando via a possibilidade venturosa de ficar espremido no vão anterior da catraca, eu protegia o meu peito com os braços e forçava a passagem. Só assim para entrar naqueles ônibus.

É verdade que a linha de Engenho do Meio tinha mais ônibus, mas também tinha mais gente, o que no final, dava no mesmo. Para piorar, o terminal dessa linha ficava distante da ETFPE (anos depois a prefeitura da cidade mudou o terminal para as margens da BR 101, que ficava mais próximo da escola), e era preciso mais uma boa caminhada para se chegar ao nosso destino. Aqui há um detalhe importante: quem vinha pelo Engenho do Meio só podia chegar à ETFPE atravessando as três faixas da BR, ou passando pela passarela. O que mandava a prudência? Que atravessássemos pela passarela, ainda que houvesse um alto risco de assalto. Mas o que a maioria fazia? Economizava três minutos atravessando as três faixas da BR, afinal, éramos adolescentes, e a prudência raramente acompanha essa fase da vida.

Não sei exatamente quando começou uma moda entre os estudantes da escola de pedir carona, seja para voltar para casa, seja para chegar à escola. A coisa toda era organizada, tinha até plaquinha informando o destino pretendido pelo caroneiro. Algumas placas eram galhofeiras, como a de um estudante que pedia carona para o México, e a de outro, que pedia carona para Pasárgada.  Admirava a coragem daqueles estudantes que de frente ao Quartel, que ficava ao lado da escola, ou mesmo na BR 101 pedindo carona para a Avenida Recife, o IPSEP, ou para Boa Viagem. Havia outros destinos, mas esses eu guardei mais. 

Como eu não morava nesses bairros, me faltava coragem de pedir solitariamente carona para voltar para casa. Mas um dia papai teve problema com o emprego e passamos alguma dificuldade. Diante da nova conjuntura, aderi à carona. 

Eu ia até o viaduto que cruza a Caxangá, ali perto do Hiper, que hoje é o Wal Mart, e caminhava com a mochila nas costas, devidamente uniformizado com a camisa azul da ETFPE. Apontava o polegar para o sul e esperava que algum carro parasse. A espera não era grande. 

Nos dois primeiros dias em que virei caroneiro fiquei maravilhado com a gentileza de desconhecidos que ajudavam um estudante sem grana a chegar à escola. Mas aí veio o terceiro dia e meus dias de caroneiro se encerraram.