15 outubro, 2014

Lembranças de quando eu era aluno 1



Eu estava no primeiro período do curso de Química Industrial na ETFPE. Entrei no segundo semestre de 1992, em agosto.  O país vivia uma crise política desde que Pedro Collor, numa entrevista à Veja, revelou os trambiques no governo de seu irmão, o presidente Fernando Collor; que devido às denúncias renunciaria meses depois. Eu completaria 16 anos em novembro. Era, portanto, um adolescente cabeludo e esquelético.

Foi na ETFPE que fui apresentado a uma entidade chamada Grêmio Estudantil. Na minha escola anterior, o Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco, nunca tinha ouvido falar de Movimento Estudantil ou coisa parecida. 
Na minha nova escola fui seduzido pela retórica sempre apaixonada dos veteranos e das veteranas (mais das veteranas, confesso), que interrompiam as aulas para conscientizar os “pés de banco”, como os novatos na ETFPE eram chamados.  A maioria dos professores não criava dificuldades para essas interrupções, alguns até as estimulavam.

Eu me sentava do meio para o fundão. Mais para o fundão, para ser honesto. Quando os diretores do Grêmio Estudantil Breno Roberto entravam para falar dos laboratórios sucateados, das péssimas condições de trabalho dos professores e dos funcionários, da infraestrutura precária, eu achava maluquice porque aquela escola para mim era o máximo! Mas se eles estavam dizendo, e eram veteranos, eu acreditei. 

Em pouco tempo, deixei os estudos em segundo plano e mergulhei naquele universo de protestos, de discursos inflamados e de politização. Tudo em nome de um Brasil mais justo e igualitário.  É claro que descuidei das notas. Mas e daí? O que importava era mudar o país, ora! 

Em setembro ou outubro de 1992, não me lembro exatamente, houve, no centro do Recife, uma passeata FORA COLLOR, composta por estudantes, os famosos caras pintadas; e por uma dessas coincidências que ajudam o aluno relapso, minha turma teria uma prova do professor Jorge Augusto, de matemática, na mesma hora.  Eu não tinha estudado patavina, mas fui todo cheio de razão comunicar ao professor que um valor mais alto me obrigava a não fazer a prova: participar da passeata contra Collor. Falei devagar e alto, a fim de que o professor não tivesse dúvida da minha motivação e da minha intenção. O professor riu sem mostrar os dentes, como se conhecesse a verdadeira razão de eu não fazer a prova.  

 Fui para o centro do Recife tomar a história nas mãos...



Um comentário:

Rosselini Cansanção de Sá disse...

Estávamos juntos nessa, grande amigo.

Na Av. Conde da Boa Vista, com seu peculiar vai e vem de ônibus, os entusiasmados alunos sentarão cantando "caminhando e cantanto..."

Bons tempos, mas confesso que fui mais influenciado pela mídia que pelos meus ideais e idéias.

Por isso me preocupei com as manisfestações de junho/14, pois imaginava haver muitos jovens sem a real noção do que estavam fazendo.