01 junho, 2014

Por que não sou de esquerda.



 Semana passada, me fizeram uma pergunta que me chamou mais atenção pelo tom do questionamento, que revelava ao mesmo tempo incredulidade e incompreensão, do que pelo conteúdo mesmo da pergunta: “Zé Paulo, por que você não é de esquerda”?

A incredulidade e a incompreensão revelavam que o meu interlocutor não admitia que uma pessoa, especialmente um professor de história, morador do subúrbio do Recife e que estudou a vida toda em escola pública; uma pessoa que passou quase 15 anos numa casa de três cômodos; que dos 13 aos 16 anos, vendeu bermudas nas feiras do Cordeiro, de Casa Amarela e de Afogados; que dos 19 aos 23 anos foi operário numa fábrica de bebidas, quando precisava acordar às quatro da manhã - depois de chegar da UFPE às 11 da noite - e que muitas vezes caminhava de madrugada até o viaduto da Caxangá, porque o ônibus que deveria passar às 04h30min., geralmente atrasava. Por que alguém que tinha todos os motivos do mundo para ser um ressentido contra o sistema e que poderia aderir à ideias que pregavam uma sociedade mais justa e igualitária, que satanizavam os empresários e os ricos, que odiavam o sistema, que, segundo essas ideias, é o responsável por todas as nossas mazelas, como essa pessoa não podia ser de esquerda?

Assim como muitos jovens, eu também fui seduzido pelos discursos da esquerda. Acreditava que ser de esquerda era o mesmo que lutar por um mundo sem corrupção. Mas não. Eu só queria honestidade, e se eu queria honestidade, como eu poderia ser de esquerda? Acreditava que ser de esquerda era o mesmo que lutar por um mundo mais humano e mais justo.  Mas não. Eu só queria um mundo onde as pessoas fossem respeitadas em seus direitos e em sua dignidade, e se eu queria isso, como eu poderia ser de esquerda? Acreditava que ser de esquerda era lutar pela democracia e pela liberdade de expressão. Mas não. Eu só queria um mundo onde a divergência fosse tolerada e as pessoas não corressem o risco de serem presas ou mortas se ousassem divergir. E seu eu queria isso, como eu poderia ser de esquerda? 

É bem possível que muitos jovens continuem acreditando que ser de esquerda é o mesmo que ser justo, humano, honesto e livre. Mas não dá para ser de esquerda e defender com sinceridade essas valores.

Mas, fundamentalmente, eu não sou de esquerda porque me causa aversão a crença de que a esquerda  tem o monopólio da virtude e da decência. Para uma pessoa de esquerda apenas o seu programa se preocupa com os mais pobres. Apenas as suas propostas visam o benefício do povo. As outras correntes são todas mentirosas e comprometidas com os interesses das elites. E como a esquerda crê que tem a chave da história e dos amanhãs que sorriem para o povo, combatê-la é o mesmo que atravancar o futuro. É o mesmo que impedir a redenção dos povos. Então, o que fazer contra os inimigos do povo?, que é como a esquerda costuma chamar os seus adversários.

Basicamente três coisas: a primeira é ridicularizá-los. Convencer a opinião pública de que os adversários dos valores da esquerda são reacionários, racistas, homofóbicos, elitistas, corruptos, malvados, insensíveis. Depois de convencer a opinião pública, o próximo passo é alijá-los do debate democrático, desqualificando suas opiniões, pior: rotulando essas opiniões como de “direita” e por isso, sequer discuti-las. Finalmente, vencida as duas etapas anteriores, exterminá-los. 

Nesse processo, nem os que se consideram de esquerda escapam. Depois de silenciar os que chama de direitistas, o governo de esquerda se volta contra os hereges: aqueles que se acham de esquerda, mas como ousaram divergir do governo e dos parâmetros oficiais, são transformados em reacionários, inimigos do povo, esquerdistas de fachada. Porque ser de esquerda significa dizer amém para tudo o que o Partido manda que se diga amém. Porque ser de esquerda é perder a individualidade. Porque ser de esquerda é abominar os valores da civilização, considerados como burgueses e reacionários. Porque ser de esquerda é defender a liberdade de quem pensa como eles, e não de quem pensa por si. Porque ser de esquerda é submeter o desejo do indivíduo ao interesse do Partido. Porque ser de esquerda é ter duas, três, quatro, vários tipos de moral a depender da ocasião. 

Ao mesmo tempo em que um esquerdista condena as ditaduras, ele chama de democracia governos como o de Cuba. Ao mesmo tempo em que um esquerdista condena a falta de liberdade de expressão, ele deseja controlar a imprensa, porque para ele uma imprensa livre é aquela que defende os valores de esquerda. Ao mesmo tempo em que um esquerdista diz defender o direito dos homossexuais e das mulheres, ele silencia diante das atrocidades cometidas contra os homossexuais e as mulheres em países cujos governos são considerados aliados da esquerda. Ao mesmo tempo que um esquerdista se diz intransigente com a corrupção ele, pela conveniência, pode se aliar a notórios corruptos, e convence a militância de que os novos aliados são perseguidos pela imprensa burguesa. 

Diante do exposto, concluo: eu não sou de esquerda porque acredito no mérito. Eu não sou de esquerda porque eu acredito no respeito à lei e estou convicto de que as reformas, quaisquer que sejam elas, precisam ser feitas dentro de um regime democrático. Eu não sou de esquerda porque eu não acredito que o meu mundo ideal pode ser obtido mediante o uso da força. Eu não sou de esquerda porque eu acredito no respeito à propriedade pública e privada. No direito de existirem pessoas que discordem de mim. Nas liberdades individuais. Porque me causa repulsa usar a mentira, a calúnia e a difamação como armas contra os meus opositores. Eu não sou de esquerda porque não há valor mais importante para mim do que a LIBERDADE!!!!

Um comentário:

Anônimo disse...

Seria muito interessante ler um comentário seu sobre a atual crise IsrealxPalestina.