14 fevereiro, 2014

O Ovo da Serpente.





Texto Final de O OVO DA SERPENTE (1977), de Ingmar Bergman. O filme vale muito a pena. Antes, porém, uma rápida sinopse. 

A história se passa na Alemanha, em 1923, governada pela República de Weimar. O país está passando por uma gravíssima crise econômica: hiperinflação, desemprego e Fome. O país, destruído pela I Guerra Mundial, humilhado pelas cláusulas do Tratado de Versalhes, vê seu tecido social esfarelar-se. O governo enfrenta a oposição de socialistas (comunistas) e de nacional-socialistas (nazistas). Em ambos, o mesmo desprezo pelos valores democráticos. O mesmo entusiasmo pela violência. O mesmo propósito de calar os adversários. Para Bergman, o ovo da serpente do nazismo foi chocado naquela Alemanha humilhada, e romperá a casca em 1933, dez anos depois, para morder a Europa. 

Fiquem com o texto final e não deixem de assistir ao filme.

Sei o que vai dizer, Abel? Deve estar se perguntando como conseguimos convencê-los a se prestarem a tais experimentos [submeter-se à tortura para experimentos científicos].  Não houve nenhuma dificuldade eu lhe asseguro.  Fazem qualquer coisa por um pouco de dinheiro e comida.

Estamos adiantados, Abel. Estamos aqui para ser sacrificados. É lógico. Em um ou dois dias, talvez amanhã de manhã, o exército da Alemanha do sul começará uma revolta comandada por um demente chamado Adolf Hitler. Será um fiasco descomunal. Herr Hitler carece de capacidade intelectual e de técnica e não sabe as forças tremendas com as que se enfrentará. Será arrasado como um grande fiasco no dia que desatar esta tormenta.

Abel, veja esta imagem: observe toda esta gente.  São incapazes de uma revolução.  Estão muito humilhados.  Muito temerosos. Muito oprimidos.  Mas em dez anos... Para então... os de 10 anos terão 20. Os de 15 anos terão 25. Eles terão herdado o ódio de seus pais, mas com a adição de seu idealismo e impaciência. Alguém se adiantará e colocará seus sentimentos sem palavras. Alguém prometerá um futuro. Alguém fará suas exigências. Alguém falará de grandeza e sacrifício. Os jovens e inexperientes brindarão seu valor e sua fé aos cansados e indecisos. E então haverá uma revolução, e nosso mundo se fundirá em sangue e fogo. Em dez anos, não mais. Eles criarão uma sociedade sem igual na história mundial. 

A antiga sociedade se baseava em ideias muito românticas sobre a bondade do homem. Muito complicado, já que as ideias não concordam com a realidade. A nova sociedade se baseará num juízo real dos potenciais e limitações do homem. O homem é uma deformidade, uma perversão da natureza. Então nossos experimentos tomam lugar. Lidamos com a forma básica e logo a moldamos. Liberamos as forças produtivas e controlamos as destrutivas. Exterminamos o inferior e aumentamos o útil.  

Algum dia poderá dizer isto a quem quer que lhe dê ouvidos. Ninguém vai acreditar em você.  Apesar de que qualquer um que fizer um mínimo esforço pode ver o que lhe espera no futuro.  É como um ovo de serpente.  Através da fina membrana, se pode distinguir um réptil já formado.

PS: O texto acima está nos últimos dez minutos de filme.

11 fevereiro, 2014

Vladimir Safatle e sua indignação seletiva.


À esquerda, Lênin. Ao lado, Vladimir Safatle

O professor Vladimir Safatle, em sua coluna desta terça-feira, na Folha, comentou o caso do rapaz preso a um poste por uma trava de bicicleta, sem roupa, na cidade do Rio de Janeiro. O link para a coluna está acima, quem quiser, que leia. Vou me ater a comentar o seu texto.


O professor Safatle é do PSOL e, dizem,  pré-candidato ao governo de São Paulo. Em 13 Janeiro de 2009, no Caderno Dois do Estadão, Safatle escreveu uma resenha de dois livros do filósofo esloveno Slavoj Zizek, cujos títulos eu preciso divulgar: (Sobre a Prática e a Contradição), que reúne textos de Mao Tsé-Tung, tirano chinês que matou 70 milhões de pessoas; e  (Virtude e Terror), com textos de Robespierre, líder dos jacobinos na Revolução Francesa, e protótipo dos assassinos em massa do século XX. Vejam que os resenhados é tudo gente boa. O próprio Zizek é o grande herói dos radicais de esquerda, pelo menos no Brasil. Mas Safatle nesse dia escreveu, está lá, que havia algo de virtuoso no terrorismo. Esse professor que consegue enxergar algo de bom no Terror, está indignado com aqueles que prenderam o rapaz. Por mais estranho que isso nos pareça, não surpreende, afinal, o professor de filosofia da USP é do PSOL.

Safatle está indignado porque prenderam um rapaz, cuja ficha criminal pode ser encontrada no polícia do RJ, nu, em um poste, preso com uma trava de bicicleta. Eu, como cidadão, de valores liberais, também fiquei porque acho que ações como essa são selvagens. Mas a minha indignação não é seletiva, como é a de Safatle.


Ele tacha de proto-nazistas, de racistas, de autoritários e elitistas a reação da sociedade contra a insegurança nas grandes cidades. Safatle deve considerar progressista, humanitária e libertária as ações dos Black Blocs que depredam e incendeiam o patrimônio público e privado, e que ameaçam os cidadãos comuns.


Safatle não tem uma palavra para o trabalhador, o cidadão que é extorquido com impostos cada vez mais altos, e que é assaltado por meliantes, muitos, menores de idade.  Safatle, certamente, tem muito o que dizer aos bandidos, aos vagabundos, aos assassinos travestidos de manifestantes; mas nada aos pais que perderam os filhos; aos filhos que perderam os pais; às família que foram destruídas e que assistem, impotentes, os algozes sequer serem presos; e quando são, soltos pouco tempo depois para destruírem a vida de mais famílias.


Safatle é intelectualmente desonesto. Ele sabe muito bem que a tal apresentadora, a Rachel Sheherazade, não defendeu a violência, e sim, lembrou o óbvio: a falta de ação do Estado permite, para a nossa desgraça, a ação de pessoas que se denominam de justiceiros.

Safatle chama de fascista, racista e elitista as pessoas que não comungam de seus valores. Eu compreendo o professor, afinal, quem vê virtude no terrorismo, quem justifica as ações de Mao, Robespierre, Lênin, Stálin, não pode compactuar com a violência perpetrada pelos justiceiros contra um pobre jovem negro. Aliás, Stálin costumava chamar seus inimigos de fascistas. 


Safatle, o que enxerga superioridade moral no Terror, o indignado seletivo, o que condena a ação dos justiceiros - condenável, sem dúvida! - exulta, aposto, com as atrocidades cometidas pelos líderes comunistas a fim de produzirem o "homem novo". Deve sorrir com satisfação quando os black blocs quebram vidraças de bancos, incendeiam ônibus, agridem policiais, ferem jornalistas. Quem sabe ele considere a morte do cinegrafista da Band um mal necessário, vai saber.


Às vítimas dessa gente torpe e má, Safatle não tem compaixão, elas não merecem. São reacionárias, conservadoras, direitistas.

09 fevereiro, 2014

A omissão do Estado é sempre deletéria.

No post abaixo, entro na polêmica da semana quando a jornalista Rachel Sheherazade em opinião dada no jornal do SBT, defendeu o direito do cidadão de reagir quando as autoridades se mostram néscias no cumprimento do seu dever. Abaixo, o vídeo com a opinião da jornalista e um link para a matéria do JN que mostra a ação dos bandidos no centro do Rio de Janeiro e a estupefaciente declaração da PM carioca sobre o problema. Assistam e depois leiam o post abaixo.


Trecho da matéria no G1.


Imagens registradas nesta sexta-feira (24) e exibidas no Jornal Nacional mostraram flagrantes de assaltos a pedestres em uma das regiões mais movimentadas do Centro do Rio. Na gravação, alguns adolescentes são vistos ao se aproximar de um ponto de ônibus. Em um rápido olhar, eles escolhem a vítima, que é uma mulher de sacola vermelha, de quem arrancam o cordão.

Adolescente acusado de roubo e furto foi preso sem roupas a um poste na cidade do Rio de Janeiro. Agressores se autointitulam de "justiceiros".           

Mais informações sobre esse caso aqui.


Sheherazade e a Reação!







Decidi entrar na polêmica sobre a declaração da âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, a respeito do rapaz encontrado sem roupa e preso a um poste por uma trava de bicicleta no centro do Rio de Janeiro.  Segundo o que foi apurado, a ação foi de um grupo autointitulado “justiceiros”.  O rapaz preso é acusado de praticar furtos na região.

Rachel Sheherazad declarou em síntese que a população cansada da insegurança tem o direito de se defender. Houve protestos, campanhas na internet contra a jornalista, memes a ridicularizando, notas de sindicatos repudiando a sua declaração. Em tudo a mesma crítica: a jornalista incitou a população à violência.

Quem, em sã consciência, pode defender a barbárie? Quem pode exultar com a justiça feita com as próprias mãos? Quem não preferiria que nas cidades do Brasil se pudesse andar sem medo de assalto? Quem não preferiria confiar na Justiça e na Polícia?  Mas se isso não acontece quem teria autoridade moral para criticar uma vítima da violência que decidiu reagir?  Quem teria a coragem de jogar na cara de uma mãe, de um pai, de um parente que perdeu o seu filho em um assalto, que o assassino é antes de tudo uma vítima da exclusão social? 

Quando a Polícia, a Justiça, os políticos parecem inermes diante do problema, o que o cidadão deve fazer? Ficar em casa preso como se fosse ele o bandido? Ir ao trabalho, ao parque, ao cinema, ao shopping com um dinheirinho extra, com um relógio reserva, com um sapato na bolsa para pagar pedágio ao bandido? Por que tanta gente fica indignada quando um marginal é preso num poste sem roupa, e se cala quando um cidadão que trabalha, que paga imposto, que tem uma família que depende do seu trabalho é assaltada na rua ou morta por bandidos? Por que essa indignação seletiva?

Alguém vai dizer que estou falando de coisas diferentes.  Vai dizer que o motivo de repúdio à declaração da jornalista do SBT foi o fato dela ter, por vias indiretas, elogiado a ação dos “justiceiros”. Somente o entendimento embotado de algumas pessoas de boa fé poderia ver que a jornalista passou a defender a lei da selva como solução para o problema da violência nas grandes cidades. O que ela defendeu foi que se o Estado é omisso, se a própria PM do Rio diz não poder fazer nada, quem vai fazer? A crítica da jornalista é mais ampla do que se pensa. A jornalista afirmou nas entrelinhas que ou o estado se impõe, ou teremos um exemplo concreto do estado de natureza, onde sem lei e ordem, todos são inimigos uns dos outros. A diferença é que agora o cidadão, vítima da violência, decidiu não mais morrer ou ser aviltado nos seus direitos sem resistência. 

Precisamos cobrar do Estado uma ação efetiva. Dos congressistas leis duras. Do poder executivo, prisões – e não pardieiros – e da Justiça, responsabilidade. Ou acontece isso, ou então estaremos naquela situação definida por Hobbes em que o homem é o lobo do próprio homem.

Rachel vem incomodando muita gente nas redes sociais, nas redações e nos sindicatos por dois motivos principais: é conservadora (E isso no Brasil parece crime), e porque vem se destacando entre aqueles que criticam a Era Petista, e isso nas redações, nas redes sociais e nos sindicatos é como se fosse uma traição à pátria. Eu tenho asco dessa gente! Quando essa mesma jornalista foi vítima de um professor de filosofia da UFRRJ que desejou pelo twiter, no final do ano passado, que ela fosse estuprada, onde estavam esses mesmos indignados que agora brandem a espada dos direitos humanos para atacá-la? Onde estavam os grupos feministas que sequer reagiram a essa infâmia? Onde estavam os “humanistas” das Redes Sociais que  compartilham com indignação seletiva a declaração de Sheherazade,  acusando-a de incitadora da violência, quando a mesma jornalista, há pouco mais de um mês, foi agredida nas redes sociais e não houve artigos, memes, notas de repúdio  contra a ofensa sofrida por ela?

Não, eu não defendo que a população reaja contra os bandidos, os assassinos, os meliantes de qualquer idade. Entendo que se chegarmos a isso seremos ainda piores do que somos. Mas assim como a jornalista Rachel Sheherazade, eu compreendo quando os cidadãos cansam da inércia e da incompetência das autoridades e reajem!