06 outubro, 2013

FAROESTE CABOCLO – UMA ANÁLISE DO INDIVÍDUO JOÃO DE SANTO CRISTO.








Este ano a banda Legião Urbana, especialmente o seu líder, Renato Russo, receberam duas grandes homenagens no cinema: a primeira foi o filme Somos Tão Jovens, que conta a história musical de Renato Russo em Brasília até a formação da banda Legião Urbana.  A outra foi a roteirização da famosa música Faroeste Caboclo, de 1979, quando Renato Russo tinha apenas 19 anos de idade. 

Antes de analisar, en passant, a letra da canção com seus 159 versos, quero fazer uma rápida digressão.
Nos anos 80, quando a banda gravou o LP Dois, eu tinha apenas dez anos de idade. Lembro-me de ficar ansioso esperando as rádios tocarem Eduardo e Mônica, a primeira música do grupo que conheci e que rapidamente memorizei. Mal sabia que me tornaria um apaixonado pela discografia da Legião Urbana. 

Meu primeiro contato com a música Faroeste Caboclo foi aos 12 anos. Aquela música interminável, de versos fortes, sem refrão, narrando a saga de um tal de João de Santo Cristo me  conquistou. Havia, confesso, uma certa vaidade pessoal de conseguir decorar toda a letra da canção, feito que nenhum dos meus colegas de escola igualou na época.

Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo foram minha porta de entrada no rock dos anos de 1980 e o começo de minha paixão pela Legião Urbana. Praticamente todas as músicas da banda eu sabia de cor. Cantava impostando a voz, tentando imitar Renato Russo. Na época não podia comprar os discos, mas resolvia a questão pedindo para os primos e os amigos gravarem fitas cassetes dos discos. Só depois da morte de Renato Russo, em 1996, aos vinte anos, quando já trabalhava, tive a chance de comprar os CD’s, e comprei todos. Fim da digressão.

João de Santo Cristo é um personagem confuso e perturbado. A maioria dos ensaios ou dos textos que se encontram na internet sobre a música Faroeste Caboclo o vê como um representante das classes inferiores, vítima da exclusão social, da discriminação racial e de toda a sorte de violências, cujo destino trágico, retratado na canção, parece inexorável. João, nessas análises, é antes vítima de um sistema pérfido do que de uma escolha pessoal.  Sua trajetória do sertão à capital federal o transformou numa espécie de cangaceiro com traços de líder messiânico. 

Quero adverti-los que, sem negar a exclusão, a discriminação e toda a sorte de violência de que João foi vítima, seguirei num caminho bem diferente. Tratarei o personagem da canção como um indivíduo, não como um representante de um grupo social.

Como indivíduo, João de Santo Cristo é também um personagem ambíguo. De valores confusos e contraditórios.  O mesmo João que roubava o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar e pensava, desde pequeno, em ser bandido, recusou a proposta indecorosa de um general de dez estrelas que queria convencê-lo a participar de atentados a bomba a bancas de jornal e a escolas de crianças. Esse rápido exemplo comprova que todos os seus atos foram resultado de uma decisão pessoal, não de uma imposição do destino. O João, cujo trabalho honesto de carpinteiro lhe desagradava, torna-se traficante e pratica pequenos assaltos porque tem pressa em ganhar dinheiro e precisa se sentir aceito pelos novos amigos. Em todas as suas escolhas perigosas ele sofre as consequências funestas dessas escolhas.

Uma das características mais típicas de Brasília e, a meu juízo, uma das mais tristes, é o conceito de segregação que nasceu dos traços de Lúcio Costa e da arquitetura de Niemeyer. Se no plano piloto havia a rixa entre moradores de quadras distintas e das duas asas, que dirá daqueles que viviam nas cidades satélites, vistos muitas vezes como de segunda e terceira classe.  Até hoje, embora menor,  esse preconceito continua. Uma coisa é morar no Plano, no Lago, mesmo no sudoeste; outra coisa é morar nas Satélites ou mesmo no Entorno, não é?

A música deixa isso patente quando João, carpinteiro em Taguatinga, só é aceito pelos “bacanas” da Asa Norte quando se torna fornecedor de drogas para a galera, os “filhinhos de Papai”, que usam as festas de rock para consumir e vender drogas. É como criminoso que é permitido a João entrar naquele meio, fazer amigos, ser respeitado. Isso dificilmente ocorreria se ele continuasse sendo carpinteiro em Taguatinga. João escolhe o crime e paga um alto preço por isso.

Quando Renato Russo fez a música em 1979, tinha apenas dezenove anos. Mesmo com uma letra tão repleta de violência, com palavras de baixo calão, Renato revela seu lirismo, um tanto brega é verdade, mas nem por isso menos tocante. Quando ele conhece Maria Lúcia ele se arrepende de tudo o que tinha feito de errado. “De todos os pecados ele se arrependeu”. Abandona o tráfico, volta a ser carpinteiro, quer casar, ter um filho, levar uma vida normal. Como não enxergar no duelo na Ceilândia o romantismo trágico de João, ferido no seu orgulho de homem pelo  inescrupuloso Jeremias?  

Mas na música, João está predestinado ao sacrifício. Não é por acaso que o personagem tenha como sobrenome Santo Cristo. Há na letra várias referências, às vezes diretas, outras vezes indiretas, entre João e Jesus. Imagino que a intenção de Renato era causar polêmica comparando a figura de João - o terror da cercania onde morava, o temido e destemido bandido do Distrito Federal – à figura de Jesus Cristo, o príncipe da Paz, o Salvador.

Renato Russo, consciente ou não, conduz a saga de João de Santo Cristo para um final previsível e inescapável:  o menino pobre e negro, que enxergava qualquer tipo de autoridade como inimiga, viu no crime sua libertação, sua chance de vingança contra todas as injustiças. Como não se afeiçoar, especialmente a juventude, a um personagem desse?  

Se sua intenção, ao vir para Brasília, de falar com o presidente para ajudar a sua gente sofrida fracassou, se deve, na minha análise, ao fato de que João de Santo Cristo não se deu conta de que ao tornar-se bandido, traficante, havia escolhido um caminho que lhe dava a impressão de estar no comando, mas que na verdade ele só estava sendo usado, explorado pela alta burguesia da cidade. Sua morte trágica nos ensina que para mudar o sistema, melhorar a vida dos excluídos, o crime, qualquer que seja ele,  como sempre, não é a melhor escolha. Numa palavra: não compensa.