12 fevereiro, 2013

Comentando a entrevista do Pastor Silas Malafia

Ocorreu há uma semana, mais ou menos. Nas redes sociais, no trabalho, nos programas vespertinos de TV, em todo lugar só se falava da entrevista do pastor Silas Malafaia a jornalista Marília Gabriela no seu programa De Frente com Gabi, no SBT.

A princípio não dei muita atenção à repercussão. Fiquei com aquela preguiça de ter que repisar velhos temas.  Além disso, argumentar com a militância, normalmente prenhe de ignorância não é muito estimulante. Mas aí tocaram num ponto que para mim é especialmente caro: a liberdade de expressão. Não foram poucas as manifestações de que o pastor, tratado como um representante das trevas, deveria ser agredido, silenciado, quem sabe banido das TVs e de sua atividade pública. Chegaram, inclusive, a questionar sua formação em psicologia, como se pudessem dizer: "Como um psicólogo pode defender tais coisas?" Não existe para mim nada mais perigoso que a ideia de tirar do outro o direito de discordar. Por isso decidi também expor-me ao debate sem a miníma pretensão de convencer a quem quer que seja, mas para exercer o, por enquanto, direito inalienável de divergir.

Quando, no trabalho, tentavam arrancar de mim alguma declaração a respeito da entrevista, eu, preguiçosamente respondia que não se deveria dar a algumas ideias tanta repercussão. Até então, eu não tinha visto a entrevista, mas dava como barato a possibilidade de o pastor ter defendido pontos de vista preconceituosos e virulentos. Por isso achava que o melhor a fazer era ignorá-lo solenemente. Mas eu sou um ingênuo, um otimista das boas itenções dos indignados. O que eles queriam, e querem é insuflar a ira contra a divergência. Quando percebi o ardil, reagi.

Fui assistir à entrevista. Salvo o nervosismo evidente do pastor, sua retórica que se baseia no falar alto como se o grito desse ao argumento a força que ele precisa para se impor, não houve na entrevista, especificamente na parte sobre a homossexualidade nenhuma novidade que justificasse aquela reação tão hidrofóbica nas redes sociais. Fiquei atento se haveria alguma frase do pastor que incitasse, mesmo subrepticiamente a agressão, ou mesmo a segregação dos homossexuais. Não a encontrei.

Portanto, o que tanto incomodou os militantes gays e aquela gente que na vida privada, sem a audiência dos amigos, detestaria ter um gay na família, mas que por considerar essa ideia em conflito com o politicamente correto,  a esconde e a escamoteia fingindo uma indignação cínica?

O que penso que tenha incomodado a militância gay e os indignados politicamente corretos foi a opinião do pastor que se coloca frontalmente contra o casamento gay, contra a possibilidade de homossexuais, em união estável, adotarem crianças. O pastor também questionou ( e aqui é bastante plausível o debate livre e respeitável entre as parte) a ideia de que o homossexualismo seja um comportamento natural, determinado pelo nascimento. Para o pastor, não existe o gene gay, o que, para ele, indicaria que a homossexualidade é um comportamento imposto ou aprendido. Não conheço genética. Dizem que há estudos que caminham para descobrir o componente genético da homossexualidade. O fato, porém, é que por enquanto não existe na Ciência qualquer consenso sobre o assunto. Mas vejamos: ainda que a Ciência prove que o homossexualismo seja determinado, ou mais apropriadamente, seja uma possibilidade embutida nos genes, um líder religioso, por coerência teológica, jamais poderia admitir a possibilidade de se considerar legítimo o casamento gay ou uma família formada por homossexuais. Repito que todos nós temos o direito de discordar dessa visão do pastor (na verdade do cristianismo e do islamismo) sobre os homossexuais, considerá-la retrógrada, preconceituosa, absurda; mas isso não nos dá, dentro de um regime democrático, o direito de calar a voz discordante, por mais abjeta que nos pareça as convições dessa voz. É evidente que não me refiro às ideias que incitam à prática de crimes. 

Quem, em nome da liberdade, flreta com possibilidade de calar a voz da divergência pode não saber, mas estará colocando sobre o próprio pescoço a corda que o matará.

A militância gay e os indignados politicamente corretos acusam qualquer pessoa que divirja de suas convicções, de preconceituosos e de intolerantes.  Eles acham, naturalmente, que provocações como essas, abaixo, são exemplos de tolerância e de respeito.












Ainda não falei sobre o polêmico Projeto de Lei 122 (PL 122) que transforma em crime, passível de cadeia, a prática da homofobia. Quem poderia se opor a uma lei que prevê punição rigorosa a uma pessoa que por ódio aos gays decide agredi-los e matá-los? É claro que existem imbecis que odeiam e que incitam o ódio aos gays, aos negros, aos nordestinos, às mulheres, enfim, a toda sorte de grupos considerados ou inferiores ou imorais. Essa gente torpe deve, quando pratica o crime de ódio, ir para a cadeia. Quando exala seus preconceitos merece,  além do repúdio dos homens de bem, ter a irrelevância como destino. 

Mas o que o PL 122, lido em todos os seus artigos, parágrafos e incisos propõe é transformar a divergência em crime passível de cadeia. Mais: O que o PL 122 propõe é dar aos homossexuais um estatuto jurídico diferente, tornando-os distintos dos demais cidadãos. Como se o fato de serem gays ou por serem gays lhes garantisse, sob a justificativa da proteção, mais direitos do que os outros. Aprovado do jeito que está, o PL 122 configura-se numa gravíssima ameaça à liberdade de expressão e a igualdade entre os cidadãos. 

Se, por ventura, um militante gay ou um indignado politicamente correto ler esse texto, certamente me tomará por homofóbico. Eis aqui meu ponto principal. O autoritarismo da militância gay não entende como alguém possa simplesmente ser contra o PL 122, sem odiar os gays. Em outras palavras: ou você pensa e defende os mesmos pontos de vista deles, ou então você é um odioso homofóbico. 

Sugiro, por exemplo, a leitura dos artigos 1°, 4°,8° e 16° do PL 122. Por esses artigos e seus parágrafos, percebe-se com absoluta clareza que a divergância de opinião é criminalizada, o que fere inequivocamente o Estado Democrático de Direito.  

O artigo 4°, por exemplo, prevê prisão de 2 a 5 anos para o empregador ou o seu preposto caso ocorra a demissão de um funcionário gay, e este se considere vítima de preconceito. Na prática, o empregador perde o direito de demitir um funcionário homossexual se ele for incompetente ou por questões de mercado, porque haverá sempre o risco, caso esse projeto seja aprovado, de acusar o empregador de homofóbico.

Outro artigo relevante, o oitavo, alínea A, proibe, sob pena de prisão, que se impeça manifestações homoafetivas em lugares públicos ou privados. Ou seja: se numa escola privada haja a proibição de namoros na escola - seja heterossexuais ou homossexuais - o diretor poderá ir para a cadeia caso mantenha a proibição. Suponha que um padre ou um pastor admoeste na pátio de sua igreja um comportamento considerado imoral. Depois dessa lei, se a censura recair sobre os homossexuais, o líder religioso responderá processo e poderá ir para a prisão.

Evidencia-se assim, na minha opinião,  a ameaça que o PL 122 representa à liberdade de expressão e ao princípio de igualdade entre os cidadãos.

Não tenho nada a ver com a vida pessoal ou íntima das pessoas. Não acho que a decência seja atributo exclusivo dos heterossexuais, ou dos religiosos. Há torpeza no ser humano, independente de sua orientação sexual. O que procuro combater é a interdição do debate. A refutação ad hominem, que procura desqualificar o debatedor para não discutir seus argumentos.

Tenho alguns amigos e muitos conhecidos gays. Nunca os rotulei como criatuas à parte. Nunca os intimidei por conta de sua orientação sexual, porque acredito piamente que cada um é livre para exercê-la e expressá-la. Mas sempre que a militância gay e os indignados de ocasião quiserem cassar o meu direito de discordar deles e de suas propostas, vou reagir, execercendo a minha liberdade de expressão para refutá-los.



4 comentários:

Matheus disse...

Me espanta, professor Zé Paulo, ver o senhor com esse discurso, que sem dúvida alguma é eficiente, lógico, e o mais importante, de fácil convencimento, só que do mesmo modo descontextualizado socialmente, e espantosamente, historicamente. É um pouco entristecedor ver que um professor de História, que pelo menos enquanto tive aulas, não lecionava um mero desamarrar de fatos; sempre fazia questão de dar as aulas sem realizar o erro de não embasar e contextualizar com o cenário social atual, ter produzido um texto com esse aspecto. Quero deixar claro que não estou realizando nenhuma valoração de sua opinião no plano acadêmico, político, não sou ninguém (existe alguém ?). Como você disse reiteramente, você pode se expressar sobre (quase) qualquer forma e conteúdo. Só estou deixando registrado o meu insignificante desapontamento.

Zé Costa disse...

Olá, Matheus! Já tive vários alunos com esse nome e, por isso, não sei exatamente qual deles você seja, mas isso pouco importa.

Lamento o desapontamento que lhe causei. Contudo, felicita-me o seu comentário porque corrobora que em sala de aula nunca quis transformar os meus alunos em discípulos de minhas convicções.

Você lamenta que meu discurso não seja contextualizado e, espanta-se, que eu ignore a história para defender minhas convicções. Se não for exigir muito, e você pode ter o tempo que achar conveniente, você poderia apontar no meu texto onde ele peca pela falta de contexto social e de base histórica? Quem sabe assim, dentro de um debate livre, sem ofensas, a gente não encontre pontos em comum.

Acho que você, Matheus, se decepcionou porque não ataquei o pastor. Ou talvez porque me coloquei contra o PL122. Isso é um direito seu que eu defenderei sempre, como será sempre direito meu me opor a essas mesmas coisas.

Defendi e sempre defenderei o livre debate e a defesa de minhas convicções sem a arrogância de que elas são as certas e definitivas e de que ninguém possa discordar delas.

Thiago disse...

Zé, só algumas observações no que diz respeito à ciência...

É regra geral da genética dizer que comportamentos são reflexos do genótipo e do fenótipo, ou seja, embora existam características genéticas que codifiquem certa predisposição a um determinado comportamento, elas dependem as vezes mais as vezes menos das condições ambientais em que o indivíduo se encontra.

Isso significa que o componente genético do homossexualismo pode existir e não se manifestar... Cria-se apenas uma prédisposição. Este é um ponto.

Outro ponto é que nada em genética parece ser tão binário e o comportamento homossexual talvez não seja fruto de um "gene gay" mas sim de vários genes que quando interagem de certa maneira dão ao indivíduo a tal prédisposição em desenvolver um comportamento homossexual.

Portanto dificilmente a ciência irá dizer que há um gene homossexual, mas há sim estudos sérios e bastante conhecidos que demonstram sem sombra de dúvida que algumas características fisiológicas dos homossexuais são tipicas do sexo oposto (ou seja, características masculinas em lésbicas, características femininas em homens gays).

É, como vc bem disse, um assunto dos mais cabeludos e eu certamente não estou qualificado a ir muito além destas observações. Tem esse vídeo do Eli Vieira que vc talvez tenha visto e que aborda toda essa questão com mais profundidade (aqui o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=3wx3fdnOEos).

Seja como for, acho que o Malafaia poderia, já que está tão interessado em abordar essa questão do ponto de vista da ciência, se informar melhor sobre várias pontos que ele levanta. São erros grosseiros no que diz respeito ao funcionamento básico da genética em específico e da ciência em geral, além de ignorar alguns fatos já bastante estabelecidos, como a homossexualidade de muitas e muitas espécies animais.

No mais, excelente texto. Vc tem razão sobre a questão da liberdade de expressão e neste ponto, o próprio Malafaia está correto. É evidente que os homossexuais merecem direitos iguais aos de qualquer heterossexual, acontece que ter direitos iguais não é ter direitos a mais.

Abraços.

Anônimo disse...

Certa vez, passou por mim uma pessoa com uma camisa de malha preta, com uma mensagem de letras brancas: 100% negro. Fiquei pensando que se eu usasse uma camisa com a mensagem "100% branca" certamente seria chamada de preconceituosa e até poderia ser processada. O mesmo vejo acontecer com outros grupos e movimentos. O Homossexual tem direito de fazer movimentos e eventos falando do orgulho gay, mas se os heterossexuais fizerem o mesmo, se criarem eventos para comemorar o orgulho heterossexual, certamente serão atacados como preconceituosos. Cada um deve ter o direito de dizer o que pensa, desde que não haja agressão. Vale lembrar que a humanidade foi subdividida em tantas minorias, que já nem sabemos quem é este grupo maioritário que exclui o outro.