20 janeiro, 2013

Seu Evaristo


Trecho de Angústia que mais me marcou quando li esse romance. Senti um ímpeto em transcrevê-lo depois que soube da morte do ator Walmor Chagas, e depois que assisti Amour, do ditretor Micheal Haneke.



Seu Evaristo sofria necessidades. Tinha vivido em boas condições, fora eleitor, jurado, dera dinheiro para festas de igreja. E as pessoas que o encontravam tocavam no chapéu.

Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeito mais sério do mundo.  Dedicava-se a vários ofícios, era agricultor, redigia procurações e petições. Beirando os setenta começou a vender macacos. Os olhos cansaram, a memória emperrou, os braços descarnados não tiveram força para manejar enxada, a garlopa, o martelo de ferreiro e a tesoura de cortar metais.  Seu Evaristo fabricava muitas coisas, mas não se ajeitava em nenhuma profissão. E quando a velhice chegou, sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que seguravam mal o cajado. Andando, formava dois arcos: um por detrás, nas pernas, outro adiante, no peito; sentado, firmava a mão na extremidade do cacete, e sobre as mãos, duras e peludas, de veias enormes, assentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras que balançavam como teias de pecumã. Foi baixando, baixando, e na casinha que se escondia no fim da rua da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos daqueles invernos de serra seu Evaristo e sua mulher tremiam e começavam a tresvariar, porque a fome era grande. À noite andavam tropeçando nos cacarecos, pois na casa não havia candeia, olhavam a rua triste sob a chuvinha impertinente que embaçava os vidros dos lampiões esmorecidos. Apertavam-se para enganar o frio, e os moleques que passavam na calçada metiam os olhos pelos buracos das janelas e gritavam:

- Velhos imorais! Abraçados, fazendo safadeza!

A caridade chegou. Seu Filipe Benigno, André Laerte, seu Acrísio, as três mulheres que pareciam formigas, fizeram uma subscrição – e seu Evaristo começou a receber dez mil-réis por semana. Passou o inverno. 
Plantou uma roça no quintal. E quando o feijão verde apareceu e o milho deu bonecas, mastigou uns agradecimentos e dispensou a caridade.

- Pobre orgulhoso, disse uma das mulheres que pareciam formigas.

Rosenda e cabo José da Luz concordaram.

A safra acabou, o velho sentiu fome, olhou os quatro cantos e não encontrou amparo.  Procurou trabalho, mas tinha setenta anos, e ninguém confiava nele. Um dia, com a mão na barriga, entrou na padaria de seu José Inácio.

- Uma esmola pelo amor de Deus, cochichou.

Seu José Inácio estava aporrinhado.

- Uma esmola pelo amor de Deus, gemeu seu Evaristo quase sem voz.

- Ora...

Seu José Inácio gritou uma praga que ofendeu os ouvidos de seu Evaristo.

- Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, rosnou um velho espantado, sem saber que aquele despropósito era com ele.

Tinha auxiliado muito mendigo, nunca fora grosseiro. Chegava num momento em que o dono da padaria estava zangado.

- Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, repetiu baixinho.

Seu José Inácio apontou um cesto de pães dormidos e gritou brutalmente.

- Tira ali.

Mais tarde arrependeu-se, como disse o Teotoninho Sabiá, lembrou-se de que o velho nunca havia importunando ninguém. Ainda chegou à porta para chamá-lo e pedir desculpa, mas a rua estava deserta.
Nesse dia seu Evaristo entrou em casa arrastando-se como um aleijado e deu um pão seco à companheira. Ficou uns minutos vendo-a meter as gengivas na crosta dura, em seguida avizinhou-se da parede, onde havia uma corda pendurada em um torno.

- Hum! Hum! Exclamou a mulher. Pior que mastigar chifre.

- Com certeza, murmurou seu Evaristo.

A mulher comeu o pão e foi deitar-se na esteira. Viu o marido passar a mão pela parede, mas como estava com a vista curta, não percebeu o que ele fazia.

- Só vi que passava a mão pela parede, confessou no dia seguinte a André Laerte. Virei-me na esteira e peguei no sono.

Horas depois encontraram seu Evaristo enforcado num galho de carrapateira. Fui vê-lo, mas não tive coragem de me aproximar: fiquei de longe, olhando o corpo que balançava, os pés tocando o chão, como se estivesse preparando um salto. Eu estranhava que uma pessoa pudesse aguentar-se numa coisa tão frágil como um galho de carrapateira. Rosenda me disse que no momento em que um cristão bota o laço no pescoço o diabo monta nos ombros dele. Seu Evaristo balançava. Às vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes surgiam a barba branca, a língua fora da boca, os olhos abotoados, a careca, e era como se fosse dar um salto. Esta ideia absurda de um homem saltar depois de morto bulia comigo. Aquele defunto levantado, com os pés no chão, ameaçando-me com um salto que poderia trazê-lo para junto de mim, apavorava-me. A corda que o sustinha, apenas visível de longe, fininha como aquela que ali estava em cima da mesa, torcia-se e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olhava-o, sem lágrimas...

Graciliano Ramos; Angústia, p. 185-188; Ed. Record 63° edição, 2008.



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