26 novembro, 2013

Por que Lula será candidato a presidente em 2014



 

Eu não tenho dúvida. Lula será candidato a presidente de novo. Por quê? Ora, porque Lula quer, e para o PT e os petistas isso já basta.  

No PT sempre se fez e se faz o que Lula quer.  Quem escolheu Dilma, que nunca havia concorrido a cargo eletivo algum, como candidata a presidente da república em 2010? O PT? Faz graça. Quem escolheu Fernando Haddad, cuja permanência no Ministério da Educação não deixou saudades, como candidato a prefeito de São Paulo, humilhando Marta Suplicy e a isolando no partido? Acertou quem respondeu Lula! 

Vou dar um exemplo categórico: de todos os presidentes do Partido dos Trabalhadores não existiu um sequer que não tivesse as bênçãos de Lula.  Desde a sua fundação em 1980, até hoje, O PT tem um dono: Luiz Inácio Lula da Silva. Todos que tentaram rivalizar com ele, perderam. Os opositores altivos foram alijados. Os pragmáticos, Zé Dirceu é o mais emblemático, preferiram a composição.

Lula será o candidato do PT em 2014 porque sabe que Dilma é muito ruim. Em 2010, a atual presidente foi protegida de si mesma pela popularidade de Lula. Se o presidente mais popular do Brasil dizia que ela era competente, por que duvidar? O Sucesso da fórmula de 2010 não se repetirá em 2014. Dilma e o seu governo são ruins demais. Lula sabe disso. O PT sabe disso. Os aliados sabem disso. Se as pesquisas de opinião dizem o contrário é por que o povo não vê uma alternativa melhor (nisso a culpa é da oposição que não soube construir uma alternativa mais atraente, limitando-se a prometer fazer mais do mesmo). A popularidade de Dilma e avaliação positiva de seu governo explicam-se mais pelos erros da oposição, pela sua inatividade política do que pelos méritos do governo. 

Escolham qualquer índice. O governo Dilma beira a mediocridade. Lula sabe disso. O PT sabe disso. Os aliados sabem disso. Eles não vão arriscar. Por isso Lula, de novo, será candidato e com chances altíssimas de vitória.

Não bastasse as razões acima, há mais uma. Quem, se não ele, seria capaz com tanta desenvoltura defender ao mesmo tempo os condenados petistas do Mensalão e condenar a corrupção? Quem, se não ele, defenderá sem constrangimentos aliados como Collor, Renan, Sarney e Maluf, e ainda exaltará a importância da ética na política.  Quem, se não ele, acusará com a virulência dos falsos moralistas os adversários políticos de crimes que o PT se tornou paradigma? Quem, se não ele, poderá mobilizar com força inaudita as franjas do partido na sociedade civil e na internet para atacar e caluniar adversários? 

O PT em 2014 precisará de Lula não apenas para vencer o pleito, mas para cultivar os mitos do partido. Só Lula poderá fazer isso. Só a sua figura e sua retórica populista serão capazes de salvar as aparências, nem que para isso ele adote a estratégia de que todos são sujos, mas a sujeira do PT tem consciência social.  

Lula tem um sonho particular. Não é tanto o de voltar à presidência nos braços do povo, repetindo como farsa a volta de Getúlio Vargas nas eleições de 1950. Lula nunca conseguiu digerir as duas derrotas no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso. Das vezes que ele venceu foram necessários dois turnos. Ele busca uma vitória no primeiro turno para vencer o fantasma de FHC que nunca o abandonará. Também Por isso e para isso ele será candidato a presidente em 2014. 

Dilma, aposto, fará em algum momento do ano que vem um pronunciamento afetado à Nação. Dirá que em nome do Povo, do Brasil e dos mais pobres renunciará à reeleição em favor de Lula. Será uma meia verdade. Ela fará isso em nome de Lula. Mas para o PT, Lula e o povo são uma coisa só.

06 outubro, 2013

FAROESTE CABOCLO – UMA ANÁLISE DO INDIVÍDUO JOÃO DE SANTO CRISTO.








Este ano a banda Legião Urbana, especialmente o seu líder, Renato Russo, receberam duas grandes homenagens no cinema: a primeira foi o filme Somos Tão Jovens, que conta a história musical de Renato Russo em Brasília até a formação da banda Legião Urbana.  A outra foi a roteirização da famosa música Faroeste Caboclo, de 1979, quando Renato Russo tinha apenas 19 anos de idade. 

Antes de analisar, en passant, a letra da canção com seus 159 versos, quero fazer uma rápida digressão.
Nos anos 80, quando a banda gravou o LP Dois, eu tinha apenas dez anos de idade. Lembro-me de ficar ansioso esperando as rádios tocarem Eduardo e Mônica, a primeira música do grupo que conheci e que rapidamente memorizei. Mal sabia que me tornaria um apaixonado pela discografia da Legião Urbana. 

Meu primeiro contato com a música Faroeste Caboclo foi aos 12 anos. Aquela música interminável, de versos fortes, sem refrão, narrando a saga de um tal de João de Santo Cristo me  conquistou. Havia, confesso, uma certa vaidade pessoal de conseguir decorar toda a letra da canção, feito que nenhum dos meus colegas de escola igualou na época.

Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo foram minha porta de entrada no rock dos anos de 1980 e o começo de minha paixão pela Legião Urbana. Praticamente todas as músicas da banda eu sabia de cor. Cantava impostando a voz, tentando imitar Renato Russo. Na época não podia comprar os discos, mas resolvia a questão pedindo para os primos e os amigos gravarem fitas cassetes dos discos. Só depois da morte de Renato Russo, em 1996, aos vinte anos, quando já trabalhava, tive a chance de comprar os CD’s, e comprei todos. Fim da digressão.

João de Santo Cristo é um personagem confuso e perturbado. A maioria dos ensaios ou dos textos que se encontram na internet sobre a música Faroeste Caboclo o vê como um representante das classes inferiores, vítima da exclusão social, da discriminação racial e de toda a sorte de violências, cujo destino trágico, retratado na canção, parece inexorável. João, nessas análises, é antes vítima de um sistema pérfido do que de uma escolha pessoal.  Sua trajetória do sertão à capital federal o transformou numa espécie de cangaceiro com traços de líder messiânico. 

Quero adverti-los que, sem negar a exclusão, a discriminação e toda a sorte de violência de que João foi vítima, seguirei num caminho bem diferente. Tratarei o personagem da canção como um indivíduo, não como um representante de um grupo social.

Como indivíduo, João de Santo Cristo é também um personagem ambíguo. De valores confusos e contraditórios.  O mesmo João que roubava o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar e pensava, desde pequeno, em ser bandido, recusou a proposta indecorosa de um general de dez estrelas que queria convencê-lo a participar de atentados a bomba a bancas de jornal e a escolas de crianças. Esse rápido exemplo comprova que todos os seus atos foram resultado de uma decisão pessoal, não de uma imposição do destino. O João, cujo trabalho honesto de carpinteiro lhe desagradava, torna-se traficante e pratica pequenos assaltos porque tem pressa em ganhar dinheiro e precisa se sentir aceito pelos novos amigos. Em todas as suas escolhas perigosas ele sofre as consequências funestas dessas escolhas.

Uma das características mais típicas de Brasília e, a meu juízo, uma das mais tristes, é o conceito de segregação que nasceu dos traços de Lúcio Costa e da arquitetura de Niemeyer. Se no plano piloto havia a rixa entre moradores de quadras distintas e das duas asas, que dirá daqueles que viviam nas cidades satélites, vistos muitas vezes como de segunda e terceira classe.  Até hoje, embora menor,  esse preconceito continua. Uma coisa é morar no Plano, no Lago, mesmo no sudoeste; outra coisa é morar nas Satélites ou mesmo no Entorno, não é?

A música deixa isso patente quando João, carpinteiro em Taguatinga, só é aceito pelos “bacanas” da Asa Norte quando se torna fornecedor de drogas para a galera, os “filhinhos de Papai”, que usam as festas de rock para consumir e vender drogas. É como criminoso que é permitido a João entrar naquele meio, fazer amigos, ser respeitado. Isso dificilmente ocorreria se ele continuasse sendo carpinteiro em Taguatinga. João escolhe o crime e paga um alto preço por isso.

Quando Renato Russo fez a música em 1979, tinha apenas dezenove anos. Mesmo com uma letra tão repleta de violência, com palavras de baixo calão, Renato revela seu lirismo, um tanto brega é verdade, mas nem por isso menos tocante. Quando ele conhece Maria Lúcia ele se arrepende de tudo o que tinha feito de errado. “De todos os pecados ele se arrependeu”. Abandona o tráfico, volta a ser carpinteiro, quer casar, ter um filho, levar uma vida normal. Como não enxergar no duelo na Ceilândia o romantismo trágico de João, ferido no seu orgulho de homem pelo  inescrupuloso Jeremias?  

Mas na música, João está predestinado ao sacrifício. Não é por acaso que o personagem tenha como sobrenome Santo Cristo. Há na letra várias referências, às vezes diretas, outras vezes indiretas, entre João e Jesus. Imagino que a intenção de Renato era causar polêmica comparando a figura de João - o terror da cercania onde morava, o temido e destemido bandido do Distrito Federal – à figura de Jesus Cristo, o príncipe da Paz, o Salvador.

Renato Russo, consciente ou não, conduz a saga de João de Santo Cristo para um final previsível e inescapável:  o menino pobre e negro, que enxergava qualquer tipo de autoridade como inimiga, viu no crime sua libertação, sua chance de vingança contra todas as injustiças. Como não se afeiçoar, especialmente a juventude, a um personagem desse?  

Se sua intenção, ao vir para Brasília, de falar com o presidente para ajudar a sua gente sofrida fracassou, se deve, na minha análise, ao fato de que João de Santo Cristo não se deu conta de que ao tornar-se bandido, traficante, havia escolhido um caminho que lhe dava a impressão de estar no comando, mas que na verdade ele só estava sendo usado, explorado pela alta burguesia da cidade. Sua morte trágica nos ensina que para mudar o sistema, melhorar a vida dos excluídos, o crime, qualquer que seja ele,  como sempre, não é a melhor escolha. Numa palavra: não compensa.


27 agosto, 2013

O que de fato interessa?



 

Há pouco mais de dois meses, um milhão de brasileiros foram às ruas do país exigir das autoridades soluções para problemas concretos como o transporte público e a saúde pública. Depois de muitos discursos e propostas ilegais, o que foi feito? Nada! Minto. Foi feito sim. O governo federal implantou o Mais Médicos. E aí tudo se transformou. Num segundo, o país se dividiu num falso debate. De um lado, o governo, justificando a importação de médicos para os rincões, onde uma população pobre carece de doutores porque os médicos brasileiros se recusam a trabalhar nessas regiões. Do outro, as associações médicas, que rechaçam a importação desses profissionais sem a exigência do Revalida, e acusando o governo de não oferecer condições mínimas para o exercício da Medicina nos grotões. 

 Toda a celeuma, a meu juízo, se deve ao fato de o público achar que os médicos brasileiros são oriundos da elite. Os nossos médicos seriam insensíveis, cúpidos, xenofóbicos, racistas, preconceituosos em relação aos mais pobres. Pelo menos é assim que o governo e seus defensores tentam explorar o imbróglio.  Nessa disputa de valores, o governo, a meu juízo, tem conseguido jogar a sociedade contra os médicos. 

Que parte desse debate vem sendo negligenciada ou mesmo evitada? Quais as questões realmente importantes nesse tema? 

Em primeiro lugar, minha oposição ao Mais Médicos não se deve à vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, tenham eles a nacionalidade que for. Minha oposição é que para esses médicos o governo DISPENSOU o exame (REVALIDA) que atesta a competência do médico formado no exterior para atuar no Brasil. E cabe a pergunta: por que o governo, tão preocupado com os mais pobres, não se preocupa com a qualidade do médico que atenderá a população carente nas periferias ou nas médias e pequenas cidades brasileiras? Acredito que a motivação seja política. 

Mais ainda não cheguei ao ponto principal. Toda essa busílis decorre da chegada de médicos cubanos ao Brasil no último final de semana. A reação das associações médicas, dos CRM’s, dos profissionais de saúde, de setores da Imprensa criou – e o governo usou isso a seu favor – um ambiente de hostilidade em relação aos médicos cubanos. Foi o suficiente para prosperar a ideia de que a classe médica, a Imprensa, a elite não gostam dos pobres, só pensam nos ricos e em ficar ricos. Mas nesse debate, o que de fato interessa?

O que interessa é que havia uma grande chance de os médicos vindos de Cuba não passarem no REVALIDA (daí porque o nosso governo decidiu não exigir o exame para os estrangeiros que aderirem ao Mais Mécios). O fato incontornável é que essa decisão põe em risco o paciente pobre caso seja atendido por um profissional incapacitado para o exercício da medicina.

O que interessa é o flagrante desrespeito às Leis Trabalhistas no Brasil, quando o governo admite que o salário de 10 mil reais não será pago ao médico cubano, mas ao governo de Cuba – que é uma ditadura, não nos esqueçamos -  que decidirá quanto cada um desses médicos vai receber.

A ninguém isso causa indignação? A ninguém causa repulsa a ideia de que os médicos cubanos estão PROIBIDOS de deixar os alojamentos militares sem a ordem do governo da ilha? A ninguém envergonha o fato de o governo brasileiro recusar, a priori, asilo político ao médico cubano que desejar ficar no país, ameaçando devolvê-lo – expressão usada pelo Advogado Geral da União, Luiz Inácio Adams – à ditadura comunista?

Finalmente, a principal questão. A ninguém interessa conhecer as condições de trabalho e das instalações dos hospitais públicos e postos de saúde nas periferias e nos rincões do Brasil? A ninguém causa espécie, porque mesmo com incentivo de 10 mil reais (salário que profissional algum em início de carreira rejeitaria), os médicos brasileiros se recusam a trabalhar nesses lugares? 

Eu não vejo problema de ser atendido por um médico estrangeiro. Meu médico da família é cubano, mas é um cidadão livre. Fugiu da ilha para nunca mais voltar, segundo ele. O problema que eu vejo é ser atendido por um profissional em que eu não tenha segurança de sua competência. O que para mim é inadmissível, é ser atendido por um profissional que é tratado por seu governo como um cidadão sem liberdade sequer para passear numa cidade sem autorização prévia. O meu problema é ver o cinismo do governo em dizer que está preocupado com os mais pobres criando um serviço médico de segunda categoria para os mais carentes. Como se dissesse: é melhor um médico ruim, que médico nenhum.

Eu não penso assim.

28 abril, 2013

Quanto vale a vida humana no Brasil?

Que outro sentimento se não o da revolta diante da torpeza e da vilania de criminosos frios e cruéis que diante de suas vítimas inermes, sem qualquer possibilidade de defesa, tornam-se assassinos covardes. 

O que dizer à família da dentista de São Bernardo do Campo ou à família do jovem estagiário da rede TV que tombaram sem chance de defesa diante de seus algozes? Que eles, ou a sociedade que eles representam colocaram a arma nas mãos daqueles facinorosos - vítimas da desigualdade social - e por isso hoje eles choram seus entes queridos?

Há certamente algo mais asqueroso que a certeza de que os menores que praticaram esses crimes sairão, após reclusão máxima de três anos, com sua ficha limpa como se nunca tivessem tirado a vida de ninguém. Há certamente algo ainda mais repulsivo que a convicção de que esses criminosos às vésperas de completarem 18 anos, não passam de crianças merecedoras de cuidados, respeito e proteção por parte do Estado. 

O que há de mais asqueroso e repulsivo é a crença de que esses monstros não passam de vítimas da pobreza, da miséria e da violência. É a crença de que a dentista que ganha o seu sustento trabalhando ou o estagiário que inicia uma profissão são representantes da classe opressora que põe na mão dos “desassistidos” a arma de fogo e no seu coração o ódio e a revolta. Pior: tão ou mais repulsivo e asqueroso é a ideia de que a pobreza produz criminosos às pencas, jovens que não tiveram escolha senão a delinquência.

Cada um que relativiza esses atos hediondos tirando dos criminosos a responsabilidade objetiva de tê-los cometido, colocando a culpa na sociedade, na desigualdade social, no preconceito, na falta de oportunidades, de alguma forma, queira ou não, torna-se cúmplice desses assassinos. No fundo, sentem um certo prazer, uma alegria mórbida de ver o meliante fazendo a justiça social com as próprias mãos.  Não puxaram o gatilho, nem atearam fogo, mas com suas convicções supostamente humanistas – humanista apenas para os bandidos, diga-se – criam o clima de impunidade e a certeza de que tirar a vida de um trabalhador, um jovem, uma dentista, uma pessoa de bem no Brasil (ainda mais quando se é menor), valerá pouquíssimos anos de cadeia. Às vezes nem isso.


12 fevereiro, 2013

Os Vídeos



Apenas para conhecimento de quem enxerga o mundo com uma visão maniqueísta.

Comentando a entrevista do Pastor Silas Malafia

Ocorreu há uma semana, mais ou menos. Nas redes sociais, no trabalho, nos programas vespertinos de TV, em todo lugar só se falava da entrevista do pastor Silas Malafaia a jornalista Marília Gabriela no seu programa De Frente com Gabi, no SBT.

A princípio não dei muita atenção à repercussão. Fiquei com aquela preguiça de ter que repisar velhos temas.  Além disso, argumentar com a militância, normalmente prenhe de ignorância não é muito estimulante. Mas aí tocaram num ponto que para mim é especialmente caro: a liberdade de expressão. Não foram poucas as manifestações de que o pastor, tratado como um representante das trevas, deveria ser agredido, silenciado, quem sabe banido das TVs e de sua atividade pública. Chegaram, inclusive, a questionar sua formação em psicologia, como se pudessem dizer: "Como um psicólogo pode defender tais coisas?" Não existe para mim nada mais perigoso que a ideia de tirar do outro o direito de discordar. Por isso decidi também expor-me ao debate sem a miníma pretensão de convencer a quem quer que seja, mas para exercer o, por enquanto, direito inalienável de divergir.

Quando, no trabalho, tentavam arrancar de mim alguma declaração a respeito da entrevista, eu, preguiçosamente respondia que não se deveria dar a algumas ideias tanta repercussão. Até então, eu não tinha visto a entrevista, mas dava como barato a possibilidade de o pastor ter defendido pontos de vista preconceituosos e virulentos. Por isso achava que o melhor a fazer era ignorá-lo solenemente. Mas eu sou um ingênuo, um otimista das boas itenções dos indignados. O que eles queriam, e querem é insuflar a ira contra a divergência. Quando percebi o ardil, reagi.

Fui assistir à entrevista. Salvo o nervosismo evidente do pastor, sua retórica que se baseia no falar alto como se o grito desse ao argumento a força que ele precisa para se impor, não houve na entrevista, especificamente na parte sobre a homossexualidade nenhuma novidade que justificasse aquela reação tão hidrofóbica nas redes sociais. Fiquei atento se haveria alguma frase do pastor que incitasse, mesmo subrepticiamente a agressão, ou mesmo a segregação dos homossexuais. Não a encontrei.

Portanto, o que tanto incomodou os militantes gays e aquela gente que na vida privada, sem a audiência dos amigos, detestaria ter um gay na família, mas que por considerar essa ideia em conflito com o politicamente correto,  a esconde e a escamoteia fingindo uma indignação cínica?

O que penso que tenha incomodado a militância gay e os indignados politicamente corretos foi a opinião do pastor que se coloca frontalmente contra o casamento gay, contra a possibilidade de homossexuais, em união estável, adotarem crianças. O pastor também questionou ( e aqui é bastante plausível o debate livre e respeitável entre as parte) a ideia de que o homossexualismo seja um comportamento natural, determinado pelo nascimento. Para o pastor, não existe o gene gay, o que, para ele, indicaria que a homossexualidade é um comportamento imposto ou aprendido. Não conheço genética. Dizem que há estudos que caminham para descobrir o componente genético da homossexualidade. O fato, porém, é que por enquanto não existe na Ciência qualquer consenso sobre o assunto. Mas vejamos: ainda que a Ciência prove que o homossexualismo seja determinado, ou mais apropriadamente, seja uma possibilidade embutida nos genes, um líder religioso, por coerência teológica, jamais poderia admitir a possibilidade de se considerar legítimo o casamento gay ou uma família formada por homossexuais. Repito que todos nós temos o direito de discordar dessa visão do pastor (na verdade do cristianismo e do islamismo) sobre os homossexuais, considerá-la retrógrada, preconceituosa, absurda; mas isso não nos dá, dentro de um regime democrático, o direito de calar a voz discordante, por mais abjeta que nos pareça as convições dessa voz. É evidente que não me refiro às ideias que incitam à prática de crimes. 

Quem, em nome da liberdade, flreta com possibilidade de calar a voz da divergência pode não saber, mas estará colocando sobre o próprio pescoço a corda que o matará.

A militância gay e os indignados politicamente corretos acusam qualquer pessoa que divirja de suas convicções, de preconceituosos e de intolerantes.  Eles acham, naturalmente, que provocações como essas, abaixo, são exemplos de tolerância e de respeito.












Ainda não falei sobre o polêmico Projeto de Lei 122 (PL 122) que transforma em crime, passível de cadeia, a prática da homofobia. Quem poderia se opor a uma lei que prevê punição rigorosa a uma pessoa que por ódio aos gays decide agredi-los e matá-los? É claro que existem imbecis que odeiam e que incitam o ódio aos gays, aos negros, aos nordestinos, às mulheres, enfim, a toda sorte de grupos considerados ou inferiores ou imorais. Essa gente torpe deve, quando pratica o crime de ódio, ir para a cadeia. Quando exala seus preconceitos merece,  além do repúdio dos homens de bem, ter a irrelevância como destino. 

Mas o que o PL 122, lido em todos os seus artigos, parágrafos e incisos propõe é transformar a divergência em crime passível de cadeia. Mais: O que o PL 122 propõe é dar aos homossexuais um estatuto jurídico diferente, tornando-os distintos dos demais cidadãos. Como se o fato de serem gays ou por serem gays lhes garantisse, sob a justificativa da proteção, mais direitos do que os outros. Aprovado do jeito que está, o PL 122 configura-se numa gravíssima ameaça à liberdade de expressão e a igualdade entre os cidadãos. 

Se, por ventura, um militante gay ou um indignado politicamente correto ler esse texto, certamente me tomará por homofóbico. Eis aqui meu ponto principal. O autoritarismo da militância gay não entende como alguém possa simplesmente ser contra o PL 122, sem odiar os gays. Em outras palavras: ou você pensa e defende os mesmos pontos de vista deles, ou então você é um odioso homofóbico. 

Sugiro, por exemplo, a leitura dos artigos 1°, 4°,8° e 16° do PL 122. Por esses artigos e seus parágrafos, percebe-se com absoluta clareza que a divergância de opinião é criminalizada, o que fere inequivocamente o Estado Democrático de Direito.  

O artigo 4°, por exemplo, prevê prisão de 2 a 5 anos para o empregador ou o seu preposto caso ocorra a demissão de um funcionário gay, e este se considere vítima de preconceito. Na prática, o empregador perde o direito de demitir um funcionário homossexual se ele for incompetente ou por questões de mercado, porque haverá sempre o risco, caso esse projeto seja aprovado, de acusar o empregador de homofóbico.

Outro artigo relevante, o oitavo, alínea A, proibe, sob pena de prisão, que se impeça manifestações homoafetivas em lugares públicos ou privados. Ou seja: se numa escola privada haja a proibição de namoros na escola - seja heterossexuais ou homossexuais - o diretor poderá ir para a cadeia caso mantenha a proibição. Suponha que um padre ou um pastor admoeste na pátio de sua igreja um comportamento considerado imoral. Depois dessa lei, se a censura recair sobre os homossexuais, o líder religioso responderá processo e poderá ir para a prisão.

Evidencia-se assim, na minha opinião,  a ameaça que o PL 122 representa à liberdade de expressão e ao princípio de igualdade entre os cidadãos.

Não tenho nada a ver com a vida pessoal ou íntima das pessoas. Não acho que a decência seja atributo exclusivo dos heterossexuais, ou dos religiosos. Há torpeza no ser humano, independente de sua orientação sexual. O que procuro combater é a interdição do debate. A refutação ad hominem, que procura desqualificar o debatedor para não discutir seus argumentos.

Tenho alguns amigos e muitos conhecidos gays. Nunca os rotulei como criatuas à parte. Nunca os intimidei por conta de sua orientação sexual, porque acredito piamente que cada um é livre para exercê-la e expressá-la. Mas sempre que a militância gay e os indignados de ocasião quiserem cassar o meu direito de discordar deles e de suas propostas, vou reagir, execercendo a minha liberdade de expressão para refutá-los.