23 outubro, 2012

O pragmatismo e os petistas



A Verdade e a Mentira segundo os Petistas.


“Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força” – 1984, George Orwell



Antes de começar o meu texto quero fazer uma distinção que considero pertinente para evitar confusão. Enxergo uma diferença entre um petista e um eleitor do PT. O primeiro, filiado ou não, adere sem constrangimentos aos métodos do partido. É cínico, mentiroso e quando confrontado com a verdade, abespinha-se, fica rude e, não raro, recorre à violência verbal, podendo descambar para a agressão física. Esse é o petista clássico.

Um eleitor do PT, que não é exatamente um petista, ainda acredita nos valores democráticos que o partido dizia ter quando foi fundado em 1980. Esse eleitor fica indignado com políticos venais, lastima a situação de penúria de brasileiros que vivem em condições abjetas e sem acesso a um sistema de saúde eficiente e a uma escola de qualidade. Um eleitor do PT sonha com um país "socialmente mais justo", e crê, fortemente, que o PT é um partido comprometido com essas demandas, ou por outra: acredita, de verdade, que nenhum outro partido tenha mais condições de melhorar a vida do povo do que o partido dos trabalhadores.

Os petistas, é claro, também acreditam nisso, mas sabem que é só parte do que eu chamaria de "valores míticos do PT".  Para um petista, pouco importa se o partido vai ou não resolver os problemas que promete resolver. O que importa, a verdadeira missão deles é preservar o mito de que só eles podem fazer isso.

Concluindo: um petista usa a mentira como método, e mente com tanta convicção, que, diante da verdade, usa a tática orwelliana de chamar a verdade de mentira e a mentira de verdade. Já o eleitor do PT, por desconfiar dos outros partidos e dos outros políticos; por falta de informação consistente; e aturdido com as mentiras e as mistificações que o PT e seus reverberadores não se cansam de produzir, agarra-se àquela certeza ingênua de que o PT tem compromisso com os pobres. Os petistas enganam. Os eleitores do PT se deixam enganar.

"Ah, Zé Paulo, então os outros partidos também não usam a mentira como arma de convencimento?", perguntaria o eleitor petista. Sim. Mas nenhum outro partido usa a mentira como método. Nenhum outro partido tem tanta desenvoltura na arte de mentir e enganar. Dificilmente um político não-petista mentiria com tanta frieza e convicção.

E de onde vem essa propensão do petista à mentira? Não é natural, é claro, porque ninguém nasce petista. Conhecer essa origem é o que pretendo responder nesse artigo.

Protágoras de Abdera, famoso sofista que parece ter feito fortuna na Atenas clássica, cunhou a sentença que será retomada muitos séculos depois pelo filósofo norte-americano, William James. Para o sofista grego, "o homem é a medida de todas as coisas". Ou seja, o que torna algo real ou verdadeiro não é a coisa em si, suas premissas, mas a apreensão ou a sensação do que os homens fazem desse algo. Como cada ser humano tem uma percepção particular, a verdade não pode ser única, absoluta, uma vez que a verdade é o que cada ser humano percebe, sente, e, diria James, aceita como verdadeiro. O relativismo foi sem dúvida uma das principais contribuições dos sofistas para a filosofia.

No século XIX, C.S Peirce, filósofo americano, vai exercer sobre um médico e psicólogo compatriota, William James, uma influência decisiva. É verdade que essa influência de Peirce sobre James é fruto do que o segundo achou que o primeiro dissera. Vejam como Russel analisa essa influência:

A doutrina do pragmatismo é estabelecida em alguns dos primeiros trabalhos de Peirce, numa forma que permite, à primeira vista, a inferência que James extraiu deles. Peirce vincula a sua definição da verdade a uma discussão geral da investigação e dos motivos que a estimulam. A investigação surge de algum tipo de insatisfação ou desconforto e diz-se que o seu objetivo é alcançar um estado de repouso do qual tenham sido eliminadas as influências perturbadoras. O critério que se aceita em qualquer desses estágios intermediários de equilíbrio é, até onde se possa saber, a verdade. Mas nunca se pode saber se novas evidências não venham a exigir uma mudança de opinião. (...) Em relação a isso, afirma que a verdade é a opinião à qual, afinal, a comunidade adere. Superficialmente, isto é um absurdo.

Quanto à influência de qualquer verdade particular, Peirce insiste em que qualquer declaração que pretenda ser verdadeira precisa ter consequências práticas. (...) Diz-se que o significado de uma declaração consiste nessas consequências práticas. Foi sob esta forma que James adotou o pragmatismo."¹
Ainda segundo Russel, James, apoiando-se em Peirce (na verdade, naquilo em que acreditou que Peirce dissera), definirá o seu conceito de verdade como aquilo que produz consequências frutíferas.²

O trecho abaixo foi retirado da obra a História da Filosofia, de Will Durant e reproduz o conceito de verdade, segundo William James

O verdadeiro (...) é apenas o conveniente no caminho de nosso pensamento assim como o "direito" é apenas o conveniente no caminho do nosso comportamento. Conveniente é quase qualquer moda; e conveniente a longo prazo, e de modo geral, é claro; porque aquilo que satisfaz convenientemente a todas as experiências à vista não irá necessariamente atender a todas as experiências seguintes de forma igualmente satisfatória(...) A verdade é uma das espécies de bem, e não, como em geral se supõe, uma categoria distinta do bem e coordenada com ele. Verdadeiro é o nome de tudo aquilo que se mostra bom no caminho da crença³

Vemos nesse trecho que William James não acredita, como os sofistas não acreditavam, na verdade objetiva. Mais: para ele a verdade varia com o tempo, como se ele pudesse ter dito que cada época tem a sua verdade. James crê também que o verdadeiro depende das consequências práticas ou frutíferas daquilo que se crê.

Comentando as idéias de Willian James, Will Durant na mesma obra supracitada, analisa:

Se (...) a verdade foi aquilo testado pela experiência e pelo experimento, a resposta só pode ser: "É claro." Se significa que a utilidade pessoal é um teste da verdade, a resposta não pode ser outra: "É claro que não"; utilidade pessoal é apenas utilidade pessoal; só a utilidade permanente universal constituiria a verdade. Quando alguns pragmatistas falam de uma crença que foi verdadeira em determinada época porque então era útil (embora agora invalidada), estão dizendo bobagem com termos eruditos; tratava-se de um engano útil, não de uma verdade.4
 

Para mentirosos contumazes, como são os petistas, a definição que James dá do significado de verdade é um prato cheio. Para estes, se uma declaração mostra-se frutífera, se ela funciona de acordo com os objetivos pré-estabelecidos, ela se torna, pelo pragmatismo de James, verdadeira. Daí a insistência dos petistas em reproduzir à exaustão as mentiras com a certeza, infelizmente corroborada pelos fatos, de que estas mentiras úteis serão aceitas, terão a adesão da comunidade, como diria Peirce, e por isso, passarão como verdade.

Para o petista uma declaração tem quem ser antes de tudo pragmática. Se ela funciona para os objetivos do partido deve ser usada sem pudor ou limites, ainda que seja, como geralmente é, uma enorme enganação.

NOTAS:

1 -Russel, Bertrand; História do Pensamento Ocidental, páginas 445 e 446.
2 - Idem; página 450.
3 - Duran, Will; A História da Filosofia. pág 464
4 - Idem; página 470

20 outubro, 2012

Usina de Belo Monte pra quê?


Acima, a militância contra a Usina Belo Monte.

O vídeo traz dados técnicos sobre a Usina de Belo Monte.

Ao exigir um preço muito baixo para o megawatt-hora, o governo Lula — e a área estava sob o comando da então ministra Dilma — espantou o capital privado, e, na prática, o Tesouro acabou assumindo encargos e riscos excessivos. Muito bem! Essa é uma crítica procedente. E não é só minha. Considerar, no entanto, que a usina é desnecessária ou que o Brasil não pode mais fazer hidrelétricas, aí não dá! Aí estamos diante de uma estupidez que vai além do aceitável!

  Prestem atenção. A Floresta Amazônica toda tem 5,5 milhões de km², 60% dos quais no Brasil (3,3 milhões de km²). Logo, aqueles 640 representam 0,012% do total da floresta e 0,019% da parte brasileira. Vou ter de ser didático. Digamos que Maitê pese 58 kg: 0,019% do seu peso corresponde a 0,01102 kg — seu sutiã é muitas vezes mais pesado. Não sei quantas porque ignoro o peso da peça. Nunca o vi por esse ângulo. Aliás, associado a uma hidrelétrica, também é a primeira vez. Digamos que Marcos Palmeira pese 70 quilos; no seu caso, aquele 0,019% corresponde a 0,0133 kg. Uma de suas orelhas, dada a comparação, equivaleria a muitas usinas de Belo Monte…

 O que mais impressiona nesse vídeo cretino é que, notem!, ele não é contra apenas Belo Monte em particular. É contra a energia hidrelétrica como um todo!!! O fanático que redigiu o texto descobriu que ela também é uma energia suja. E aí vem aquele que, pra mim, é o grande momento. Ainda de sutiã, Maitê Proença faz um ar sábio, de quem estudou profundamente o assunto, e indaga: “De onde tiraram essa idéia de que hidrelétrica é energia limpa?” Huuummm… Ela parece saber mais do que nós. Um dos filhos de Chico Anysio, também não vou pesquisar qual, sei que é humorista, faz o contraponto, o bobo, o ingênuo, e diz: “Energia elétrica é energia limpa; é muito melhor que usina nuclear e carvão”. Bem, é mesmo! Mas não no vídeo! Então Letícia Sabatella assombra o mundo: “Seria energia limpa se fosse no deserto, mas na floresta?”


Um terço da capacidade?
A mais desonesta de todas as críticas é a que sustenta que a usina vai gerar apenas “um terço de sua capacidade”, conforme diz um dos ignorantes convictos, também não sei quem. Ai, ai… Assim será porque se decidiu fazer a usina pelo sistema fio d’água, sem reservatório, justamente para diminuir o impacto ambiental, o que já é temerário. Belo Monte terá capacidade para produzir até 11.233 MW, mas vai gerar, na média, 4.571 MW médios. Por quê? No período chuvoso, funcionará com potência máxima; na seca, cairá para 690 MW por causa justamente da falta de reservatório.

SE HÁ ALGUMA ESCOLHA ERRADA EM BELO MONTE, E HÁ, ELA ESTÁ JUSTAMENTE EM TER CEDIDO À PRESSÃO DOS AMBIENTALISTAS ALOPRADOS. Olhem aqui: ainda que Belo Monte alagasse uma área 20 vezes maior (11.280 km²) — fazendo, pois, o reservatório —, isso corresponderia a 0,34% da parte brasileira da Floresta Amazônica. Se Letícia Sabatella pesa 57 kg, um alagamento de Belo Monte 20 vezes maior corresponderia a 0,19 kg do seu peso. Seu cérebro consegue ser bem mais pesado do que isso… Será que essa gente tem noção da besteira que está falando ou acha que matemática é coisa de reacionários que não gostam do meio ambiente?
Mesmo com Belo Monte, Jirau e Santo Antônio produzindo, mas sem os reservatórios —  para proteger os bagres da Maitê, da Sabatella e da Marina —, o Brasil passa a correr riscos no período de secas e terá de recorrer, sim, a sistemas de emergência, como termelétricas, por exemplo. Vale dizer: o país já deu atenção demais aos bagres e atenção de menos às pessoas.


A falácia do preço

Outra coisa ridícula é essa história dos R$ 30 bilhões. Sim, eu fui um dos grandes críticos do peso excessivo que o Estado vai ter na construção de Belo Monte. Lá está o link. No arquivo, há outros textos. A iniciativa privada deveria estar bem mais presente. Mas daí a tentar provocar a indignação com essa coisinha estúpida: “É o seu dinheiro! Dos impostos!” Certo, especialistas! E a energia será gerada para quem? Para os marcianos? Quem será o beneficiado?
Artista pode falar. Não há lei que proíba. Mas também não há lei que os impeça de estudar, de se informar, de fazer conta, de ter senso de ridículo. Notem o arzinho enfatuado com que se dirigem ao público, com pose de especialistas. Murilo Benício, com a sua habitual cara de quem acabou de acordar, diz, com laivos de ironia sonolenta, que “índio quer educação, conforto…” E não quer??? Ary Fontoura faz blague: “Índio precisa de antibiótico”. Por quê? Não precisa??? Ciça Guimarães, na linha “a loura tonta”, pergunta: “Ainda tem índio no Brasil?”

Tem, sim, minha senhora! Proporcionalmente, eles são donos da maior fatia do território brasileiro. Correspondem a 0,7% da população brasileira (isso porque mais gente passou a ser “índia” depois das dermarcações) e tem sob seu domínio, hoje, 13% do território do país. Eu tenho a certeza absoluta de que todos ali, sem exceção, ignoram esses dados. Eu tenho a certeza absoluta de que todos ali, sem exceção, ignoram que o Brasil, se crescer de forma sustentada a 4,5%, 5% ao ano (e, para reduzir a pobreza num ritmo mais acelerado, seria preciso mais do que isso), corre o risco de sofrer apagões. Apagões que punirão os pobres, não os bacanas da TV Globo
Fonte das informações escritas, aqui. 

Não ficou satisfeito? Tudo bem. Há mais dados aqui.