29 maio, 2012

Quando Vidas Secas era uma novidade



O ESTADO DE SÃO PAULO: PÁGINAS DA EDIÇÃO DE 28 DE Maio DE 1938 - PAG. 3








Dessas tendências [refere-se ao movimento modernista], destaca-se a que faz o exame da vida e da psicologia dos humildes, o tema predileto dos nossos romancistas modernos.  Aqui está, para prova-lo, o novo romance do Sr. Graciliano Ramos, intitulado “Vidas Secas”. Com aquela precisão de traços, a que nos habituou, evoca o romancista, nesse livro melancólico, a vida sem horizontes, triste e atribulada, de uma família de roceiros do Nordeste, fustigados pela seca e por outras calamidades, mas que não chega a desesperar porque, abençoadamente, não falta ao seu chefe, oráculo infalível dos que o cercam, um largo poder de ilusão que o traz numa primavera permanente de esperanças.

Curiosa a psicologia desse sertanejo! Vigoroso e resistente, o hábito da obediência e da miséria tirou-lhe a energia para repelir as ofensas. Maltratado por um soldado fraco e pusilânime, não soube, entretanto, vingar-se da ofensa quando mais tarde, em certa ocasião, o teve no mato à sua mercê. A lembrança do que padeceram os seus tolheu-lhe os movimentos de reação. Tinha um apego imenso à família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé, não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos... Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha.

Amante da família, amigo dos filhos, houve um momento, todavia, quando vagava de déo em déo¹ acossado pela seca em que pensou abandonar o filho num descampado. Mas os bons sentimentos retomaram, logo, na sua alma, o domínio habitual:  “pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja e, resoluto examinou os arredores...  Meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostado no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e teve pena. Entregou a espingarda à mulher, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos... E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande”.

Explorado cruelmente no seu trabalho, resolve o sertanejo sair para o mundo com a família: “Iriam para adiante, alcançariam uma terra desconhecida. Estava contente e acreditava nessa terra porque não sabia como ela era nem onde era... E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois, velhinhos, como uns cachorros inúteis”.

Tudo isso, todo esse tristonho desenrolar de vidas secas é, pelo romancista, entremeado de pinturas de costumes e de narrações de episódios em que se acusam os seus dotes de fiel observador da realidade e os seus predicados de artista.

Tais, entre outros, à marcha da família em busca de trabalho, as aventuras do sertanejo quando se dirigiu à feira da cidade para comprar mantimentos,  as travessuras de um dos pequenos culminada pela montaria de um bode e a morte da cadelinha, que era o enlevo das crianças.

Há, em todas essas páginas, muita palpitação de vida.



1 - O termo em negrito eu transcrevi exatamente como aparece na edição do Estadão de 28 de maio de 1938. Não consegui entender o significado. Quem puder me ajudar, eu agradeço.

2 comentários:

Anônimo disse...

Déo em Déo, termo usado tanto pela minha avó! De casa em casa, de um lugar ao outro, de lá pra cá...

Zé Costa disse...

Muito obrigado pelo esclarecimento.