06 maio, 2012

Defender a cotas é coisa de Patriota?








Um vermelho e azul com Cristovam Buarque.


A cor da elite
A cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica
05 de Maio de 2012 às 10:03 




Anos atrás, visitando o campus da Universidade de Brasília (UnB) com uma professora norte-americana, perguntei qual a diferença da paisagem arquitetônica do nosso campus para um campus nos EUA. Esperei que dissesse: "São parecidos." Mas, depois de olhar ao redor, ela disse: "Não têm negros." Respondi que no Brasil, como também nos EUA, os negros não têm boas escolas na educação de base. Ela perguntou: "Por que não adotam cota para negros, como nos EUA?"

Cristovam Buarque foi reitor da Universidade de Brasília (Unb), de onde saiu para ser governador do DF (1994-1998). No seu tempo como reitor não adotou, sequer discutiu essa possibilidade. Certamente havia outros problemas mais urgentes a resolver na universidade. O que me chamou atenção nesse texto foi, ainda que na forma de relato, a confissão objetiva de que o sistema de cotas raciais adotados pela UnB teve como exemplo máximo, os EUA. E por que isso é importante?  Por que revela que os racialistas veem uma semelhança entre o que ocorreu nos EUA com os negros e o que ocorreu no Brasil. Considerar os dois processos como similares, é uma profunda ignorância ou apenas má fé.

Cristovam deveria ter dito à sua amiga professora que não são os negros que não tem boas escolas, mas os pobres, não importa a cor da pele que eles tenham. Adotar a sugestão da amiga seria excluir uma significativa parcela de pobres de pele branca ou clara do direito de participar do processo, em condições de igualdade, com seus colegas de escola ruim que nasceram com a pela preta ou mais escura.

Na próxima semana, o Brasil completará 124 anos da abolição sem ter embaixadores negros. Atualmente há no Congresso Nacional apenas um senador negro e 43 deputados federais que assumiram serem afrodescendentes; temos apenas 2% de médicos, 10% de engenheiros e 1% de professores universitários que podem ser considerados negros. Os Estados Unidos já elegeram um presidente negro, mas o Brasil dificilmente terá um presidente negro nas próximas décadas.

Os dados acima tem um objetivo claro: se não temos embaixadores negros (isso vai durar pouco porque o MRE já instituiu um programa que privilegia candidatos negros na disputa por vagas do Instituto Rio Branco, que forma diplomatas); ou mesmo poucos negros no Congresso Nacional e nas universidades; se, segundo Cristovam, dificilmente teremos um presidente negro, só pode ser  porque somos racistas, não é? É o mesmo vício original. Ter um presidente, um diplomata, um médico, advogado, engenheiro ou professor negro é tão irrelevante quanto se eles fossem verdes, brancos ou azuis. Nós precisamos ter gente séria e competente e, nos casos de políticos, também honestos, não importa a cor da pele. O que o senhor está propondo tem história, e é muito antiga. No começo do século XX, Du Bois, com muito mais clareza, defendia nos Estados Unidos a ideia de que era preciso formar uma elite negra (os famosos 10%) para liderar a massa de negros no país, a fim de que essa massa tivesse orgulho da raça. Mais uma vez temos uma ideologia que importamos de um país cuja realidade da segregação é tão diferente da nossa que adotar os remédios que eles adotaram apenas produzirá, sendo otimista, uma divisão entre os brasileiros em critérios raciais.

Na semana passada, depois de nove anos de adotadas pela UnB, as cotas raciais foram reconhecidas como legais pelo STF - Supremo Tribunal Federal. Nesse período, três mil alunos foram admitidos pela cota racial na UnB e mil concluíram seus cursos, graças ao ingresso usando as cotas. Todos os estudos mostram que esses alunos tiveram um desempenho, no mínimo, equivalente à média dos demais alunos. Isso se explica porque todos os alunos beneficiados pelas cotas são necessariamente aprovados no vestibular.
Apesar disso, por quase 20 anos, um intenso debate vem sendo feito entre os que são a favor e os que são contrários a esse sistema, porque até hoje não houve entendimento correto do instituto das cotas raciais e seu propósito, nem entre os favoráveis, nem entre os opositores.

Eu fico aqui pensando se o senador Cristovam esperava um sistema de cotas raciais onde os candidatos negros entrassem na UnB de forma compulsória, apenas por causa da sua cor. É claro que eles tinham que fazer o vestibular, ou não? E aqui aproveito para explicar uma coisa. É enganoso imaginar que um aluno cotista de qualquer curso oferecido na universidade, será menos competente depois de formado do que um aluno não cotista. Um médico que se formou na UnB e que entrou pelo sistema de cotas terá, se formado, a mesma competência de um médico que entrou pelo sistema universal. Quando me oponho ao sistema de cotas é porque o considero injusto com os brancos pobres, que estudaram em escolas ruins e que por causa da cor da pele terão ainda mais dificuldades para entrar na UnB. Quando me oponho ao sistema de cotas, é porque enxergo nesse sistema um perigo real de dividirmos os brasileiros por critérios raciais, e, confesso, temo que daqui a alguns anos a gente se depare com manifestações de ódio racial, algo que felizmente o Brasil não conheceu.

Cristovam afirma que os que são favoráveis e os que se opõem ao sistema de cotas raciais ainda não entenderam o sistema. Ele vai nos explicar.

Os opositores dizem, com razão, que este é um "jeitinho" equivocado, porque a verdadeira solução para resolver a desigualdade racial na universidade seria uma educação de base de qualidade para todos. Realmente a maneira correta de resolver esse problema é a educação de base com qualidade e igual para todos. Temos bons jogadores de futebol negros porque a bola é redonda para todos, mas nossas escolas são redondas apenas para os poucos que têm renda para cursar uma boa escola no ensino fundamental e no ensino médio. Mas para fazer todas nossas escolas redondas, com qualidade, e dar resultado na mudança da cor da cara da elite serão necessários 20 anos. Isso se nós estivéssemos fazendo hoje o nosso dever de casa para mudar a educação. E não estamos.

Senador, sua metáfora é absolutamente pueril. O senhor reconhece que o sistema de cotas é um “jeitinho” equivocado, que o certo seria garantir escola de qualidade para todos os brasileiros, sem distinção, mas, veja que coisa, isso levaria 20 anos, e é preciso corrigir logo esse abismo, ainda que o custo seja prejudicar os pobres de outra cor. E a metáfora? Ora, dizer que só temos bons jogadores negros de futebol porque a bola é redonda é de uma infelicidade constrangedora. Seria o equivalente dizer que só temos bons jogadores brancos de tênis porque a bola é redonda para todos. Aliás, senador, os negros que alcançaram fama e reconhecimento no futebol, no basquete ou no vôlei não precisaram de cotas para isso. Precisaram apenas do seu talento. Não pediram favor para jogar, jogaram porque provaram que eram bons e mereciam a chance. A escola ruim não é redonda apenas para os negros, mas para os pobres e de todas as cores.

Tanto os que são contrários às cotas raciais quanto aqueles favoráveis enfocam o assunto pelo lado individualista de oferecer uma escada social a um jovem negro. Continuam pensando que as cotas visam a beneficiar o aluno que obtém a vaga. Não percebem o papel da cota racial como o caminho para o Brasil apresentar com orgulho uma sociedade com elite tão multirracial quanto seu povo.

A cota social beneficia o aluno, a cota racial beneficia o Brasil, possibilitando o ingresso de jovens negros na carreira profissional de nível superior. Certamente jovens escolhidos entre aqueles de classe média, que concluíram o ensino médio e passaram no vestibular porque foram bem preparados em uma boa escola, portanto provavelmente não pobres. Serão pessoalmente beneficiados, mas prestarão um serviço patriótico ao ajudarem, pelo estudo, a mudar a cor da cara da elite brasileira.

Finalmente, o senador explica porque ele acha o sistema de cotas raciais correto! E, confesso, prefiro a explicação dos racialistas, é mais honesta. Para o senador, defender as cotas é ser patriota. Donde se conclui que quem não as defende, até pode não ser racista (como acusam os racialistas), mas certamente não é patriota. O senador afirma, para o meu espanto, que os brancos pobres, embora prejudicados, devem entender o sistema de cotas por amor ao Brasil!

A cota racial para a universidade nada tem a ver com a cota social. Esta atenderia jovens pobres para compensá-los pelo que lhes negamos na infância. É um benefício justo; a cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica.

Aqui, aplaudo o senador. Ele vai ao ponto. A cota racial não tem nada a ver com política social. Não se quer beneficiar os pobres, quer se privilegiar os negros. Para os racialistas isso se justifica para se reparar a injustiça da escravidão; para o senador, a cota racial é uma medida de quem ama o país. Você que se opõe ao sistema de cotas só o faz porque é racista ou porque não ama o país! Em ambos os casos, eles satanizam os que se opõem e, isso, desculpem, é uma visão totalitária do assunto.

Os que lutam pela cota racial nas universidades não lutam pela erradicação do analfabetismo entre adultos negros, nem para que os negros pobres tenham escolas com a mesma qualidade dos ricos brancos. E aqueles que defendem as cotas sociais no lugar das raciais não defendem cotas sociais no ensino fundamental e médio, nos colégios federais e mesmo nas escolas particulares de qualidade. Esta sim seria cota social. A cota social na educação de base nunca atraiu os defensores da cota racial nem aqueles que se opõem a ela e que usam a ideia de social contra a de racial. Os que defendem cotas sociais para as universidades, em vez das cotas raciais, provavelmente ficarão contra as cotas sociais nas boas escolas da educação de base, obrigando as escolas caras a receberem alunos pobres, sem mensalidade ou com uma bolsa do tipo Prouni.

Aqui o senador ficou confuso. Não sabia exatamente como terminar o artigo e resolveu, para ser equilibrado, criticar todo mundo. No final, a gente fica sem entender o que ele defende.

Que os racialistas não estão interessados na educação básica é ponto de consenso. Eles estão pouco se lixando para o negro pobre. O que eles querem é aumentar a quantidade de negros nas universidades com propósitos políticos. O que eles querem é fomentar a ideologia de que o Brasil se constitui num país formado por duas nações-raça que dividem o mesmo espaço. O que eles querem é combater a visão de que o brasileiro é miscigenado, que nunca se identificou por critérios raciais. O objetivo deles não é sequer combater o racismo, embora eles não afirmem isso, porque racismo não se combate com cotas raciais, mas com educação e punição aos racistas.

O senador Cristovam, meu Deus, flerta com a ideia de que para ser justo deveria haver cotas nas escolas públicas federais (fui aluno de uma) Assim, quem sabe, estaríamos resgatando os pobres desse país. Temo que daqui a pouco o sistema de cotas – raciais ou sociais – vire uma tendência em vários setores. E aí, os racialistas, finalmente, alcançarão o seu intento. Fazer do Brasil uma nação bicolor, que se identifica pela cor da pele.


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