21 maio, 2012

PT X PT ou Acabou a Frente Popular?





Aqui vai um texto que poderá parecer, para alguns, premonitório, mas que não passa de especulação política, confesso. Mas nem por isso desprovido de lógica.

Hoje o PT do Recife foi às urnas para escolher o candidato do partido à sucessão na cidade. Há doze anos no poder, o PT paga um preço muito alto pela hegemonia política na capital de Pernambuco.

Sem um concorrente à altura e com um arco de aliança imenso, a Frente Popular liderada pelo PT desde 2000, além dos 12 anos de administração na cidade, conta com um correligionário de peso: o governador Eduardo Campos, do PSB.

A sucessão no Recife, portanto, parecia favas contadas, não fosse por um pequeno detalhe: o atual prefeito, João da Costa, tem recebido uma péssima avaliação na cidade, o que levou a cúpula do PT a propor o impossível: que o atual prefeito desistisse da candidatura à reeleição e cedesse lugar a outro nome do partido. Para piorar, os partidos aliados, como o PSB e o PTB, condicionaram a manutenção da Frente Popular à desistência de João da Costa, do contrário, a Frente se desmancharia, e isso traria consequências imprevisíveis.

Pois bem: João da Costa não desistiu, e o PT se viu constrangido a aceitar uma eleição primária na cidade para a escolha do candidato petista à prefeitura do Recife. O resultado da primária saiu hoje, no começo da noite, depois de um processo turbulento, com brigas, liminares e desaforos entre os dois grupos; e o que todos temiam aconteceu: João da Costa venceu com quase 500 votos de diferença para Maurício Rands, o preferido da cúpula do partido e da Frente Popular.

E agora? Ninguém sabe ao certo e por isso não me custa especular.

De concreto mesmo é que o PT do Recife não vai se pacificar. A cúpula do partido na cidade e no estado, até mesmo na Executiva Nacional não esperavam a vitória de Costa e já fala abertamente em anular a primária. O próprio Rands não reconheceu a vitória do oponente. A julgar pelo que conheço do PT, João da Costa pode até comemorar sua vitória pessoal, mas há uma grande chance de perder essa parada. Por outro lado, se o PT não reconhecer a vitória de Costa, e, na base da intervenção, impor Rands como candidato, o partido vai para a campanha enfraquecido, com uma militância dividida e oferecendo um belo discurso para a oposição.

Antevejo dois cenários: o primeiro, menos provável, com João da Costa saindo candidato e vendo a Frente Popular esfarelar-se. Nesse cenário não seria impossível o PSB de Eduardo se debandar para o PMDB de Raul Henry, cujo padrinho é o senador Jarbas Vasconcelos, que vem se aproximando do governador de Pernambuco e antigo adversário político. Há sempre a hipótese de Eduardo apoiar alguém do PSB, mas duvido que isso aconteça.

Esse cenário poderia trazer desdobramentos em São Paulo, onde o PSB da cidade deseja apoiar o candidato José Serra, mas a direção nacional dos socialistas evitar esse compromisso. Caso Eduardo rompa com o PT na cidade do Recife, aumentam as chances do PSB paulista fechar com Serra.

O outro cenário, que acredito ser o mais provável, é a intervenção do PT nacional na primária. João da costa seria afastado do processo e a executiva do PT iria impor Maurício Rands ou outro candidato (quem sabe até mesmo João Paulo, o preferido na cidade, segundo pesquisas de opinião).  Nesse caso, o PT continuaria competitivo, poderia até mesmo manter a Frente unida, mas a eleição, que antes parecia fácil, tornar-se -ia imprevisível.

Chamo atenção para outro fato e que depois talvez me estenda mais sobre ele. Toda essa confusão na Frente Popular decorre do enfraquecimento da oposição na cidade. PMDB, PPS e DEM não conseguem formar um quadro político competitivo porque perderam o discurso e o interesse pelo embate político. Daí que a disputa no Recife se dê entre os aliados que brigam intensamente pelo poder. Nesse aspecto perde-se a vitalidade da democracia e a sucessão se transforma numa briga de facções de uma mesma família. Se a Frente vai permanecer eu não sei, mas ela está fatalmente com os dias contados em Recife e em Pernambuco.



Nenhum comentário: