29 maio, 2012

Quando Vidas Secas era uma novidade



O ESTADO DE SÃO PAULO: PÁGINAS DA EDIÇÃO DE 28 DE Maio DE 1938 - PAG. 3








Dessas tendências [refere-se ao movimento modernista], destaca-se a que faz o exame da vida e da psicologia dos humildes, o tema predileto dos nossos romancistas modernos.  Aqui está, para prova-lo, o novo romance do Sr. Graciliano Ramos, intitulado “Vidas Secas”. Com aquela precisão de traços, a que nos habituou, evoca o romancista, nesse livro melancólico, a vida sem horizontes, triste e atribulada, de uma família de roceiros do Nordeste, fustigados pela seca e por outras calamidades, mas que não chega a desesperar porque, abençoadamente, não falta ao seu chefe, oráculo infalível dos que o cercam, um largo poder de ilusão que o traz numa primavera permanente de esperanças.

Curiosa a psicologia desse sertanejo! Vigoroso e resistente, o hábito da obediência e da miséria tirou-lhe a energia para repelir as ofensas. Maltratado por um soldado fraco e pusilânime, não soube, entretanto, vingar-se da ofensa quando mais tarde, em certa ocasião, o teve no mato à sua mercê. A lembrança do que padeceram os seus tolheu-lhe os movimentos de reação. Tinha um apego imenso à família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé, não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos... Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha.

Amante da família, amigo dos filhos, houve um momento, todavia, quando vagava de déo em déo¹ acossado pela seca em que pensou abandonar o filho num descampado. Mas os bons sentimentos retomaram, logo, na sua alma, o domínio habitual:  “pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja e, resoluto examinou os arredores...  Meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostado no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e teve pena. Entregou a espingarda à mulher, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos... E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande”.

Explorado cruelmente no seu trabalho, resolve o sertanejo sair para o mundo com a família: “Iriam para adiante, alcançariam uma terra desconhecida. Estava contente e acreditava nessa terra porque não sabia como ela era nem onde era... E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois, velhinhos, como uns cachorros inúteis”.

Tudo isso, todo esse tristonho desenrolar de vidas secas é, pelo romancista, entremeado de pinturas de costumes e de narrações de episódios em que se acusam os seus dotes de fiel observador da realidade e os seus predicados de artista.

Tais, entre outros, à marcha da família em busca de trabalho, as aventuras do sertanejo quando se dirigiu à feira da cidade para comprar mantimentos,  as travessuras de um dos pequenos culminada pela montaria de um bode e a morte da cadelinha, que era o enlevo das crianças.

Há, em todas essas páginas, muita palpitação de vida.



1 - O termo em negrito eu transcrevi exatamente como aparece na edição do Estadão de 28 de maio de 1938. Não consegui entender o significado. Quem puder me ajudar, eu agradeço.

27 maio, 2012

Uma pequena entrevista


Essa entrevista foi concedida há cerca de trê anos para uma atividade do Colégio La Salle conhecida como Mostra Cultural. Houve, soube depois, quem rasgou as próprias vestes após ouvi-la.

21 maio, 2012

PT X PT ou Acabou a Frente Popular?





Aqui vai um texto que poderá parecer, para alguns, premonitório, mas que não passa de especulação política, confesso. Mas nem por isso desprovido de lógica.

Hoje o PT do Recife foi às urnas para escolher o candidato do partido à sucessão na cidade. Há doze anos no poder, o PT paga um preço muito alto pela hegemonia política na capital de Pernambuco.

Sem um concorrente à altura e com um arco de aliança imenso, a Frente Popular liderada pelo PT desde 2000, além dos 12 anos de administração na cidade, conta com um correligionário de peso: o governador Eduardo Campos, do PSB.

A sucessão no Recife, portanto, parecia favas contadas, não fosse por um pequeno detalhe: o atual prefeito, João da Costa, tem recebido uma péssima avaliação na cidade, o que levou a cúpula do PT a propor o impossível: que o atual prefeito desistisse da candidatura à reeleição e cedesse lugar a outro nome do partido. Para piorar, os partidos aliados, como o PSB e o PTB, condicionaram a manutenção da Frente Popular à desistência de João da Costa, do contrário, a Frente se desmancharia, e isso traria consequências imprevisíveis.

Pois bem: João da Costa não desistiu, e o PT se viu constrangido a aceitar uma eleição primária na cidade para a escolha do candidato petista à prefeitura do Recife. O resultado da primária saiu hoje, no começo da noite, depois de um processo turbulento, com brigas, liminares e desaforos entre os dois grupos; e o que todos temiam aconteceu: João da Costa venceu com quase 500 votos de diferença para Maurício Rands, o preferido da cúpula do partido e da Frente Popular.

E agora? Ninguém sabe ao certo e por isso não me custa especular.

De concreto mesmo é que o PT do Recife não vai se pacificar. A cúpula do partido na cidade e no estado, até mesmo na Executiva Nacional não esperavam a vitória de Costa e já fala abertamente em anular a primária. O próprio Rands não reconheceu a vitória do oponente. A julgar pelo que conheço do PT, João da Costa pode até comemorar sua vitória pessoal, mas há uma grande chance de perder essa parada. Por outro lado, se o PT não reconhecer a vitória de Costa, e, na base da intervenção, impor Rands como candidato, o partido vai para a campanha enfraquecido, com uma militância dividida e oferecendo um belo discurso para a oposição.

Antevejo dois cenários: o primeiro, menos provável, com João da Costa saindo candidato e vendo a Frente Popular esfarelar-se. Nesse cenário não seria impossível o PSB de Eduardo se debandar para o PMDB de Raul Henry, cujo padrinho é o senador Jarbas Vasconcelos, que vem se aproximando do governador de Pernambuco e antigo adversário político. Há sempre a hipótese de Eduardo apoiar alguém do PSB, mas duvido que isso aconteça.

Esse cenário poderia trazer desdobramentos em São Paulo, onde o PSB da cidade deseja apoiar o candidato José Serra, mas a direção nacional dos socialistas evitar esse compromisso. Caso Eduardo rompa com o PT na cidade do Recife, aumentam as chances do PSB paulista fechar com Serra.

O outro cenário, que acredito ser o mais provável, é a intervenção do PT nacional na primária. João da costa seria afastado do processo e a executiva do PT iria impor Maurício Rands ou outro candidato (quem sabe até mesmo João Paulo, o preferido na cidade, segundo pesquisas de opinião).  Nesse caso, o PT continuaria competitivo, poderia até mesmo manter a Frente unida, mas a eleição, que antes parecia fácil, tornar-se -ia imprevisível.

Chamo atenção para outro fato e que depois talvez me estenda mais sobre ele. Toda essa confusão na Frente Popular decorre do enfraquecimento da oposição na cidade. PMDB, PPS e DEM não conseguem formar um quadro político competitivo porque perderam o discurso e o interesse pelo embate político. Daí que a disputa no Recife se dê entre os aliados que brigam intensamente pelo poder. Nesse aspecto perde-se a vitalidade da democracia e a sucessão se transforma numa briga de facções de uma mesma família. Se a Frente vai permanecer eu não sei, mas ela está fatalmente com os dias contados em Recife e em Pernambuco.



06 maio, 2012

Defender a cotas é coisa de Patriota?








Um vermelho e azul com Cristovam Buarque.


A cor da elite
A cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica
05 de Maio de 2012 às 10:03 




Anos atrás, visitando o campus da Universidade de Brasília (UnB) com uma professora norte-americana, perguntei qual a diferença da paisagem arquitetônica do nosso campus para um campus nos EUA. Esperei que dissesse: "São parecidos." Mas, depois de olhar ao redor, ela disse: "Não têm negros." Respondi que no Brasil, como também nos EUA, os negros não têm boas escolas na educação de base. Ela perguntou: "Por que não adotam cota para negros, como nos EUA?"

Cristovam Buarque foi reitor da Universidade de Brasília (Unb), de onde saiu para ser governador do DF (1994-1998). No seu tempo como reitor não adotou, sequer discutiu essa possibilidade. Certamente havia outros problemas mais urgentes a resolver na universidade. O que me chamou atenção nesse texto foi, ainda que na forma de relato, a confissão objetiva de que o sistema de cotas raciais adotados pela UnB teve como exemplo máximo, os EUA. E por que isso é importante?  Por que revela que os racialistas veem uma semelhança entre o que ocorreu nos EUA com os negros e o que ocorreu no Brasil. Considerar os dois processos como similares, é uma profunda ignorância ou apenas má fé.

Cristovam deveria ter dito à sua amiga professora que não são os negros que não tem boas escolas, mas os pobres, não importa a cor da pele que eles tenham. Adotar a sugestão da amiga seria excluir uma significativa parcela de pobres de pele branca ou clara do direito de participar do processo, em condições de igualdade, com seus colegas de escola ruim que nasceram com a pela preta ou mais escura.

Na próxima semana, o Brasil completará 124 anos da abolição sem ter embaixadores negros. Atualmente há no Congresso Nacional apenas um senador negro e 43 deputados federais que assumiram serem afrodescendentes; temos apenas 2% de médicos, 10% de engenheiros e 1% de professores universitários que podem ser considerados negros. Os Estados Unidos já elegeram um presidente negro, mas o Brasil dificilmente terá um presidente negro nas próximas décadas.

Os dados acima tem um objetivo claro: se não temos embaixadores negros (isso vai durar pouco porque o MRE já instituiu um programa que privilegia candidatos negros na disputa por vagas do Instituto Rio Branco, que forma diplomatas); ou mesmo poucos negros no Congresso Nacional e nas universidades; se, segundo Cristovam, dificilmente teremos um presidente negro, só pode ser  porque somos racistas, não é? É o mesmo vício original. Ter um presidente, um diplomata, um médico, advogado, engenheiro ou professor negro é tão irrelevante quanto se eles fossem verdes, brancos ou azuis. Nós precisamos ter gente séria e competente e, nos casos de políticos, também honestos, não importa a cor da pele. O que o senhor está propondo tem história, e é muito antiga. No começo do século XX, Du Bois, com muito mais clareza, defendia nos Estados Unidos a ideia de que era preciso formar uma elite negra (os famosos 10%) para liderar a massa de negros no país, a fim de que essa massa tivesse orgulho da raça. Mais uma vez temos uma ideologia que importamos de um país cuja realidade da segregação é tão diferente da nossa que adotar os remédios que eles adotaram apenas produzirá, sendo otimista, uma divisão entre os brasileiros em critérios raciais.

Na semana passada, depois de nove anos de adotadas pela UnB, as cotas raciais foram reconhecidas como legais pelo STF - Supremo Tribunal Federal. Nesse período, três mil alunos foram admitidos pela cota racial na UnB e mil concluíram seus cursos, graças ao ingresso usando as cotas. Todos os estudos mostram que esses alunos tiveram um desempenho, no mínimo, equivalente à média dos demais alunos. Isso se explica porque todos os alunos beneficiados pelas cotas são necessariamente aprovados no vestibular.
Apesar disso, por quase 20 anos, um intenso debate vem sendo feito entre os que são a favor e os que são contrários a esse sistema, porque até hoje não houve entendimento correto do instituto das cotas raciais e seu propósito, nem entre os favoráveis, nem entre os opositores.

Eu fico aqui pensando se o senador Cristovam esperava um sistema de cotas raciais onde os candidatos negros entrassem na UnB de forma compulsória, apenas por causa da sua cor. É claro que eles tinham que fazer o vestibular, ou não? E aqui aproveito para explicar uma coisa. É enganoso imaginar que um aluno cotista de qualquer curso oferecido na universidade, será menos competente depois de formado do que um aluno não cotista. Um médico que se formou na UnB e que entrou pelo sistema de cotas terá, se formado, a mesma competência de um médico que entrou pelo sistema universal. Quando me oponho ao sistema de cotas é porque o considero injusto com os brancos pobres, que estudaram em escolas ruins e que por causa da cor da pele terão ainda mais dificuldades para entrar na UnB. Quando me oponho ao sistema de cotas, é porque enxergo nesse sistema um perigo real de dividirmos os brasileiros por critérios raciais, e, confesso, temo que daqui a alguns anos a gente se depare com manifestações de ódio racial, algo que felizmente o Brasil não conheceu.

Cristovam afirma que os que são favoráveis e os que se opõem ao sistema de cotas raciais ainda não entenderam o sistema. Ele vai nos explicar.

Os opositores dizem, com razão, que este é um "jeitinho" equivocado, porque a verdadeira solução para resolver a desigualdade racial na universidade seria uma educação de base de qualidade para todos. Realmente a maneira correta de resolver esse problema é a educação de base com qualidade e igual para todos. Temos bons jogadores de futebol negros porque a bola é redonda para todos, mas nossas escolas são redondas apenas para os poucos que têm renda para cursar uma boa escola no ensino fundamental e no ensino médio. Mas para fazer todas nossas escolas redondas, com qualidade, e dar resultado na mudança da cor da cara da elite serão necessários 20 anos. Isso se nós estivéssemos fazendo hoje o nosso dever de casa para mudar a educação. E não estamos.

Senador, sua metáfora é absolutamente pueril. O senhor reconhece que o sistema de cotas é um “jeitinho” equivocado, que o certo seria garantir escola de qualidade para todos os brasileiros, sem distinção, mas, veja que coisa, isso levaria 20 anos, e é preciso corrigir logo esse abismo, ainda que o custo seja prejudicar os pobres de outra cor. E a metáfora? Ora, dizer que só temos bons jogadores negros de futebol porque a bola é redonda é de uma infelicidade constrangedora. Seria o equivalente dizer que só temos bons jogadores brancos de tênis porque a bola é redonda para todos. Aliás, senador, os negros que alcançaram fama e reconhecimento no futebol, no basquete ou no vôlei não precisaram de cotas para isso. Precisaram apenas do seu talento. Não pediram favor para jogar, jogaram porque provaram que eram bons e mereciam a chance. A escola ruim não é redonda apenas para os negros, mas para os pobres e de todas as cores.

Tanto os que são contrários às cotas raciais quanto aqueles favoráveis enfocam o assunto pelo lado individualista de oferecer uma escada social a um jovem negro. Continuam pensando que as cotas visam a beneficiar o aluno que obtém a vaga. Não percebem o papel da cota racial como o caminho para o Brasil apresentar com orgulho uma sociedade com elite tão multirracial quanto seu povo.

A cota social beneficia o aluno, a cota racial beneficia o Brasil, possibilitando o ingresso de jovens negros na carreira profissional de nível superior. Certamente jovens escolhidos entre aqueles de classe média, que concluíram o ensino médio e passaram no vestibular porque foram bem preparados em uma boa escola, portanto provavelmente não pobres. Serão pessoalmente beneficiados, mas prestarão um serviço patriótico ao ajudarem, pelo estudo, a mudar a cor da cara da elite brasileira.

Finalmente, o senador explica porque ele acha o sistema de cotas raciais correto! E, confesso, prefiro a explicação dos racialistas, é mais honesta. Para o senador, defender as cotas é ser patriota. Donde se conclui que quem não as defende, até pode não ser racista (como acusam os racialistas), mas certamente não é patriota. O senador afirma, para o meu espanto, que os brancos pobres, embora prejudicados, devem entender o sistema de cotas por amor ao Brasil!

A cota racial para a universidade nada tem a ver com a cota social. Esta atenderia jovens pobres para compensá-los pelo que lhes negamos na infância. É um benefício justo; a cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica.

Aqui, aplaudo o senador. Ele vai ao ponto. A cota racial não tem nada a ver com política social. Não se quer beneficiar os pobres, quer se privilegiar os negros. Para os racialistas isso se justifica para se reparar a injustiça da escravidão; para o senador, a cota racial é uma medida de quem ama o país. Você que se opõe ao sistema de cotas só o faz porque é racista ou porque não ama o país! Em ambos os casos, eles satanizam os que se opõem e, isso, desculpem, é uma visão totalitária do assunto.

Os que lutam pela cota racial nas universidades não lutam pela erradicação do analfabetismo entre adultos negros, nem para que os negros pobres tenham escolas com a mesma qualidade dos ricos brancos. E aqueles que defendem as cotas sociais no lugar das raciais não defendem cotas sociais no ensino fundamental e médio, nos colégios federais e mesmo nas escolas particulares de qualidade. Esta sim seria cota social. A cota social na educação de base nunca atraiu os defensores da cota racial nem aqueles que se opõem a ela e que usam a ideia de social contra a de racial. Os que defendem cotas sociais para as universidades, em vez das cotas raciais, provavelmente ficarão contra as cotas sociais nas boas escolas da educação de base, obrigando as escolas caras a receberem alunos pobres, sem mensalidade ou com uma bolsa do tipo Prouni.

Aqui o senador ficou confuso. Não sabia exatamente como terminar o artigo e resolveu, para ser equilibrado, criticar todo mundo. No final, a gente fica sem entender o que ele defende.

Que os racialistas não estão interessados na educação básica é ponto de consenso. Eles estão pouco se lixando para o negro pobre. O que eles querem é aumentar a quantidade de negros nas universidades com propósitos políticos. O que eles querem é fomentar a ideologia de que o Brasil se constitui num país formado por duas nações-raça que dividem o mesmo espaço. O que eles querem é combater a visão de que o brasileiro é miscigenado, que nunca se identificou por critérios raciais. O objetivo deles não é sequer combater o racismo, embora eles não afirmem isso, porque racismo não se combate com cotas raciais, mas com educação e punição aos racistas.

O senador Cristovam, meu Deus, flerta com a ideia de que para ser justo deveria haver cotas nas escolas públicas federais (fui aluno de uma) Assim, quem sabe, estaríamos resgatando os pobres desse país. Temo que daqui a pouco o sistema de cotas – raciais ou sociais – vire uma tendência em vários setores. E aí, os racialistas, finalmente, alcançarão o seu intento. Fazer do Brasil uma nação bicolor, que se identifica pela cor da pele.


02 maio, 2012

Os racialistas brincam de dividir o Brasil por raça. Isso nunca deu certo.

Abaixo, transcrevo na íntegra um artigo do jornalista Matheus Piconelli, que escreve em Carta Capital. Ele vai em vermelho e eu vou em azul.


A melhor definição que conheço de racismo não está nos livros acadêmicos nem no voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Está no romance autobiográfico “À Mão Esquerda”, de Fausto Wolff (1940-2008).
É uma patada no estômago: em certo momento do livro, Wolff escreve sobre o dia em que o pai, barbeiro, atendeu uma família de negros em seu salão em Santo Ângelo (RS). Foi um fiasco: parecendo nervoso, o pai errou o corte, provocou talhos, falhas, picotou orelhas e se mostrou bem pouco simpático.

Ao ver os clientes sair, Wolff, ainda menino, comentou que nunca o vira trabalhar tão mal. Era proposital, explicou o pai. Era necessário tratar mal essa clientela, ainda que não fosse (jurava) racista.

A lógica era: se eles gostassem do serviço, voltariam; em pouco tempo, o salão ficaria marcado por ser um espaço aberto para negros; e os brancos que tinham dinheiro, grosso da clientela, ficariam incomodados, pois não gostariam de frequentar um lugar assim; e, se os brancos fugissem, o barbeiro não teria dinheiro para colocar o prato na mesa da família. Simples assim.

Ou seja: o racismo dos outros justifica a discriminação preventiva, ainda que todos sejam iguais perante a lei. E como provar que o serviço mal prestado era motivado por racismo? Impossível. Nas esferas do micropoder, a discriminação é sutil, mas opera violentamente.

A história é muito curiosa. O barbeiro corria o risco de ter a sua reputação ameaçada por causa de um serviço mal feito, o que, em tese, poderia afastar outros clientes de sua barbearia, apenas para impedir que outros negros voltassem ao seu estabelecimento e, assim, garantir que os brancos não se sentissem ofendidos porque ali se atendia os negros. O barbeiro do romance não era apenas racista, era um idiota completo. Não sabia que o principal risco para o seu negócio não era atender os negros, era prestar um péssimo serviço.

Se o articulista gosta de romances que definem uma atitude racista, sugiro a leitura de O Presidente Negro, de Monteiro Lobato, especialmente o capítulo IX e seguintes. O livro, de 1926, é uma apologia à eugenia. Ali, com toda a certeza, o articulista encontrará termos que embrulham o estômago e muito mais verossímeis que o exemplo que ele nos oferece.

Mas enxergo nesse trecho algo ainda mais perverso e uma consequência triste dessa ideologia que pretende dividir o Brasil em duas categorias raciais. Se um negro for mal atendido, ignorado, criticado, só pode ser porque está sendo vítima de racismo. Se um branco passasse pelas mesmas situações, a acusação de racismo não se apresentaria. Não há saída. Um negro não pode mais ser criticado sem que o seu crítico receba a pecha de racista. 

Vejam que o próprio autor reconhece que é impossível provar que houve racismo no exemplo que citou, mas ele não tem dúvida que houve. Isso me lembra de um caso, relatado por um colega, que na escola particular onde ele estudou os professores não tiravam as dúvidas que ele tinha apenas, acredita ele, por causa de sua pele preta. Se fosse branco, isso não aconteceria, conclui. Veja a situação a que chegamos. Não corresponda às expectativas que um negro tem em relação a você e você será classificado como racista.

Num país de 190 milhões de habitantes, é humanamente impossível vigiar os processos de exclusão manifestados contra grupos minoritários (sempre considerando como “minorias” os grupos que tiveram negados, ao longo da História, o acesso à totalidade dos direitos civis, sociais, políticos). Mas é dever do Estado criar regras para garantir acesso a lugares públicos, como a universidade.

Aqui está a grande mentira! Aqui está a sabujice do argumento. Aqui está a militância cega. Quem lê esse trecho do artigo imagina que no Brasil existam leis de segregação, como aquelas que vigoraram por tanto tempo nos Estados unidos. Apresentem-me uma lei que impeça os negros de frequentar espaços públicos no Brasil. Brancos, negros, verdes, amarelos, vermelhos ou azuis têm o mesmo direito garantido pelo artigo quinto da Constituição Federal. O que o Estado fez, referendado pelo STF há poucos dias, foi reconhecer que os negros têm o direito às cotas para aumentar o número desse grupo nas universidades. Se em alguns cursos universitários existem poucos negros, isso não se dá por racismo, como defendem os racialistas e os militantes bocós, mas por conta de uma educação básica deficiente que pune, sem distinção de cor da pele, os pobres brasileiros. Nesse particular, os brancos pobres só têm a lamentar a cor da pele, porque ela será para eles mais um fator de dificuldade para ingresso nas universidades públicas no Brasil. Com a política de cotas raciais, a grande vítima foi o branco pobre.

Imagino, enquanto escrevo este post, quantas pessoas deixaram uma hora dessas as barbearias com as orelhas podadas por tesouras a zelar pela reputação do recinto. Não duvido que sejam muitos. Nas barbearias, nos shoppings centers, nos aeroportos, nas delegacias, nos bancos.

Mais uma vez temos a tese de que o racismo está impregnado na sociedade brasileira, como uma marca que tenta ficar escondida, mas se revela de forma sutil e, por isso, mais perversa. Veja que o autor imagina, infere, mas não prova. Não oferece exemplos cabais que confirmem as suas suspeitas. Afinal, ele mesmo declara que é impossível vigiar os processos de exclusão, por isso tem que recorrer à subjetividade. 

Segundo essa ideologia, um negro não pode mais ser incompetente, não pode perder a vaga de emprego porque concorre com ele outro candidato mais qualificado, não pode ter as suas opiniões contrariadas, porque isso seria manifestação de uma sociedade extremamente racista.

O Brasil, como a Argentina, as Coréias e o Afeganistão, é um país de preconceitos. Preconceitos de classe, de origem, de orientação sexual e de raça. O que significa: o sujeito pode ser honesto, talentoso, até endinheirado, mas levará sempre um “porém” ao lado do nome. “É um sujeito inteligente, mas bicha”. Esse “porém” é uma tesoura a serviço do boicote.

Por aqui, ao longo dos anos, tentou-se de todo modo, com leis, campanhas educativas e regras de convivência, banir o preconceito nas relações pessoais. Ainda assim, em pleno ano 2012, a exclusividade do acesso a determinados nichos e espaços mostra apenas que só o discurso foi atingido, quando muito. Admitir ideias pré-concebidas sobre determinado grupo pode soar mal, criar embaraço, constrangimento, e até problemas com a lei. Mas não elimina a ideia pré-concebida (quando muito, apenas a manifestação pública dela. Quando muito mesmo). E a ideia pré-concebida é só a etapa inicial de uma ação perversa.

Do jeito que esse rapaz escreve, parece que o Brasil é a África do Sul da época do apartheid, ou os Estados Unidos antes da década de 1950.  Essa gente não se envergonha de trapacear. Que nichos e espaços são exclusivos aos brancos? As universidades? O serviço público? Acaso há nos editais uma cláusula que impeça candidatos negros de ingressarem nesses espaços?  O que vejo, contudo, é outra coisa. Quem cria espaços exclusivos para os negros são os racialistas. São eles que não querem a integração. São eles que criam grupos de trabalho, espaços de convivência e valores que excluem os chamados brancos. São esses militantes bocós que querem dividir os brasileiros em duas raças.

O julgamento no STF sobre a legalidade dos sistemas de cotas nas universidades públicas foi uma dessas oportunidades de se colocar em discussão e evidência a herança de séculos de injustiça justificada aos olhos da lei.

Não que o sujeito a se posicionar contra as cotas seja necessariamente racista. Mas é fato que o racista será contra quaisquer formas de inclusão e pluralidade. Para ele o preconceito simplesmente não existe, e só não estuda ou trabalha quem é vagabundo.

Esse trecho é um mimo. Ele afirma que ser contra as cotas não torna alguém racista – o que é óbvio porque os que se opõem não querem impedir o acesso dos negros, amarelos, verdes ou azuis a nada, querem apenas que o mérito prevaleça, independente da cor da pele – mas em seguida, o autor ataca, contradizendo-se: “Mas é fato que o racista será contra quaisquer formas de inclusão e pluralidade”. Ora, se quem se opõe as cotas combate essa forma de inclusão, logo eles são racistas, entenderam? Assim, se você não defende o que eles pensam, só pode ser porque você é racista. Não interessa se você luta pela igualdade de condições, basta que você não aceite o argumento deles e você será racista.

Os ministros do STF não pensam assim. Por unanimidade, decidiram pela legalidade da cota, com direito a discursos belíssimos que podem ser guardados nas paredes das grandes citações.

Foi só um primeiro (e necessário) passo: o reconhecimento das distorções ainda latentes de um país de privilégios. As reações vieram em sequencia: “mas e os outros grupos minoritários?”; “A decisão jogou para escanteio os brancos pobres”; “Estamos criando um tribunal racial no Brasil”; “Estamos criando privilégios para combater desigualdades”; “E o mérito?”; “E o estigma sobre os estudantes”.

Numa coisa eu concordo. Foi só o primeiro passo. E os próximos serão assegurar ao que eles chamam de população negra, cotas no serviço público e na iniciativa privada. Cotas para artistas negros, jornalistas negros, modelos negros. Não duvido que no futuro até as escolas destinem uma determinada quantidade vagas para estudantes negros. O primeiro passo foi dado, e os próximos poderão, definitivamente, dividir os brasileiros por critérios raciais.

Como estes, é possível usar vários argumentos com muito sentido para reagir à norma recém-referendada. Foi o que fez o DEM, que não é exatamente conhecido como um combatente das oligarquias e privilégios de um Brasil arcaico, ao contestar o sistema em vigor na UnB – uma experiência bem-sucedida, frise-se.

A reação ao sistema de cotas joga no ar a impressão de que a existência de muitos problemas é só um impeditivo para se corrigir outros; como se a soma de vetores apontando para cada injustiça no País devesse resultar unicamente na imobilidade.

Alto lá, senhor! Não seja maledicente. O senhor mesmo reconhece as distorções e injustiças do sistema de cotas, mas afirmar que é melhor esse sistema que nenhum é de um cinismo atroz. E além disso, os racialistas não estão interessados em justiça social, se tivessem proporiam cotas sociais, e não raciais. Os racialistas querem mesmo é uma sociedade dividida por raças, é esse o objetivo.

E quem disse ao senhor que não existem alternativas à política de cotas? É claro que há. Basta que o estado ofereça uma educação de qualidade aos alunos das escolas públicas e aí os mais pobres, sejam eles pretos, brancos, amarelos, verdes ou azuis, ingressarão nas universidades sem pedir favor a ninguém. Os que se opõe ao sistema de cotas raciais temem que, por critérios puramente raciais, crie-se entre os brasileiros uma identidade racial, coisa que não faz parte de nossa tradição. Desde os censos do século XIX, os brasileiros sentem dificuldade em se reconhecer numa raça. Com as políticas de discriminação reversa, a chance disso mudar, com todas consequências nefastas que já fizeram história, é muito grande.

De fato, é possível apontar uma série de problemas no sistema de cotas, como em vários sistemas que envolvam subjetividade e leis. O que preocupa, a esta altura do campeonato, não é a desconfiança sobre uma medida considerada paliativa. É o conforto com a ausência de propostas melhores.

O autor admite que o sistema de cotas apresenta uma série de problemas, mas a defende dizendo que é melhor isso que nada. Não concordo. Acho perigoso corrigir uma injustiça criando outras. Considero temerário dividir os brasileiros em categorias raciais. Mas eles insistem que  é preciso criar na opinião pública a ideia de que ninguém está interessado em corrigir distorções que vem da época da escravidão. Essas distorçoes, malgrado deles, são fruto mais das desigualdades sociais que do racismo.

Uma alternativa para as cotas raciais na universidade seriam as cotas sociais, que levariam em conta critérios como a origem e condição social do estudante. É uma possibilidade interessante. Ainda assim, a meu ver, subestima um outro fator: a manifestação de preconceito racial dentro desses lugares de origem.

Existem várias portas de saída para a pobreza. Nem todas estão imunes a boicotes: quem precisa de um financiamento, por exemplo, precisa ter a sorte de encontrar um gerente que vá com a sua cara. E é desnecessário lembrar que o Brasil não vai com a cara de negros – basta ver nas filas para adoção de bebês qual o perfil buscado pelos futuros papais.

O simples lance (o hipotético pedido de empréstimo ou de emprego) pode ser determinante garantir recursos para estudos, livros, cursos de língua, transporte e moradia (porque estudo dos filhos não se faz só com a matrícula). Ninguém chega à escola nem à universidade por simples vontade: há uma série de complicadores, como vergonha e perseguições, a pesar para uns e não para outros. Ninguém fica minimamente à vontade num lugar onde é chamado de “macaco” de tempos em tempos por colegas, vizinhos, professores, diretores, seguranças.

Nos parágrafos acima, o autor extrapola o limite da decência. Por que que o Brasil não vai com a cara dos negros? De onde ele tirou essa conclusão?  Porque existem imbecis racistas inferimos que o nosso povo é racista? Se alguém chamar um negro de macaco, o que merece? A cadeia, ora! Não existem leis que punem a discriminação e o racismo? 

Vejam o corolário do argumento: muitos negros se desinteressam pelo ensino superior porque estão cansados das humilhações que sofrem dos brancos. Isso é puro chute e, atesto, pra bem longe do gol. O que me consola é que os negros não-militantes estão longe desse coitadismo, dessa vitimização. Se enfrentam dissabores da discriminação, acusam os imbecis de racismo, mas não aceitam a caridade das cotas porque se consideram tão capazes quanto os demais cidadãos brasileiros.

Durante décadas, o Brasil que pensou na libertação das correntes da escravidão ignorou as outras formas de exclusão de grupos que ficaram à margem na própria história.

A herança escravocrata é uma ferida aberta num país em que brancos e negros cometem os mesmos crimes, mas só uns são maioria nas prisões, e outros, maioria nas universidades – o topo de uma estrutura cujo caminho pede, muito mais que esforço, igualdade de condições para se alcançar. Muitos ficaram pelo caminho, e não foi por falta de esforço nem talento.

Esse é o trecho mais burlesco do artigo. Se vocês relerem o parágrafo vão entender que nas prisões brasileiras os negros são maioria, é óbvio, por causa do racismo. Como assim? Como se chega a uma prisão? Rezando? Um juiz olha para dois meliantes e diz: “olha, você é branco, então vai ficar fora da cadeia; já você que é negro vai para a prisão, ok?” Faça-me o favor!

Não custa lembrar que essa tal maioria de negros, em tudo, decorre de um truque da burocracia: somam os pretos e os pardos e chamam o resultado dessa soma de negros. Com esse truque a sociedade brasileira é majoritariamente negra, entendem? Agora, porque um pardo é chamado de negro só os burocratas podem explicar.

Só não vê quem não quer. Ou quem se esforça negando o racismo citando a profusão de mestiços num país onde todos se relacionam com todos – o que catalisou nossa identidade, diria Gilberto Freyre. Certo? Pois a Casa Grande segue inacessível. E, para reconhecer a Casa Grande, basta um passeio pelos lugares frequentados apenas por uma elite histórica – aconselho, inclusive, um passeio por redações de jornais e revistas.

Mais um que cita Gilberto Freyre e Casa Grande e Senzala de ouvido. Mas não serei eu aqui a ensinar a um jornalista que também se formou em ciências sociais o caminho das pedras da sociologia, não é? Vejam o argumento recorrente: Se os negros (pardos + pretos) não estão nas redações ou nos tribunais, é porque somos racistas e não porque, lá trás, por uma educação deficiente, eles não conseguiram avançar tanto. Mas eles não avançaram porque eram negros, uma vez que os brancos que viveram na mesma realidade também não tiveram as mesmas chances.

No País da miscigenação, é parte da paisagem ver herdeiros da escravidão servindo ou pedindo para engraxar os sapatos. Quando acontece o contrário, são logo considerados “suspeitos”.

A capacidade de se indignar com um país de lugares cativos é um alento insuficiente para que as coisas mudem. Com as cotas, as coisas começam a mudar. Talvez não na estrutura, já que o preconceito é um dom inacabável.

Nos próximos anos, o sistema de cotas pode se mostrar insuficiente. Mas hoje é uma solução viável num contexto complexo, injusto, cheio de nuances e sofismas para justificar o injustificável.

É papel do Estado arbitrar sobre as injustiças nos espaços onde consegue alcançar – e o Supremo se mostrou sensível a esta constatação. Não é uma solução definitiva, mas um aceno para o futuro: como resumiu a ministra Rosa Weber, ao declarar seu voto, quando o negro se tornar visível na sociedade “política compensatória alguma será necessária”.

Ao decidir pela legalidade da cota hoje e agora, ela e os demais ministros do Supremo fizeram algo mais do que alimentar polêmicas restritas à dualidade “a favor” ou “contra”. Eles pavimentaram uma ponte em direção a uma realidade possível.

O autor conclui o seu texto cheio de considerações afetadas e solenes, como se quisesse dar a essa conclusão um tom apoteótico. É um direito dele, é claro. O meu é concluir com uma advertência: o que os militantes racialistas subestimam é o perigo de que com o sistema de cotas dividiremos o povo brasileiro em duas categoriais raciais distintas, dando a um grupo privilégios que podem, infelizmente, despertar o que nunca tivemos no Brasil: o racismo popular; e, no extremo, o ódio racial. Um menino branco e pobre que num vestibular deixa de entrar na universidade mesmo tirando uma nota maior que um colega dele negro, que foi aprovado - como já aconteceu e acontece no sistema de cotas raciais – será a semente do que de pior uma sociedade pode ter: o ódio racial.