31 março, 2012

Demóstenes, vai para o PT, vai.


Demóstenes Torres, por enquanto ainda senador pelo DEM de Goiás, está perdido e fuzilado. Quer dizer, ainda resta uma saída política para ele, que, aposto, o DEM não iria se opor. Demóstenes poderia, de forma simples e faceira, mudar de partido. Já existiam conversas anteriores para ele ingressar no PMDB, mas eu gostaria de um gesto mais ousado do senador. Não falo, é claro, de confessar os crimes e suas ligações espúrias com o crime organizado. Não sou tão exigente. A ousadia que espero do senador é bem mais simples...

A única saída que sua exclência, o senador Demóstenes Torres, tem para preservar o mandato é mudar para o PT.

O PT é aquele partido onde os larápios e os criminosos, mesmo com dólares na cueca; ou com consultorias milionárias; ou com amizades controversas; ou envolvidos em qualquer outra contravenção sempre se dão bem.

Por isso, como ex-admirador do senador Demóstenes, faço, em nome da admiração que um dia já senti por ele, um apelo: Demóstenes, vai pro PT, lá você se salva!

26 março, 2012

Eu queria ter escrito isso!

Da fala ao grunhido

Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo

Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual "todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano".

Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda.

De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não.

Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer "nós vamos" como "nós vai".

Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?

E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer "dois mais dois é cinco", então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra -uma vez que tudo está certo-, não há por que ensinar a língua.

A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.

Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos.

É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo "nós vai" e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.

Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?

As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário.

E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga "as milhares de pessoas" ou "estudou sobre as questões" ou "debateu sobre as alternativas" em vez de "os milhares de pessoas", " estudou as questões" e "debateu as alternativas".

A palavra "sobre" virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.

Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós.

Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.

Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores?

Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.


16 março, 2012

José Egito Freire, meu primeiro professor.


Nunca vou esquecer o dia em que uma dessas figuras que sempre aparecem na nossa vida para modificá-la por inteira, emprestou-me um livro de bolso que continha as poesias completas do poeta baiano, Antônio Frederico de Castro Alves. Estou falando do hoje padre, José Egito Freire.

Lembro que na época a Rede Globo transmitia a novela Sinhá Moça, aquela com a Lucélia Santos, o Marcos Paulo e o Rubens de Falco. A novela contava a estória de amor de dois jovens que traziam convicções abolicionistas. Não me lembro dos detalhes, mas lembro bem que numa cena famosa, Dimas, o filho bastardo do Barão de Araruna, declamava a poesia Tragédia no Lar, do poeta baiano. A declamação e as imagens que os versos criaram na minha imaginação de 10 para 11 anos, foram indeléveis. Rapidamente decorei um trecho e o vivia repetindo a todo momento:

"Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas do noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio
como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
que é livre, que livre voa."

E a poesia seguia...

Ao me ouvir repetir os versos, Freire lembrou de que tinha em casa um livro com as poesias completas de Castro Alves (exatamente este que está no início do post) e decidiu, vejam bem, emprestar a um moleque de menos de 12 anos, o tal livro.

Li com entusiasmo. Toda a grandiloquência de Castro Alves, com o seu vocabulário rebuscado e um tanto inadequado para os dias de hoje, criavam-me algumas dificuldades, mas o ritmo, a força das rimas, as imagens que provocavam a minha imaginação me faziam ter a certeza de que algo muito bonito havia ali.

A primeira poesia de Poesias Completas... que decorei foi O Livro e a América, é o segundo poema de Espumas Flutuantes, única obra publicada em vida pelo autor que morreu na flor dos seus 24 anos, vítima não sou da tuberculose, mas sobretudo da infelicidade pessoal. O tal poema, mesmo para um pirralho de 11 anos, era bastante imagético:

"Talhado para as Grandezas
P'ra crescer, criar, subir,
O novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir
- Estatuário de colossos
cansado d'outros esboços
Disse um dia Jeová:
Vai, Colombo, abre a cortina
Da minha eterna oficina...
Tira a América de lá."

Mais adiante, os versos mais famosos desse poema:

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva, que faz o mar.

Ainda não havia lido O Navio Negreiro, nem Vozes D'África, as poesias mais conhecidas do livro Os Escravos e que deu ao bardo o título de O Poeta dos Escravos.

Antes desse Castro Alves que usava os versos como arma contra o estatuto da escravidão no Brasil na Segunda Metade do século XIX, conheci o Castro Alves lírico, romântico, daquele romantismo tão ao gosto do século XIX, um tanto Byroniano. E foi aí que descobri, encantado, O Laço de Fita, que reproduzo para vocês abaixo. Vale a pena ler cada verso.

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.


Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.


A Poesia, que me rondava desde muito pequeno, chegou com força mesmo até a mim pelos versos de Castro Alves.

Pena que nunca tenha tido talento para compor versos... Até me arrisquei, na adolescência, a escrever alguns, cheguei a participar de concursos na ETFPE e até consegui algumas menções honrosas, mas só. Ademais, essas menções honrosas não passavam de um artifício, comum aos professores de Língua Portuguesa, de incentivar um pobre estudante que se esforçava, mas que não tinha talento.

Até recentemente, sobretudo depois de ler os poetas modernistas, achei que para escrever poesia bastava sentir. Foi Manuel Bandeira que me explicou que eu estava absolutamente equivocado. Diz o poeta pernambucano que poesia não se faz com sentimentos, mas com palavras. Por isso, se algum leitor, sobretudo jovem, sentir vontade de compor um poema, atente para esta dica: municie-se de um vasto vocabulário para escolher as palavras mais adequadas na hora de compor esse poema. Assim, aquele sentimento (ainda que seja só uma dor de cotovelo) vai encontar os termos mais apropriados para serem expostos em versos.

José Egito Freire, amigo, veja o que você fez!