18 novembro, 2012

Tristeza

Sabe Deus quem vai ler esse texto. Quem o lê, contudo, deverá chegar ao seu final com a certeza de que jamais deveria tê-lo lido. Não há quem aprecie ler em pleno domingo lamúrias e tomando conhecimento de enormes frustrações. Mas confesso, eventual internauta, que não escrevo para ninguém. Escrevo para desafogar a tristeza que me provoca uma profunda dor no estômago. Escrevo porque não saberia como falar. Escrevo para que eu mesmo escute e não apenas sinta o que me aflige.

As nossas decepções, de modo geral, têm duas fontes: a primeira é a avaliação errada que fazemos das palavras, das atitudes e das situações. Um erro de avaliação, inevitavelmente, produzirá um efeito absolutamente distinto daquele que a gente esperava. Enfim, cometer esse erro nos levará à frustração.

A segunda fonte para a nossa decepção, por incrível que pareça, vem da esperança. Daquele otimismo exagerado, mesmo contra todos os indícios, de que tudo que vai acabar bem. Enganados pela própria esperança continuamos negligenciando os efeitos desses problemas, e pior: acreditando que com o tempo eles desaperecerão como que por mágica. 

Estou cansado de me decepcionar e de decepcionar os outros. Preciso encontrar alguma motivação para esquecer um pouco dessa tristeza...



A TRISTEZA.
A Tristeza não se define,
Não se mensura,
Nem se explica.
A Tristeza apenas dói..
E dói mais
Quanto mais
Não se define,
Não se mensura
E nem se explica.
A Tristeza é a treva em pleno dia
É a vitória da covardia,
Sobre a coragem.
A Tristeza é a solidão no escuro
É uma prisão sem muros
É adiar a viagem...
A Tristeza é mais outono que inverno
O prenúncio da desolação
É como aquele carinho terno,
Que antecede a separação.
A Tristeza não se explica,
Como a dor que não é física.

23 outubro, 2012

O pragmatismo e os petistas



A Verdade e a Mentira segundo os Petistas.


“Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força” – 1984, George Orwell



Antes de começar o meu texto quero fazer uma distinção que considero pertinente para evitar confusão. Enxergo uma diferença entre um petista e um eleitor do PT. O primeiro, filiado ou não, adere sem constrangimentos aos métodos do partido. É cínico, mentiroso e quando confrontado com a verdade, abespinha-se, fica rude e, não raro, recorre à violência verbal, podendo descambar para a agressão física. Esse é o petista clássico.

Um eleitor do PT, que não é exatamente um petista, ainda acredita nos valores democráticos que o partido dizia ter quando foi fundado em 1980. Esse eleitor fica indignado com políticos venais, lastima a situação de penúria de brasileiros que vivem em condições abjetas e sem acesso a um sistema de saúde eficiente e a uma escola de qualidade. Um eleitor do PT sonha com um país "socialmente mais justo", e crê, fortemente, que o PT é um partido comprometido com essas demandas, ou por outra: acredita, de verdade, que nenhum outro partido tenha mais condições de melhorar a vida do povo do que o partido dos trabalhadores.

Os petistas, é claro, também acreditam nisso, mas sabem que é só parte do que eu chamaria de "valores míticos do PT".  Para um petista, pouco importa se o partido vai ou não resolver os problemas que promete resolver. O que importa, a verdadeira missão deles é preservar o mito de que só eles podem fazer isso.

Concluindo: um petista usa a mentira como método, e mente com tanta convicção, que, diante da verdade, usa a tática orwelliana de chamar a verdade de mentira e a mentira de verdade. Já o eleitor do PT, por desconfiar dos outros partidos e dos outros políticos; por falta de informação consistente; e aturdido com as mentiras e as mistificações que o PT e seus reverberadores não se cansam de produzir, agarra-se àquela certeza ingênua de que o PT tem compromisso com os pobres. Os petistas enganam. Os eleitores do PT se deixam enganar.

"Ah, Zé Paulo, então os outros partidos também não usam a mentira como arma de convencimento?", perguntaria o eleitor petista. Sim. Mas nenhum outro partido usa a mentira como método. Nenhum outro partido tem tanta desenvoltura na arte de mentir e enganar. Dificilmente um político não-petista mentiria com tanta frieza e convicção.

E de onde vem essa propensão do petista à mentira? Não é natural, é claro, porque ninguém nasce petista. Conhecer essa origem é o que pretendo responder nesse artigo.

Protágoras de Abdera, famoso sofista que parece ter feito fortuna na Atenas clássica, cunhou a sentença que será retomada muitos séculos depois pelo filósofo norte-americano, William James. Para o sofista grego, "o homem é a medida de todas as coisas". Ou seja, o que torna algo real ou verdadeiro não é a coisa em si, suas premissas, mas a apreensão ou a sensação do que os homens fazem desse algo. Como cada ser humano tem uma percepção particular, a verdade não pode ser única, absoluta, uma vez que a verdade é o que cada ser humano percebe, sente, e, diria James, aceita como verdadeiro. O relativismo foi sem dúvida uma das principais contribuições dos sofistas para a filosofia.

No século XIX, C.S Peirce, filósofo americano, vai exercer sobre um médico e psicólogo compatriota, William James, uma influência decisiva. É verdade que essa influência de Peirce sobre James é fruto do que o segundo achou que o primeiro dissera. Vejam como Russel analisa essa influência:

A doutrina do pragmatismo é estabelecida em alguns dos primeiros trabalhos de Peirce, numa forma que permite, à primeira vista, a inferência que James extraiu deles. Peirce vincula a sua definição da verdade a uma discussão geral da investigação e dos motivos que a estimulam. A investigação surge de algum tipo de insatisfação ou desconforto e diz-se que o seu objetivo é alcançar um estado de repouso do qual tenham sido eliminadas as influências perturbadoras. O critério que se aceita em qualquer desses estágios intermediários de equilíbrio é, até onde se possa saber, a verdade. Mas nunca se pode saber se novas evidências não venham a exigir uma mudança de opinião. (...) Em relação a isso, afirma que a verdade é a opinião à qual, afinal, a comunidade adere. Superficialmente, isto é um absurdo.

Quanto à influência de qualquer verdade particular, Peirce insiste em que qualquer declaração que pretenda ser verdadeira precisa ter consequências práticas. (...) Diz-se que o significado de uma declaração consiste nessas consequências práticas. Foi sob esta forma que James adotou o pragmatismo."¹
Ainda segundo Russel, James, apoiando-se em Peirce (na verdade, naquilo em que acreditou que Peirce dissera), definirá o seu conceito de verdade como aquilo que produz consequências frutíferas.²

O trecho abaixo foi retirado da obra a História da Filosofia, de Will Durant e reproduz o conceito de verdade, segundo William James

O verdadeiro (...) é apenas o conveniente no caminho de nosso pensamento assim como o "direito" é apenas o conveniente no caminho do nosso comportamento. Conveniente é quase qualquer moda; e conveniente a longo prazo, e de modo geral, é claro; porque aquilo que satisfaz convenientemente a todas as experiências à vista não irá necessariamente atender a todas as experiências seguintes de forma igualmente satisfatória(...) A verdade é uma das espécies de bem, e não, como em geral se supõe, uma categoria distinta do bem e coordenada com ele. Verdadeiro é o nome de tudo aquilo que se mostra bom no caminho da crença³

Vemos nesse trecho que William James não acredita, como os sofistas não acreditavam, na verdade objetiva. Mais: para ele a verdade varia com o tempo, como se ele pudesse ter dito que cada época tem a sua verdade. James crê também que o verdadeiro depende das consequências práticas ou frutíferas daquilo que se crê.

Comentando as idéias de Willian James, Will Durant na mesma obra supracitada, analisa:

Se (...) a verdade foi aquilo testado pela experiência e pelo experimento, a resposta só pode ser: "É claro." Se significa que a utilidade pessoal é um teste da verdade, a resposta não pode ser outra: "É claro que não"; utilidade pessoal é apenas utilidade pessoal; só a utilidade permanente universal constituiria a verdade. Quando alguns pragmatistas falam de uma crença que foi verdadeira em determinada época porque então era útil (embora agora invalidada), estão dizendo bobagem com termos eruditos; tratava-se de um engano útil, não de uma verdade.4
 

Para mentirosos contumazes, como são os petistas, a definição que James dá do significado de verdade é um prato cheio. Para estes, se uma declaração mostra-se frutífera, se ela funciona de acordo com os objetivos pré-estabelecidos, ela se torna, pelo pragmatismo de James, verdadeira. Daí a insistência dos petistas em reproduzir à exaustão as mentiras com a certeza, infelizmente corroborada pelos fatos, de que estas mentiras úteis serão aceitas, terão a adesão da comunidade, como diria Peirce, e por isso, passarão como verdade.

Para o petista uma declaração tem quem ser antes de tudo pragmática. Se ela funciona para os objetivos do partido deve ser usada sem pudor ou limites, ainda que seja, como geralmente é, uma enorme enganação.

NOTAS:

1 -Russel, Bertrand; História do Pensamento Ocidental, páginas 445 e 446.
2 - Idem; página 450.
3 - Duran, Will; A História da Filosofia. pág 464
4 - Idem; página 470

20 outubro, 2012

Usina de Belo Monte pra quê?


Acima, a militância contra a Usina Belo Monte.

O vídeo traz dados técnicos sobre a Usina de Belo Monte.

Ao exigir um preço muito baixo para o megawatt-hora, o governo Lula — e a área estava sob o comando da então ministra Dilma — espantou o capital privado, e, na prática, o Tesouro acabou assumindo encargos e riscos excessivos. Muito bem! Essa é uma crítica procedente. E não é só minha. Considerar, no entanto, que a usina é desnecessária ou que o Brasil não pode mais fazer hidrelétricas, aí não dá! Aí estamos diante de uma estupidez que vai além do aceitável!

  Prestem atenção. A Floresta Amazônica toda tem 5,5 milhões de km², 60% dos quais no Brasil (3,3 milhões de km²). Logo, aqueles 640 representam 0,012% do total da floresta e 0,019% da parte brasileira. Vou ter de ser didático. Digamos que Maitê pese 58 kg: 0,019% do seu peso corresponde a 0,01102 kg — seu sutiã é muitas vezes mais pesado. Não sei quantas porque ignoro o peso da peça. Nunca o vi por esse ângulo. Aliás, associado a uma hidrelétrica, também é a primeira vez. Digamos que Marcos Palmeira pese 70 quilos; no seu caso, aquele 0,019% corresponde a 0,0133 kg. Uma de suas orelhas, dada a comparação, equivaleria a muitas usinas de Belo Monte…

 O que mais impressiona nesse vídeo cretino é que, notem!, ele não é contra apenas Belo Monte em particular. É contra a energia hidrelétrica como um todo!!! O fanático que redigiu o texto descobriu que ela também é uma energia suja. E aí vem aquele que, pra mim, é o grande momento. Ainda de sutiã, Maitê Proença faz um ar sábio, de quem estudou profundamente o assunto, e indaga: “De onde tiraram essa idéia de que hidrelétrica é energia limpa?” Huuummm… Ela parece saber mais do que nós. Um dos filhos de Chico Anysio, também não vou pesquisar qual, sei que é humorista, faz o contraponto, o bobo, o ingênuo, e diz: “Energia elétrica é energia limpa; é muito melhor que usina nuclear e carvão”. Bem, é mesmo! Mas não no vídeo! Então Letícia Sabatella assombra o mundo: “Seria energia limpa se fosse no deserto, mas na floresta?”


Um terço da capacidade?
A mais desonesta de todas as críticas é a que sustenta que a usina vai gerar apenas “um terço de sua capacidade”, conforme diz um dos ignorantes convictos, também não sei quem. Ai, ai… Assim será porque se decidiu fazer a usina pelo sistema fio d’água, sem reservatório, justamente para diminuir o impacto ambiental, o que já é temerário. Belo Monte terá capacidade para produzir até 11.233 MW, mas vai gerar, na média, 4.571 MW médios. Por quê? No período chuvoso, funcionará com potência máxima; na seca, cairá para 690 MW por causa justamente da falta de reservatório.

SE HÁ ALGUMA ESCOLHA ERRADA EM BELO MONTE, E HÁ, ELA ESTÁ JUSTAMENTE EM TER CEDIDO À PRESSÃO DOS AMBIENTALISTAS ALOPRADOS. Olhem aqui: ainda que Belo Monte alagasse uma área 20 vezes maior (11.280 km²) — fazendo, pois, o reservatório —, isso corresponderia a 0,34% da parte brasileira da Floresta Amazônica. Se Letícia Sabatella pesa 57 kg, um alagamento de Belo Monte 20 vezes maior corresponderia a 0,19 kg do seu peso. Seu cérebro consegue ser bem mais pesado do que isso… Será que essa gente tem noção da besteira que está falando ou acha que matemática é coisa de reacionários que não gostam do meio ambiente?
Mesmo com Belo Monte, Jirau e Santo Antônio produzindo, mas sem os reservatórios —  para proteger os bagres da Maitê, da Sabatella e da Marina —, o Brasil passa a correr riscos no período de secas e terá de recorrer, sim, a sistemas de emergência, como termelétricas, por exemplo. Vale dizer: o país já deu atenção demais aos bagres e atenção de menos às pessoas.


A falácia do preço

Outra coisa ridícula é essa história dos R$ 30 bilhões. Sim, eu fui um dos grandes críticos do peso excessivo que o Estado vai ter na construção de Belo Monte. Lá está o link. No arquivo, há outros textos. A iniciativa privada deveria estar bem mais presente. Mas daí a tentar provocar a indignação com essa coisinha estúpida: “É o seu dinheiro! Dos impostos!” Certo, especialistas! E a energia será gerada para quem? Para os marcianos? Quem será o beneficiado?
Artista pode falar. Não há lei que proíba. Mas também não há lei que os impeça de estudar, de se informar, de fazer conta, de ter senso de ridículo. Notem o arzinho enfatuado com que se dirigem ao público, com pose de especialistas. Murilo Benício, com a sua habitual cara de quem acabou de acordar, diz, com laivos de ironia sonolenta, que “índio quer educação, conforto…” E não quer??? Ary Fontoura faz blague: “Índio precisa de antibiótico”. Por quê? Não precisa??? Ciça Guimarães, na linha “a loura tonta”, pergunta: “Ainda tem índio no Brasil?”

Tem, sim, minha senhora! Proporcionalmente, eles são donos da maior fatia do território brasileiro. Correspondem a 0,7% da população brasileira (isso porque mais gente passou a ser “índia” depois das dermarcações) e tem sob seu domínio, hoje, 13% do território do país. Eu tenho a certeza absoluta de que todos ali, sem exceção, ignoram esses dados. Eu tenho a certeza absoluta de que todos ali, sem exceção, ignoram que o Brasil, se crescer de forma sustentada a 4,5%, 5% ao ano (e, para reduzir a pobreza num ritmo mais acelerado, seria preciso mais do que isso), corre o risco de sofrer apagões. Apagões que punirão os pobres, não os bacanas da TV Globo
Fonte das informações escritas, aqui. 

Não ficou satisfeito? Tudo bem. Há mais dados aqui. 

28 julho, 2012

A Porta

A Porta

Arca De Noé

Sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta
Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão
Eu fecho a frente da casa
Fecho a porta do quartel
Eu fecho tudo no mundo
Só vivo aberta no céu!

Ontem eu ouvi meu pequeno e intimorato Timóteo cantando essa música...

 

08 julho, 2012

Ando totalmente negligente com o blog Typhis Pernambucano. Talvez seja uma sina minha neglicenciar o que realmente importa... Não estou muito sóbrio para escrever qualquer coisa sensata. Mas ao contrário do que a frase anterior possa sugerir, o que me entorpece e me embriaga é uma mistura de saudade, solidão e tristeza. Há tanta coisa junta me incomodando e me paralisando que não sei exatamente por onde começar. A música abaixo é uma tentativa de explicar o pouco o que se passa comigo.




17 junho, 2012

Lula, o sebastianista

Marco Antonio Villa - O Estado de S.Paulo

 Dom Sebastião voltou
16 de junho de 2012 | 3h 05

Luiz Inácio Lula da Silva tem como princípio não ter princípio, tanto moral, ético ou político. O importante, para ele, é obter algum tipo de vantagem. Construiu a sua carreira sindical e política dessa forma. E, pior, deu certo. Claro que isso só foi possível porque o Brasil não teve - e não tem - uma cultura política democrática. Somente quem não conhece a carreira do ex-presidente pode ter ficado surpreso com suas últimas ações. Ele é, ao longo dos últimos 40 anos, useiro e vezeiro destas formas, vamos dizer, pouco republicanas de fazer política.

Quando apareceu para a vida sindical, em 1975, ao assumir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, desprezou todo o passado de lutas operárias do ABC. Nos discursos e nas entrevistas, reforçou a falácia de que tudo tinha começado com ele. Antes dele, nada havia. E, se algo existiu, não teve importância. Ignorou (e humilhou) a memória dos operários que corajosamente enfrentaram - só para ficar na Primeira República - os patrões e a violência arbitrária do Estado em 1905, 1906, 1917 e 1919, entre tantas greves, e que tiveram muitos dos seus líderes deportados do País.

No campo propriamente da política, a eleição, em 1947, de Armando Mazzo, comunista, prefeito de Santo André, foi irrelevante. Isso porque teria sido Lula o primeiro dirigente autêntico dos trabalhadores e o seu partido também seria o que genuinamente representava os trabalhadores, sem nenhum predecessor. 

Transformou a si próprio - com o precioso auxílio de intelectuais que reforçaram a construção e divulgação das bazófias - em elemento divisor da História do Brasil. A nossa história passaria a ser datada tendo como ponto inicial sua posse no sindicato. 1975 seria o ano 1.

Durante décadas isso foi propagado nas universidades, nos debates políticos, na imprensa, e a repetição acabou dando graus de verossimilhança às falácias. Tudo nele era perfeito. Lula via o que nós não víamos, pensava muito à frente do que qualquer cidadão e tinha a solução para os problemas nacionais - graças não à reflexão, ao estudo exaustivo e ao exercício de cargos administrativos, mas à sua história de vida.

Num país marcado pelo sebastianismo, sempre à espera de um salvador, Lula foi a sua mais perfeita criação. Um dos seus "apóstolos", Frei Betto, chegou a escrever, em 2002, uma pequena biografia de Lula. No prólogo, fez uma homenagem à mãe do futuro presidente. Concluiu dizendo que - vejam a semelhança com a Ave Maria - "o Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva". Era um bendito fruto, era o Messias! E ele adorou desempenhar durante décadas esse papel.

Como um sebastianista, sempre desprezou a política. Se ele era o salvador, para que política? Seus áulicos - quase todos egressos de pequenos e politicamente inexpressivos grupos de esquerda -, diversamente dele, eram politizados e aproveitaram a carona histórica para chegar ao poder, pois quem detinha os votos populares era Lula. Tiveram de cortejá-lo, adulá-lo, elogiar suas falas desconexas, suas alianças e escolhas políticas. Os mais altivos, para o padrão dos seus seguidores, no máximo ruminaram baixinho suas críticas. E a vida foi seguindo.

Ele cresceu de importância não pelas suas qualidades. Não, absolutamente não. Mas pela decadência da política e do debate. Se aplica a ele o que Euclides da Cunha escreveu sobre Floriano Peixoto: "Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país sem avançar - porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições...".
Levou para o seu governo os mesmos - e eficazes - instrumentos de propaganda usados durante um quarto de século. Assim como no sindicalismo e na política partidária, também o seu governo seria o marco inicial de um novo momento da nossa história. E, por incrível que possa parecer, deu certo. Claro que desta vez contando com a preciosa ajuda da oposição, que, medrosa, sem ideias e sem disposição de luta, deixou o campo aberto para o fanfarrão.

Sabedor do seu poder, desqualificou todo o passado recente, considerado pelo salvador, claro, como impuro. Pouco ou nada fez de original. Retrabalhou o passado, negando-o somente no discurso.
Sonhou em permanecer no poder. Namorou o terceiro mandato. Mas o custo político seria alto e ele nunca foi de enfrentar uma disputa acirrada. Buscou um caminho mais fácil. Um terceiro mandato oculto, típica criação macunaímica. Dessa forma teria as mãos livres e longe, muito longe, da odiosa - para ele - rotina administrativa, que estaria atribuída a sua disciplinada discípula. É um tipo de presidência dual, um "milagre" do salvador. Assim, ele poderia dispor de todo o seu tempo para fazer política do seu jeito, sempre usando a primeira pessoa do singular, como manda a tradição sebastianista.

Coagir ministros da Suprema Corte, atacar de forma vil seus adversários, desprezar a legislação eleitoral, tudo isso, como seria dito num botequim de São Bernardo, é "troco de pinga".

Ele continua achando que tudo pode. E vai seguir avançando e pisando na Constituição - que ele e seus companheiros do PT, é bom lembrar, votaram contra. E o delírio sebastianista segue crescendo, alimentado pelos salamaleques do grande capital (de olho sempre nos generosos empréstimos do BNDES), pelos títulos de doutor honoris causa (?) e, agora, até por um museu a ser construído na cracolândia paulistana louvando seus feitos.

E Ele (logo teremos de nos referir a Lula dessa forma) já disse que não admite que a oposição chegue ao poder em 2014. Falou que não vai deixar. Como se o Brasil fosse um brinquedo nas suas mãos. Mas não será?   

MARCO ANTONIO VILLA, HISTORIADOR,  É PROFESSOR DA , UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,dom-sebastiao-voltou-,887037,0.htm

29 maio, 2012

Quando Vidas Secas era uma novidade



O ESTADO DE SÃO PAULO: PÁGINAS DA EDIÇÃO DE 28 DE Maio DE 1938 - PAG. 3








Dessas tendências [refere-se ao movimento modernista], destaca-se a que faz o exame da vida e da psicologia dos humildes, o tema predileto dos nossos romancistas modernos.  Aqui está, para prova-lo, o novo romance do Sr. Graciliano Ramos, intitulado “Vidas Secas”. Com aquela precisão de traços, a que nos habituou, evoca o romancista, nesse livro melancólico, a vida sem horizontes, triste e atribulada, de uma família de roceiros do Nordeste, fustigados pela seca e por outras calamidades, mas que não chega a desesperar porque, abençoadamente, não falta ao seu chefe, oráculo infalível dos que o cercam, um largo poder de ilusão que o traz numa primavera permanente de esperanças.

Curiosa a psicologia desse sertanejo! Vigoroso e resistente, o hábito da obediência e da miséria tirou-lhe a energia para repelir as ofensas. Maltratado por um soldado fraco e pusilânime, não soube, entretanto, vingar-se da ofensa quando mais tarde, em certa ocasião, o teve no mato à sua mercê. A lembrança do que padeceram os seus tolheu-lhe os movimentos de reação. Tinha um apego imenso à família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé, não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos... Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha.

Amante da família, amigo dos filhos, houve um momento, todavia, quando vagava de déo em déo¹ acossado pela seca em que pensou abandonar o filho num descampado. Mas os bons sentimentos retomaram, logo, na sua alma, o domínio habitual:  “pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja e, resoluto examinou os arredores...  Meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostado no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e teve pena. Entregou a espingarda à mulher, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos... E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande”.

Explorado cruelmente no seu trabalho, resolve o sertanejo sair para o mundo com a família: “Iriam para adiante, alcançariam uma terra desconhecida. Estava contente e acreditava nessa terra porque não sabia como ela era nem onde era... E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois, velhinhos, como uns cachorros inúteis”.

Tudo isso, todo esse tristonho desenrolar de vidas secas é, pelo romancista, entremeado de pinturas de costumes e de narrações de episódios em que se acusam os seus dotes de fiel observador da realidade e os seus predicados de artista.

Tais, entre outros, à marcha da família em busca de trabalho, as aventuras do sertanejo quando se dirigiu à feira da cidade para comprar mantimentos,  as travessuras de um dos pequenos culminada pela montaria de um bode e a morte da cadelinha, que era o enlevo das crianças.

Há, em todas essas páginas, muita palpitação de vida.



1 - O termo em negrito eu transcrevi exatamente como aparece na edição do Estadão de 28 de maio de 1938. Não consegui entender o significado. Quem puder me ajudar, eu agradeço.

27 maio, 2012

Uma pequena entrevista


Essa entrevista foi concedida há cerca de trê anos para uma atividade do Colégio La Salle conhecida como Mostra Cultural. Houve, soube depois, quem rasgou as próprias vestes após ouvi-la.

21 maio, 2012

PT X PT ou Acabou a Frente Popular?





Aqui vai um texto que poderá parecer, para alguns, premonitório, mas que não passa de especulação política, confesso. Mas nem por isso desprovido de lógica.

Hoje o PT do Recife foi às urnas para escolher o candidato do partido à sucessão na cidade. Há doze anos no poder, o PT paga um preço muito alto pela hegemonia política na capital de Pernambuco.

Sem um concorrente à altura e com um arco de aliança imenso, a Frente Popular liderada pelo PT desde 2000, além dos 12 anos de administração na cidade, conta com um correligionário de peso: o governador Eduardo Campos, do PSB.

A sucessão no Recife, portanto, parecia favas contadas, não fosse por um pequeno detalhe: o atual prefeito, João da Costa, tem recebido uma péssima avaliação na cidade, o que levou a cúpula do PT a propor o impossível: que o atual prefeito desistisse da candidatura à reeleição e cedesse lugar a outro nome do partido. Para piorar, os partidos aliados, como o PSB e o PTB, condicionaram a manutenção da Frente Popular à desistência de João da Costa, do contrário, a Frente se desmancharia, e isso traria consequências imprevisíveis.

Pois bem: João da Costa não desistiu, e o PT se viu constrangido a aceitar uma eleição primária na cidade para a escolha do candidato petista à prefeitura do Recife. O resultado da primária saiu hoje, no começo da noite, depois de um processo turbulento, com brigas, liminares e desaforos entre os dois grupos; e o que todos temiam aconteceu: João da Costa venceu com quase 500 votos de diferença para Maurício Rands, o preferido da cúpula do partido e da Frente Popular.

E agora? Ninguém sabe ao certo e por isso não me custa especular.

De concreto mesmo é que o PT do Recife não vai se pacificar. A cúpula do partido na cidade e no estado, até mesmo na Executiva Nacional não esperavam a vitória de Costa e já fala abertamente em anular a primária. O próprio Rands não reconheceu a vitória do oponente. A julgar pelo que conheço do PT, João da Costa pode até comemorar sua vitória pessoal, mas há uma grande chance de perder essa parada. Por outro lado, se o PT não reconhecer a vitória de Costa, e, na base da intervenção, impor Rands como candidato, o partido vai para a campanha enfraquecido, com uma militância dividida e oferecendo um belo discurso para a oposição.

Antevejo dois cenários: o primeiro, menos provável, com João da Costa saindo candidato e vendo a Frente Popular esfarelar-se. Nesse cenário não seria impossível o PSB de Eduardo se debandar para o PMDB de Raul Henry, cujo padrinho é o senador Jarbas Vasconcelos, que vem se aproximando do governador de Pernambuco e antigo adversário político. Há sempre a hipótese de Eduardo apoiar alguém do PSB, mas duvido que isso aconteça.

Esse cenário poderia trazer desdobramentos em São Paulo, onde o PSB da cidade deseja apoiar o candidato José Serra, mas a direção nacional dos socialistas evitar esse compromisso. Caso Eduardo rompa com o PT na cidade do Recife, aumentam as chances do PSB paulista fechar com Serra.

O outro cenário, que acredito ser o mais provável, é a intervenção do PT nacional na primária. João da costa seria afastado do processo e a executiva do PT iria impor Maurício Rands ou outro candidato (quem sabe até mesmo João Paulo, o preferido na cidade, segundo pesquisas de opinião).  Nesse caso, o PT continuaria competitivo, poderia até mesmo manter a Frente unida, mas a eleição, que antes parecia fácil, tornar-se -ia imprevisível.

Chamo atenção para outro fato e que depois talvez me estenda mais sobre ele. Toda essa confusão na Frente Popular decorre do enfraquecimento da oposição na cidade. PMDB, PPS e DEM não conseguem formar um quadro político competitivo porque perderam o discurso e o interesse pelo embate político. Daí que a disputa no Recife se dê entre os aliados que brigam intensamente pelo poder. Nesse aspecto perde-se a vitalidade da democracia e a sucessão se transforma numa briga de facções de uma mesma família. Se a Frente vai permanecer eu não sei, mas ela está fatalmente com os dias contados em Recife e em Pernambuco.



06 maio, 2012

Defender a cotas é coisa de Patriota?








Um vermelho e azul com Cristovam Buarque.


A cor da elite
A cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica
05 de Maio de 2012 às 10:03 




Anos atrás, visitando o campus da Universidade de Brasília (UnB) com uma professora norte-americana, perguntei qual a diferença da paisagem arquitetônica do nosso campus para um campus nos EUA. Esperei que dissesse: "São parecidos." Mas, depois de olhar ao redor, ela disse: "Não têm negros." Respondi que no Brasil, como também nos EUA, os negros não têm boas escolas na educação de base. Ela perguntou: "Por que não adotam cota para negros, como nos EUA?"

Cristovam Buarque foi reitor da Universidade de Brasília (Unb), de onde saiu para ser governador do DF (1994-1998). No seu tempo como reitor não adotou, sequer discutiu essa possibilidade. Certamente havia outros problemas mais urgentes a resolver na universidade. O que me chamou atenção nesse texto foi, ainda que na forma de relato, a confissão objetiva de que o sistema de cotas raciais adotados pela UnB teve como exemplo máximo, os EUA. E por que isso é importante?  Por que revela que os racialistas veem uma semelhança entre o que ocorreu nos EUA com os negros e o que ocorreu no Brasil. Considerar os dois processos como similares, é uma profunda ignorância ou apenas má fé.

Cristovam deveria ter dito à sua amiga professora que não são os negros que não tem boas escolas, mas os pobres, não importa a cor da pele que eles tenham. Adotar a sugestão da amiga seria excluir uma significativa parcela de pobres de pele branca ou clara do direito de participar do processo, em condições de igualdade, com seus colegas de escola ruim que nasceram com a pela preta ou mais escura.

Na próxima semana, o Brasil completará 124 anos da abolição sem ter embaixadores negros. Atualmente há no Congresso Nacional apenas um senador negro e 43 deputados federais que assumiram serem afrodescendentes; temos apenas 2% de médicos, 10% de engenheiros e 1% de professores universitários que podem ser considerados negros. Os Estados Unidos já elegeram um presidente negro, mas o Brasil dificilmente terá um presidente negro nas próximas décadas.

Os dados acima tem um objetivo claro: se não temos embaixadores negros (isso vai durar pouco porque o MRE já instituiu um programa que privilegia candidatos negros na disputa por vagas do Instituto Rio Branco, que forma diplomatas); ou mesmo poucos negros no Congresso Nacional e nas universidades; se, segundo Cristovam, dificilmente teremos um presidente negro, só pode ser  porque somos racistas, não é? É o mesmo vício original. Ter um presidente, um diplomata, um médico, advogado, engenheiro ou professor negro é tão irrelevante quanto se eles fossem verdes, brancos ou azuis. Nós precisamos ter gente séria e competente e, nos casos de políticos, também honestos, não importa a cor da pele. O que o senhor está propondo tem história, e é muito antiga. No começo do século XX, Du Bois, com muito mais clareza, defendia nos Estados Unidos a ideia de que era preciso formar uma elite negra (os famosos 10%) para liderar a massa de negros no país, a fim de que essa massa tivesse orgulho da raça. Mais uma vez temos uma ideologia que importamos de um país cuja realidade da segregação é tão diferente da nossa que adotar os remédios que eles adotaram apenas produzirá, sendo otimista, uma divisão entre os brasileiros em critérios raciais.

Na semana passada, depois de nove anos de adotadas pela UnB, as cotas raciais foram reconhecidas como legais pelo STF - Supremo Tribunal Federal. Nesse período, três mil alunos foram admitidos pela cota racial na UnB e mil concluíram seus cursos, graças ao ingresso usando as cotas. Todos os estudos mostram que esses alunos tiveram um desempenho, no mínimo, equivalente à média dos demais alunos. Isso se explica porque todos os alunos beneficiados pelas cotas são necessariamente aprovados no vestibular.
Apesar disso, por quase 20 anos, um intenso debate vem sendo feito entre os que são a favor e os que são contrários a esse sistema, porque até hoje não houve entendimento correto do instituto das cotas raciais e seu propósito, nem entre os favoráveis, nem entre os opositores.

Eu fico aqui pensando se o senador Cristovam esperava um sistema de cotas raciais onde os candidatos negros entrassem na UnB de forma compulsória, apenas por causa da sua cor. É claro que eles tinham que fazer o vestibular, ou não? E aqui aproveito para explicar uma coisa. É enganoso imaginar que um aluno cotista de qualquer curso oferecido na universidade, será menos competente depois de formado do que um aluno não cotista. Um médico que se formou na UnB e que entrou pelo sistema de cotas terá, se formado, a mesma competência de um médico que entrou pelo sistema universal. Quando me oponho ao sistema de cotas é porque o considero injusto com os brancos pobres, que estudaram em escolas ruins e que por causa da cor da pele terão ainda mais dificuldades para entrar na UnB. Quando me oponho ao sistema de cotas, é porque enxergo nesse sistema um perigo real de dividirmos os brasileiros por critérios raciais, e, confesso, temo que daqui a alguns anos a gente se depare com manifestações de ódio racial, algo que felizmente o Brasil não conheceu.

Cristovam afirma que os que são favoráveis e os que se opõem ao sistema de cotas raciais ainda não entenderam o sistema. Ele vai nos explicar.

Os opositores dizem, com razão, que este é um "jeitinho" equivocado, porque a verdadeira solução para resolver a desigualdade racial na universidade seria uma educação de base de qualidade para todos. Realmente a maneira correta de resolver esse problema é a educação de base com qualidade e igual para todos. Temos bons jogadores de futebol negros porque a bola é redonda para todos, mas nossas escolas são redondas apenas para os poucos que têm renda para cursar uma boa escola no ensino fundamental e no ensino médio. Mas para fazer todas nossas escolas redondas, com qualidade, e dar resultado na mudança da cor da cara da elite serão necessários 20 anos. Isso se nós estivéssemos fazendo hoje o nosso dever de casa para mudar a educação. E não estamos.

Senador, sua metáfora é absolutamente pueril. O senhor reconhece que o sistema de cotas é um “jeitinho” equivocado, que o certo seria garantir escola de qualidade para todos os brasileiros, sem distinção, mas, veja que coisa, isso levaria 20 anos, e é preciso corrigir logo esse abismo, ainda que o custo seja prejudicar os pobres de outra cor. E a metáfora? Ora, dizer que só temos bons jogadores negros de futebol porque a bola é redonda é de uma infelicidade constrangedora. Seria o equivalente dizer que só temos bons jogadores brancos de tênis porque a bola é redonda para todos. Aliás, senador, os negros que alcançaram fama e reconhecimento no futebol, no basquete ou no vôlei não precisaram de cotas para isso. Precisaram apenas do seu talento. Não pediram favor para jogar, jogaram porque provaram que eram bons e mereciam a chance. A escola ruim não é redonda apenas para os negros, mas para os pobres e de todas as cores.

Tanto os que são contrários às cotas raciais quanto aqueles favoráveis enfocam o assunto pelo lado individualista de oferecer uma escada social a um jovem negro. Continuam pensando que as cotas visam a beneficiar o aluno que obtém a vaga. Não percebem o papel da cota racial como o caminho para o Brasil apresentar com orgulho uma sociedade com elite tão multirracial quanto seu povo.

A cota social beneficia o aluno, a cota racial beneficia o Brasil, possibilitando o ingresso de jovens negros na carreira profissional de nível superior. Certamente jovens escolhidos entre aqueles de classe média, que concluíram o ensino médio e passaram no vestibular porque foram bem preparados em uma boa escola, portanto provavelmente não pobres. Serão pessoalmente beneficiados, mas prestarão um serviço patriótico ao ajudarem, pelo estudo, a mudar a cor da cara da elite brasileira.

Finalmente, o senador explica porque ele acha o sistema de cotas raciais correto! E, confesso, prefiro a explicação dos racialistas, é mais honesta. Para o senador, defender as cotas é ser patriota. Donde se conclui que quem não as defende, até pode não ser racista (como acusam os racialistas), mas certamente não é patriota. O senador afirma, para o meu espanto, que os brancos pobres, embora prejudicados, devem entender o sistema de cotas por amor ao Brasil!

A cota racial para a universidade nada tem a ver com a cota social. Esta atenderia jovens pobres para compensá-los pelo que lhes negamos na infância. É um benefício justo; a cota racial não é um assunto de justiça, é um assunto de dignidade nacional; não é social, é patriótica.

Aqui, aplaudo o senador. Ele vai ao ponto. A cota racial não tem nada a ver com política social. Não se quer beneficiar os pobres, quer se privilegiar os negros. Para os racialistas isso se justifica para se reparar a injustiça da escravidão; para o senador, a cota racial é uma medida de quem ama o país. Você que se opõe ao sistema de cotas só o faz porque é racista ou porque não ama o país! Em ambos os casos, eles satanizam os que se opõem e, isso, desculpem, é uma visão totalitária do assunto.

Os que lutam pela cota racial nas universidades não lutam pela erradicação do analfabetismo entre adultos negros, nem para que os negros pobres tenham escolas com a mesma qualidade dos ricos brancos. E aqueles que defendem as cotas sociais no lugar das raciais não defendem cotas sociais no ensino fundamental e médio, nos colégios federais e mesmo nas escolas particulares de qualidade. Esta sim seria cota social. A cota social na educação de base nunca atraiu os defensores da cota racial nem aqueles que se opõem a ela e que usam a ideia de social contra a de racial. Os que defendem cotas sociais para as universidades, em vez das cotas raciais, provavelmente ficarão contra as cotas sociais nas boas escolas da educação de base, obrigando as escolas caras a receberem alunos pobres, sem mensalidade ou com uma bolsa do tipo Prouni.

Aqui o senador ficou confuso. Não sabia exatamente como terminar o artigo e resolveu, para ser equilibrado, criticar todo mundo. No final, a gente fica sem entender o que ele defende.

Que os racialistas não estão interessados na educação básica é ponto de consenso. Eles estão pouco se lixando para o negro pobre. O que eles querem é aumentar a quantidade de negros nas universidades com propósitos políticos. O que eles querem é fomentar a ideologia de que o Brasil se constitui num país formado por duas nações-raça que dividem o mesmo espaço. O que eles querem é combater a visão de que o brasileiro é miscigenado, que nunca se identificou por critérios raciais. O objetivo deles não é sequer combater o racismo, embora eles não afirmem isso, porque racismo não se combate com cotas raciais, mas com educação e punição aos racistas.

O senador Cristovam, meu Deus, flerta com a ideia de que para ser justo deveria haver cotas nas escolas públicas federais (fui aluno de uma) Assim, quem sabe, estaríamos resgatando os pobres desse país. Temo que daqui a pouco o sistema de cotas – raciais ou sociais – vire uma tendência em vários setores. E aí, os racialistas, finalmente, alcançarão o seu intento. Fazer do Brasil uma nação bicolor, que se identifica pela cor da pele.