03 dezembro, 2011

Reflexões sobre a profissão

Não me sinto a pessoa mais preparada para exercer certas funções. Minha transparência e meu jeito direto de falar – sem levar em conta as amizades e os sentimentos, tem me causado muitos dissabores. A solução talvez fosse sorrir para o que acho errado ou silenciar diante de absurdos; mas isso me causaria danos morais ainda maiores. Conclusão: vou sempre causar em pessoas queridas a raiva incontida e a decepção.

Fazendo um balanço do ano de 2011, posso dizer que no campo profissional não fui feliz. Por mais que me digam que fui muito melhor do que muitos, e que erros são mais do que comuns, são inevitáveis, não posso concordar com o meu desempenho.

Eu simplesmente não consigo defender ideias com as quais eu discordo totalmente. Mais: fui educado numa escola onde as discussões francas e duras, sem melindres ou sentimentalismos, eram estimuladas. Por isso, sinto um profundo incômodo quando colegas se ressentem por serem admoestados e criticados, como se isso fosse uma traição ou um pecado.

É claro que reconheço que parte dessa insatisfação que colegas sentem com as minhas palavras e intervenções decorrem da função que passei a exercer no início desse ano. Mas o principal motivo são os melindres que enxergam um ataque onde só houve uma crítica.

Sempre tentei fazer o meu papel de professor com muita seriedade. Seriedade aqui é respeitar os prazos, é fazer avaliações coerentes, é procurar aprimorar meu conhecimento e a minha prática em sala de aula. É ensinar aos alunos que a aprendizagem exige compromisso e dedicação, e que, se essas exigências faltarem, terão que arcar com as consequências.

E o que encontrei, especialmente nesse ano? Colegas que sofriam porque teriam que dar aula. Colegas que eram implacáveis com a falta de empenho de alunos e indulgentes com a própria falta de empenho. Colegas que diante da possibilidade de inovar ou de aprender algo novo, adotavam a postura acomodatícia que por anos vem lhes garantindo o sustento e a segurança, mas que talvez já não ajude mais na aprendizagem do aluno.

Participei de cursos, congressos, encontros de educação, e o que vi? Na quase totalidade dos casos, a empulhação. Os palestrantes estavam mais preocupados em parecer simpáticos e engraçados do que em levar realmente algo de útil e prático para o professor. Mais triste ainda: vi professores de diversos cantos do Brasil aplaudirem idiotices e erros crassos como se fossem focas amestradas equilibrando a bola no focinho e batendo palmas para receber algumas sardinhas.

Nunca esperei uma sala de aula perfeita. Nunca fui dado a utopias. Lido sempre com a realidade. O professor evitaria a maioria das frustrações se não idealizasse o trabalho em sala de aula.

Trabalhar com alunos difíceis, desinteressados, mal-educados, preguiçosos, sempre vai fazer parte do nosso trabalho. Mas quem disse que esses estudantes não podem aprender? Qual é, afinal, o meu papel de professor?

Se não existe uma sala de aula perfeita, isso não pode ser motivo para o professor não se preparar para dar a melhor aula que ele puder. Porque naquela sala de aula haverá alguns estudantes que dependem e esperam pela qualidade do trabalho do professor.

Um professor sem gana além de não ajudar ninguém, também atrapalha o futuro daqueles que esperavam mais dele. Por outro lado, um professor sério, com responsabilidade, além de mudar a vida daqueles mais interessados, pode, embora não seja uma certeza, fazer a diferença na vida de outros que não pareciam muito estimulados. O difícil, reconheço, é ser um professor assim quando se está rodeado por reclamações e lamúrias.

Não há a menor chance de professores concordarem com esse texto. A menor. Se o escrevi foi mais como desabafo. Não saberia ser um professor diferente do que sou, portanto, só me resta continuar fazendo o meu trabalho ciente de que ainda posso ser muito melhor em sala de aula; fiel ao compromisso de ser cada vez melhor na profissão que escolhi abraçar.

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