26 dezembro, 2011

Como perdi o meu primeiro emprego.

Era o ano da graça de 1996. Eu ainda não tinha completado 20 anos, faria em novembro, e essa história se passou em agosto. Faltavam alguns dias para me formar no curso de Química Industrial e eu precisava arrumar um emprego. Saí a campo à procura de um estágio que validasse o curso.

Nas aulas de Organização e Normas, que não me serviram para nada, fui aconselhado a ir bem vestido para as entrevistas de emprego. Como aluno obediente, segui à risca o que recomendavam os professores; e hoje sei que fiz mal. Numa vaga para operário eu parecia um candidato a gerente. Tolice.

Minha primeira tentativa de emprego formal - porque como a maioria dos brasileiros pobres, trabalhava desde cedo, e sem carteira assinada - foi na indústria de alumínio, a ALCOA, que fica em Igarassu, pertinho de Itapissuma e também de Itamaracá. Ao chegar à fábrica, depois de 90 minutos de ônibus, vi que uns 30 jovens como eu queriam a única vaga disponível. Seria uma luta árdua, mas para acabar com o suspense quero dizer que a perdi. O motivo dessa crônica é dizer por que perdi.

A primeira etapa foi uma prova de conhecimentos. Só teve questões de físico-química. Concentração para cá, normalidade para lá, volume, diluição, essas bobagens. Tirei 7, fui medíocre.

Depois veio a entrevista com uma jovem engenheira chamada Flávia. Não me lembro de nossa conversa, apenas de um dado curioso: lá pelas tantas a engenheira me pergunta o que eu fazia nas horas vagas. "E pobre tem lá hora vaga!", pensei. Respondi mesmo o seguinte: "Escuto música!" “E que tipo de música você gosta, Zé Paulo”? Ela perguntou de pronto. “Legião Urbana”, respondi. A engenheira sorriu, disse que também curtia Renato Russo e eu lá na frente dela sem entender por que ela queria saber de música quando eu estava em busca de um emprego.

Quase no final da entrevista fiz minha primeira grande besteira. Indagado se eu conhecia ou se tinha parente na fábrica, disse que parente não tinha, mas que conhecia sim uma pessoa que trabalhava naquela unidade, inclusive havia sido essa pessoa que trouxera o meu currículo para a empresa. A moça fechou a cara. Parece que meu patrocinador andou às turras com a engenheira Flávia. Quem fala demais dá bom dia a cavalo, não é? A chance de arrumar meu primeiro emprego formal acabara ali, embora ainda não soubesse disso e ainda cometesse outras gafes no processo seletivo.

Já disse a vocês que não gosto de psicólogos? À exceção de D Ivalda, D Betânia, D Carlenita e Sr. Kênio, psicólogos da ETFPE, nunca simpatizei com essa turma que estuda Freud, Jung, Skinner e nos obriga a assistir Laranja Mecânica. Foi justamente no teste comandado pela psicóloga que abracei o meu fracasso.

Primeiro um teste de Lógica. Não me lembro do teste, mas sei que não fui bem. Depois um teste de concentração. Esse foi muito pior que o primeiro; e finalmente, o famigerado desenho...

Nunca fui bom em desenho. Na ETFPE cursei três disciplinas de desenho: À mão livre, passei com 6; Geométrico, passei com 7; e Desenho Técnico, nesse o professor me ajudou a passar. Não consigo traçar uma linha reta mesmo com régua.

O teste exigia que desenhássemos uma pessoa, indicando nome e idade. Se você leitor desenha com a mesma facilidade com que respira, não vai entender a minha dificuldade. Fui uma lástima nesse teste. Se tiver psicólogo por aí, explica por que se pede a um químico, engenheiro, arquiteto, motorista, esses testes estapafúrdios? Desenhei uma mulher tão feia que a Ideli Salvati seria miss ao lado dela. Para piorar eu desenhei a mulher sem roupa, com os seios de fora (não sabia fazer uma blusa para ela), e ainda pus o nome de Flávia, que por coincidência era o mesmo nome da engenheira que seria a minha chefe. Depois desse desenho encerrei minha participação no processo seletivo da ALCOA. Por que será?

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