23 setembro, 2011

O Tempo que houve




Houve um tempo em que bastava o sol,

A praia, a piscina e aqueles olhos gris...

Um cabelo desgrenhado,

Um sorriso bobo,

A casa da minha avó,

Para eu me sentir feliz...

Nesse tempo eu fazia longas caminhadas.

Via o sol se esconder

De volta para casa.

E alguém devia acender,

De repente, as estrelas...

Tudo era simples e bastava...


Houve um tempo que eu e meu pai

Na feira de Casa Amarela,

Ou de Afogados,

Defendíamos no prato

No copo e na panela

A bebida e a comida

De cada dia.

Nesse tempo o nosso sonho era comprar

Depois da sorte na loteria,

“A casa do marinheiro”,

Do outro lado do rio,

Mas nunca houve dinheiro...


Houve um tempo em que eu quis mudar o mundo,

Mas o mundo inteiro, sabe?

Na minha cabeça,

E nos meus cadernos,

Havia a solução para tudo.

Nesse tempo eu estudava no Liceu

Na rua do Sol

Perto do rio Capibaribe

E chegava sempre primeiro

Para ver Caline, Keila e Simone

Fantasmas das minhas noites insones

Conquistas impossíveis

Como a “Casa do Marinheiro”


E quando me recordo nostálgico desses tempos que houve

O menino dessas histórias,

Era outro. Não eu.

Feito um livro de memórias

De um autor que se perdeu

No tempo, no espaço, na vida

Que à caça de vitórias

Apenas achou derrotas e desditas

Visitar esse estranho de tempos remotos

É bom e é ruim.

Alegra e entristece

E machuca

Como sempre acontece,

Ao se deparar com antigas fotos...

15 setembro, 2011

A inveja santa e a inveja diabólica.

Considero a inveja um sentimento bastante humano e comum. Aliás, bem comum. Quem é sincero sabe, de si para si, que já sentiu alguma vez algum tipo de inveja. Eu, por exemplo, tenho inveja de algumas pessoas. Confesso. Mas quero explicar o meu conceito de inveja, não para justificá-la, apenas para distinguir a inveja santa, ou do bem; da inveja diabólica, ou do mal.



A inveja santa é aquela que nasce da triste certeza de que jamais teremos, por mais que nos esforcemos, as qualidades e o talento de pessoas que admiramos. Eu invejo, por exemplo, João Pereira Coutinho porque apesar de nós termos a mesma idade, eu jamais terei o mesmo talento que ele tem para escrever crônicas e, dificilmente ombrearia com ele em qualquer disputa intelectual ou acadêmica. Essa inveja não nasce da arrogância, mas do reconhecimento humilde de que o outro, ou os outros, a quem admiramos serão sempre melhores do que a gente justamente naquilo que gostaríamos de ser e nunca seremos. Essa inveja do bem, se for do bem, pode nos ajudar a aprender e aperfeiçoar conhecimentos e qualidades que queríamos muito ter. Mas eu insisto: jamais seremos iguais àquelas pessoas que invejamos, mas que não deixamos de admirá-las por isso. O reconhecimento disso é a principal característica da inveja santa.

A inveja diabólica tem outra natureza. O invejoso do mal não entende porque os outros não enxergam nele o talento e a qualidade que ele julga ter e, por isso, não aceita ou não admite que outra pessoa seja reconhecida mais do que ele.

O invejoso do mal é arrogante, mas também é inseguro. Ele se dá uma importância exagerada e fica péssimo se um companheiro de trabalho, um colega de sala, um vizinho, enfim, uma pessoa próxima recebe um elogio, uma promoção, uma nota maior. Ele que se julga merecedor de tudo isso, não entende porque o outro é mais reconhecido do que ele. O invejoso do mal quer as glórias só para si ou, no extremo, fica satisfeito se ele não recebe o reconhecimento, desde que ninguém receba. É uma pessoa doente e mesquinha.

O que é mais letal no invejoso diabólico é que ele começa a sabotar o trabalho do colega que se destacou mais do que ele. Mas ele faz isso - e aqui o invejoso do mal se torna cruel - fingindo simpatia, companheirismo, amizade.

O invejoso do bem queria poder ter o talento e as qualidades da pessoa que ele inveja. O invejoso do mal não aceita, acha injusto, que a pessoa que ele inveja se destaque mais do que ele.

O invejoso do bem admira o talento e as qualidade da pessoa que ele inveja; O invejoso do mal detesta e odeia o talento e as qualidades da pessoa que ele inveja.

O invejoso do mal não é só um doente, é também, e, antes de tudo, um mal caráter.


11 setembro, 2011

04 setembro, 2011

O amor é alegre, mas não brinca.

O amor é alegre, mas não brinca.
E nunca acaba de súbito.
Ele se despede minuto a minuto.
Antes de quebrar, ele trinca.


Mais versos em mais um domingo igual




DOMINGO DE SOL.

Domingo de sol,

Parque e passarinho.

Roupas esportivas, patins, bicicletas;

Bebês nos seus carrinhos.

Papais, mamães,

Avós com seus netos e netas

E eu... sozinho.

O céu muito azul dói os olhos

A solidão, o peito.


Nos dias de setembro, a chuva

é como a alegria,

um ponto fora da curva

um evento impossível,

uma dolorosa ironia...


As crianças correm, brincam e caem

bêbes descansam nos braços dos pais

Os maiores sujam a roupa com picolé,

aquela menina ensaia passos de balé.

A manhã é feliz apenas no lado de lá

Minha mão estendida no ar

imagina quatro mãozinhas

Que morro de saudade de apertar...


O ar está muito, muito seco,

A umidade que há

está nos meus olhos...


02 setembro, 2011

Vocês não podem!


02/09/2011
às 6:55
RECADO AOS PORCOS: “NÃO, VOCÊS NÃO PODEM!”
Eles acham que podem tudo. E é nosso dever moral, ético, político, humano, dizer-lhes que não. É nosso dever de pais, de filhos, de professores, de alunos, de trabalhadores, de empresários, de leitores, de jornalistas. É nosso dever! Dos homens e das mulheres livres!

Se militantes políticos, mas cidadãos como quaisquer um de nós, eles podem fazer tudo o que não está proibido em lei — ou arcar com as conseqüências da transgressão. Se funcionários do Estado, podem fazer apenas o que a lei lhes permite. Num caso e noutro, é preciso que lhes coloquemos freios. Não são os donos do poder, mas seus ocupantes. E têm de dançar conforme a música da democracia e do estado de direito. Mas eles estão mal acostumados.

Porque o método da mentira deu certo uma vez, eles repetiram a dose. Porque deu certo outra vez, eles insistiram. Agora estão empenhados em transformar o engodo e a trapaça numa categoria de pensamento, num fundamento, num — e isso é o mais pateticamente ridículo — ato de resistência. Têm de ser relatados. Têm de ser denunciados. Têm de ser combatidos onde quer que se manifestem com seu falso exclusivismo ético, com sua combatividade interesseira; com suas duas morais: a que usam para incensar os crimes de seus pares e a que usam para crimininalizar a decência de homens de bem.

Criminalizaram a Lei de Responsabilidade Fiscal. E ela era boa.
Criminalizaram as privatizações. E elas eram boas.
Criminalizaram o Proer. E ele era bom.
Criminalizaram a abertura do país ao capital estrangeiro. E ela era boa.
Criminalizaram os programas sociais, chamando-os de esmola. E eles eram bons.
Não há uma só virtude que se lhes possa atribuir que não decorra de escolhas feitas antes deles — e que trataram aos tapas e, literalmente, aos pontapés.

Construíram a sua reputação desconstruindo a biografia de pessoas de bem. E acabaram se aliando ao que há de mais nefasto, mais degradante, mais atrasado, mais reacionário, mais vigarista na política brasileira. Poucos são hoje os canalhas da República que não estão abrigados sob o seu guarda-chuva, vivendo o doce conúbio da antiga com a nova corrupção. Se algum canalha restou fora do arco, foi por burrice, não por falta de semelhança. Corromperam, aliás, mais do que as relações entre o público e privado. Promoveram e promovem uma contínua corrupção do caráter.

Perceberam — e há uma vasta literatura política a respeito, que faz o elogio da tirania — que o regime democrático tem falhas, tem fissuras, por onde o mal pode se insinuar e prosperar. Corroem o princípio fundamental da igualdade promovendo leis de reparação destinadas a criar clientela, não cidadãos. E essa doença da democracia já chegou ao Supremo Tribunal Federal. Estimulam movimentos criminosos, ditos sociais, ou com eles condescendem, porque isso alimenta a sua mística dita socialista — se o socialismo era essencialmente criminoso, e eu acho que era, para eles é a virtude possível para esconder seus vícios. São os porcos de George Orwell, de quem parecem simular também o cheiro. Para eles, a única coisa feia é perder. E isso significa, então, que pouco importam os meios que conduzem à vitória.

Tentaram comprar o Congresso com o mensalão.
Tentaram fraudar uma eleição com os aloprados.
Tentaram destruir um adversário produzindo falsos dossiês.

Tentam agora aprovar uma reforma política que é um escárnio à decência, ao bom senso, à inteligência, à racionalidade. E tudo porque não estão aí para aperfeiçoar os instrumentos do estado do direito que tornem cada homem mais livre, mais senhor de si, mas independente do estado. Eles querem precisamente o contrário. É por isso que “ele” já se disse o pai do Brasil e anunciou que elegeria a mãe. Não é o amor filial que os move, mas o vocação para o mando. Querem um país de menores de idade: de miseráveis pidões, de trabalhadores pidões, de empresários pidões… Até de jornalistas — e como os há! — pidões! E eles odeiam os que não precisam pedir, rastejar, implorar. Acostumaram-se com os mascates de elogios, que têm sempre um “bom negócio” para arrancar um dinheirinho dos cofres públicos. Compram consciências e consideram que os que não se vendem só podem ter sido comprados pelos adversários. Esqueceram-se de que são eles a bênção para os que se vendem porque sempre podem pagar mais.


Estão em toda parte! São uma legião! Realizam a partir desta sexta-feira um congresso partidário, que se estende até domingo. Aproveitarão a ocasião para fazer um desagravo a um dos seus, aquele que se tornou notável, aos 14 anos, segundo testemunho do próprio, porque roubava as hóstias da igreja. Que têmpera corajosa já se formava ali! Até hoje, ao comungar, lembro da minha meninice e colo o Santo Pão no céu da boca. Temíamos, os muito jovens, que o corpo de Cristo sangrasse. Ainda não entendíamos a Transubstanciação da Eucaristia, mas já tínhamos idade para saber que não se deve roubar. É um dos Mandamentos da Lei de Deus! E deve ser um dos mandamentos da lei dos homens. Em qualquer idade.

O ladrão de hóstias pretende ser hoje um ladrão de instituições cheio de moral e razão. Mais do que isso: quer dar à sua saga uma dimensão verdadeiramente heróica. Se, antes, pretendeu ser o paladino da liberdade contra a ditadura, numa história superfaturada, apresenta-se hoje como o paladino da ditadura contra a democracia. O herói é um lobista de potentados da economia nacional e global e reivindica o direito de ter como subordinados homens de estado — cuja conduta é regulada por princípios de ética pública —, com os quais pretende despachar num governo clandestino, paralelo, que se exerce em quartos de hotel, numa espécie de lupanar institucional.

E vilã, na boca e na pena daqueles que tentaram comprar o Congresso, fraudar eleições e destruir adversários, é a imprensa livre, que faz o seu trabalho, que vigia a coisa pública, que zela pelos bons costumes da República — aqueles consubstanciados na Constituição. Querem censurar a imprensa. Querem eliminar a oposição. Querem se impor pela violência institucional. Como os porcos! Aqueles passaram a andar sobre duas patas para imitar seus antigos inimigos. Estes não têm qualquer receio de andar de quatro, escoiceando vigarices, para homenagear os amigos.

Mas não passarão!
Não passarão porque a liberdade de imprensa lhes diz: “Não, vocês não podem!”
Não passarão porque as pessoas de bem protestam: “Não, vocês não podem!”
Não passarão porque a decência se escandaliza: “Não, vocês não podem!”

E por isso eles estão bravos e mobilizam seus sicários na rede. Começam a perceber que o movimento ainda é tímido, mas é crescente. A cada dia, surgem evidências de que suas mentiras perdem vigor, de que suas falcatruas perdem encanto, de que seus crimes buscam mesmo é o conforto dos criminosos, não o bem-estar da população.

Não, eles não podem!
Não calarão a imprensa livre!
Não calarão os homens livres!
Não calarão os fatos.

Agora é a eles que me dirijo, que leiam direito e escutem bem:
“NÃO, VOCÊS NÃO PODEM!!!”

Entre outras coisas, não podem porque estamos aqui.


Por Reinaldo Azevedo