16 maio, 2011

Por uma vida melhor, será?

Muita gente torce o nariz para mim quando de forma irônica eu digo que morro de medo de gente que luta por um mundo melhor. Os que não torcem o nariz, olham-me com aquele ar de comiseração que se tem por um pobre diabo que sem motivos para ser feliz vive praguejando contra a vida. Não, meus caros. Não quero um mundo melhor porque não acredito que pode existir um mundo melhor ou pior. O mundo em que vivo é o que é. Luto para viver melhor nesse mundo, mas não para torná-lo melhor. Nunca tive vocação para o heroísmo. Mas por que falo disso?

No último sábado repercutiu em sites e na TV a informação de que o MEC aprovou e comprou cerca de 500 mil exemplares do livro POR UMA VIDA MELHOR, destinado a estudantes de escolas públicas do Brasil. O livro, escrito pela professora Heloísa Ramos, defende que se substitua os termos certo e errado no ensino da língua portuguesa, pelos termos adequado e inadequado. A autora considera que na frase "os peixe foi pescado", não há erro, apenas uma variante da língua, tão merecedora de validade quanto aquela que está normatizada na gramática.

Abaixo, reproduzo uma página do dito livro. Em seguida, republico partes de um texto antigo, escrito em 2007, que já tratava desse problema. O "pai" de todas essas inovações no uso da língua é Marcos Bagno, professor da UNB, claro. Bagno vai em vermelho e eu vou em azul.

“Nossa tradição escolar sempre desprezou a língua viva, falada no dia-a-dia, como se fosse toda errada, uma forma corrompida de falar “a língua de Camões”. Havia (e há) a crença forte de que é missão da escola consertar a língua dos alunos, principalmente dos que vêm de grupos sociais desprestigiados, como a maioria dos que freqüentam a escola pública. Com isso, abriu-se um abismo profundo entre a língua (e a cultura) própria dos alunos e a língua (e a cultura) própria da escola, uma instituição comprometida com os valores e ideologias dominantes. Felizmente, nos últimos 20 e poucos anos, essa postura sofreu muitas críticas e cada vez mais é aceita que é preciso levar em conta o saber prévio dos estudantes, sua língua familiar e sua cultura característica, para, a partir daí, ampliar seu repertório lingüístico e cultural”

O professor Marcos Bagno que dá aulas na UNB - engraçado, isso não me surpreende - começa dizendo que nossa tradição escolar despreza a língua viva, aquela do cotidiano, das mesas de bar e das conversas nas esquinas. O que o professor considera uma violência, a saber, a escola ensinar a língua portuguesa aos estudantes, nada mais é que uma obrigação da escola. Não há desprezo pela língua errada do povo - Manuel Bandeira fez um verso belíssimo sobre esse assunto, mas falarei depois - há, quer dizer, já houve, a preocupação de ensinar ao aluno, seja ele de onde for, da periferia ou não, como se deve escrever e falar a norma culta. A escola não castra as gírias, as singularidades dos grupos, ela apenas ensina, quer dizer, ensinava, como escrever e como falar a língua de Camões, de Antônio Vieira, de Eça de Queirós, de Fernando Pessoa.

(...)

“Por isso, em vez de reprimir e proibir o uso, na escola, da linguagem dos jovens, há muito mais vantagens em dar espaço para ela em sala de aula, promover algum tipo de trabalho que tenha como objeto essa linguagem. Por exemplo, trazer para a sala de aula a produção escrita ou musical desses jovens – grafites, fanzines, raps - , examinar os traços lingüísticos mais interessantes, os tipos de construção sintática mais freqüentes, a pronúncia, o vocabulário, sem erguer barreiras preconceituosas contra gírias e expressões consideradas “vulgares”. Sugerir atividades lúdicas como “traduzir” um poema clássico para a linguagem dos guetos, das favelas e das periferias.”

A escola não reprime a “língua achada na rua”, antes, é a norma culta, a forma correta de escrever e falar a língua portuguesa que sofre discriminação e preconceito, e pasmem, esse preconceito também vem de professores, muitos de língua portuguesa, provavelmente alunos do senhor Marcos Bagno. Justiça seja feita. Bagno não chegou ao ponto de sugerir que num livro didático constasse essa "lingua dos guetos", mas a boçalidade não conhece limites, como provou a professora Heolísa Ramos com o seu POR UMA VIDA MELHOR.

Fico aqui pensando nas aulas de poesia e literatura segundo Marcos Bagno. Versos de hip hop ombreariam com versos de Bandeira, Drummond, João Cabral e Quintana, para ficar em alguns poetas conhecidos. Quem sabe o funk de Tati quebra barraco seja, em termos de língua, tão valiosos quanto os versos de Ferreira Gullar.

Marcos Bagno é mesmo um achado. Segundo ele, os que vivem nos guetos, nas favelas e na periferia não precisam usar a norma culta se não quiserem interessar-se por ela. São todos representantes legítimos do idioma dos explorados. Eu nasci na periferia e sempre desejei aprender a escrever e a falar conforme a norma culta, se eu não consegui, uma parcela é culpa minha; outra, bem maior, é culpa de professores que não foram tão exigentes comigo. Outra curiosidade que tenho é como seria a “tradução” de um poema clássico para a “língua achada na rua” que Marcos Bagno defende. Prometo fazer o exercício.

(...)

“É urgente reconhecer que todas as formas de expressão são válidas e constituem a identidade individual e coletiva dos membros das múltiplas comunidades que compõe nossa sociedade Que a formação do cidadão também passa pela admissão, no convívio social, de todas as formas de falar e de escrever. Que é preciso levar o estudante a se apoderar de recursos lingüísticos mais amplos, para que se possa inserir (se quiser) na cultura letrada, isso não deve passar pela supressão nem pela substituição de outros modos de falar, de amar e de ser.”

A língua é como uma roupa. Às vezes é indispensável um traje mais formal; outras vezes, uma sunga é o traje mais adequado. Se todas as formas de expressão são válidas, é forçoso reconhecer que saber usá-las nas ocasiões corretas é indispensável. O que a escola faz, ou deveria fazer, é ensinar a língua achada na gramática, para que naquela festinha black tie, o rapaz e a mocinha não compareçam com roupinhas inadequadas. Será que o departamento de letras da UNB aceitaria um candidato que escrevesse assim: “a parada é a seguinte: vamo mexer umas tretas aí, pra fazer uma paradinha de responsa”. Ou: Voxê é minha amigucha do coraxão.

O professor, festejado na UNB, invoca um conceito caro aos esquerdofrênicos que é o multiculturalismo. Desde as mais priscas eras, a língua é um elemento que dá identidade nacional a uma coletividade. Esse pessoal da UNB parece que gosta de guetos, de grupos, detesta universalizar o saber e os direitos



2 comentários:

Anônimo disse...

Como diria, então, a professora Heloísa Ramos, logo no início do seu texto, "mehor" está escrito "inadequadamente".

Zé Costa disse...

Não, caro(a) anônimo(a). Houve um erro de digitação que não percebi, mas que você, sempre atento, ou atenta, sei lá, me alertou. Obrigado.

Cometo muitos erros nos textos que escrevo, mas não me escondo no papo furado de que não estou nem aí para as regras. Faço a correção com alegria, mas também com constrangimento.