10 abril, 2011

A fantástica saga de Pião.


Quando eu era um meninote, meu pai costumava contar na hora de dormir algumas estórias. Muitas era de terror, mas algumas, poucas, eram estórias com algum ensinamento moral. A maioria dessas estórias, se não todas, era inverossímil, mas surtia o efeito esperado: assustava-nos e nos fazia pensar, a mim e a meu irmão, apenas 11 meses mais novo do que eu...

Uma das estórias mais esquisitas que ele contava era a do menino Pião, um rapazinho que adorava jogar bola de gude, futebol e, claro, rodar pião. Aliás sua preferência por esta brincadeira lhe deu o curioso apelido.

A mãe de Pião era feirante. Sempre no fim de semana ia até à feira da Bomba Grande ou do Cordeiro vender suas verduras. Numa versão mais recente, a mãe do menino ia para a feira das cordas. O fato, porém, é que ela havia incumbido o filho de uma tarefa importante enquanto ela estivesse na feira.

Pião ficou com a responsabilidade de olhar o feijão, a fim de evitar que ele queimasse. Pião assumiu com muita seriedade essa responsabilidade e tomou a resolução de que dessa vez não desobedeceria à sua mãe. Mesmo porque, contava meu pai em tom bravo, a mãe do menino havia lhe ameaçado com uma surra caso ele deixasse o feijão queimar.

Pião, no entanto, foi tentado pelo seu amigo Ponteira, moleque serelepe da rua, que lhe bateu à porta, dizendo:

- Pião, oh, Pião! Vamos brincar na rua...

- Não posso, Ponteira. Preciso olhar o feijão para ele não queimar. Minha mãe me disse que se eu desobedecesse ela, ela me daria uma pisa!

- Oxente, Pião, é só tu colocar muita água no feijão que dá tempo da gente brincar, e o feijão não queima. Tô aqui com piões novos, vamos rapaz, deixa de besteira. Faz o que eu te disse.

Pião, tomado pela lógica do amigo, fez exatamente como ele lhe recomendara e foi brincar. Passou horas na rua. Rodou pião, jogou bola de gude, jogou futebol, ficou todo sujo, e muito tarde lembrou do feijão. Com o tempo que ele passou na rua nem que tivesse colocado toda a água do rio Capibaribe no feijão evitaria o pior. Pião voltou pra casa voando, antes que sua mãe voltasse da feira. Conseguiu chegar antes dela, mas não salvou o feijão.

O leitor talvez esteja perguntando - no caso, é claro, de ele ter chegado até a essa parte do texto - onde estão as passagens inverossímeis da narrativa. É agora, leitor, que você vai ficar sabendo de uma das marcas de meu pai. Quando ele não sabia o que fazer para terminar a estória, produzia finais inconcebíveis. No entanto, para a imaginação de dois meninotes, a realidade só atrapalha.

Pião, assustado com a possibilidade de apanhar como um cachorro, embora sua mãe nunca cumprisse as surras que lhe prometia, certamente porque ele tinha ciência de que não as merecia, dessa vez teve a certeza que a promessa seria cumprida em toda a sua extensão e dor. Pião fugiu. Afastou-se do bairro para um bosque, decidido a nunca mais voltar para casa. Viveria na selva, comendo frutos e raízes e dormindo nos galhos das árvores.

Faminto e com frio, Pião, sem forças, foi resgatado pela macaca Carla, que se tornou sua mãe , cuidando dele até que ele crescesse e virasse homem.

E assim aconteceu. Pião agora era um homem. Tinha um bom emprego e decidiu voltar para a sua velha casa e rever sua velha mãe.

Ninguém no antigo bairro de Pião, mesmo na sua antiga rua, reconhecera naquele homem de estatura média, cabelos grisalhos e de ar triste, o menino alegre e brincalhão de outrora. Ninguém imaginou que aquele que se apresentava como Pedro, era o menino Pião.

Pião descobriu que sua mãe estava bem doente e que desde a fuga do filho há muitos e muitos anos, caiu numa tristeza profunda. Vivia da caridade dos vizinhos. A fuga do filho havia lhe roubado a saúde e o ânimo de viver. Os vizinhos, muitas vezes, pensaram que ele não viveria muito tempo naquele estado, mas ela repetia que todos os dias pedia a Deus que antes de morrer lhe concedesse a graça de rever o filho.

Pião encontrou a velha porta da sua casa apenas encostada. A mesma porta por onde saiu decidido a não mais voltar. Na sala os mesmo móveis, acabados pelo tempo e pela falta de manutenção. Aproximou-se do quarto da mãe.

- D. Lídia, como vai? Vim visitar a senhora. - disse Pedro com a voz quase embargada

- Quem está aí? Oh, meu filho, se aproxime que estou cega e ficando surda. Você veio trazer a sopa hoje?

- Oh, mamãe - Pião não se conteve e caiu de joelhos ao pé da cama chorando - Sou eu, seu filho Pião! Me desculpe! Não queria ter deixado o feijão queimar. Tive muito medo de a senhora me dá uma surra e por isso fugi.

- Meu filho Pião! É mesmo você? Ai, meu Deus, que alegria! Venha cá e me dê um abraço menino danado!

Pião abraçou sua mãe muito forte e percebeu que ela lhe sorriu pela última vez.

Papai tentava me ensinar alguma coisa com isso, nunca soube direito o quê. O que eu sei é que essa estória ficou gravada na minha memória afetiva e sem saber exatamente por que, hoje a repasso para os meus filhos.

2 comentários:

Fernando BS disse...

Mesmo que a estória não carregue uma moral composta, é instrutivo salientar que a abertura do enredo possibilita que o leitor deixe explícito seu próprio aprendizado.
Sempre é bom passar às próximas gerações a importância e a beleza dos valores humanos e mundanos para que possam seguir sobre seus próprios passos, algum dia.

Continue com o trabalho
parabéns

Anônimo disse...

Talvez ele quisesse passar-lhe que, não importa o que de errado fizer, as portas de sua casa sempre estarão abertas para você.
Isto, provavelmente, lhe traz segurança porque cometer erros é o que o ser humano mais faz. Talvez tenha a estória lhe tenha marcado porque assim nunca se perde o referencial de casa, sempre se tem um lugar para onde ir, não importa quão longe esteja.