24 abril, 2011

Crônica de um domingo de Páscoa

Tudo parecia afligi-lo. Nenhum lugar parecia seguro. Lá fora a ventania prenunciava uma forte tempestade. Das nuvens, aterradoramente escuras, raios caíam por detrás dos prédios e estrepitosos trovões atormentavam-no ao ponto do desespero. Não era apenas medo do temporal. Era medo de si mesmo. Era a estranha sensação de paralisia. De incapacidade de realizar as ações mais simples ou de decidir qualquer coisa.

A chuva começa a cair forte. Pingos pesados batem contra os vidros da janela e fazem um barulho típico. Tal era a força da chuva que agora ele mal via os prédios vizinhos, mas continuava ouvindo os trovões e vendo os clarões provocados pelos relâmpagos. Encolhido no sofá, pega um lápis e um papel na tentativa inútil de esquecer aquela sensação de horror. Tenta escrever qualquer coisa. Escreve o próprio nome, completo. Escreve o nome de sua mãe, completo. De seu pai, completo. De seus irmãos, completo. Começa a escrever o nome dela... Desiste. Risca todos os nomes. Nesse estado de perturbação pensa numa frase: coragem não é fazer o que todos temem fazer. Coragem é fazer, mesmo contra a vontade, o que tem que ser feito. Ele gosta da frase. Começa a repeti-la em voz alta. "Talvez consiga escrever uns versos com esse tema." Pensa. Esse desejo de criar algo o acalma. Melhor: faz com que ele ordene os pensamentos... mas por pouco tempo. Tudo volta a se misturar. Decide escutar música.

O CD termina e ele não se dá conta. Está absorto em pensamentos turvos. Debate-se contra ideias que lhe chegam ao cérebro em grandes e fortes vagas. Luta. Tem a sensação de se afogar nessas sugestões do desconhecido. Súbito, levanta-se. Vai até a estante. Procura algo para ler. Escolhe Apologia de Sócrates. Ele conhece o livro de cor. Sem saber por que, procura a passagem em que o filósofo comenta sobre o ato de morrer. Não encontra a passagem. Ele, então, lembra que Sócrates não achava a morte necessariamente um mal. Ela até poderia ser um bem. Talvez por isso o professor de Platão a tenha enfrentado com tanta coragem e altivez. “Você foi um tolo, Sócrates! Por que não fugiu quando teve a chance?” À pergunta retórica que ele faz, vem uma resposta assombrosa que lhe é soprada nos ouvidos: “Porque ele ficaria como tu estás agora”. Um arrepio na espinha o assusta. Um intenso frio na barriga faz com que ele arremesse o livro na parede. Recua assustado.

Há dias, muitos dias, que está sozinho. Seus poucos contatos com o mundo são através das redes sociais: a colega de Zurique. O médico de Paris. A investidora de Londres. O economista de Floripa. Nenhum desses, ele conhece pessoalmente. Nenhum deles poderia lhe dar o conforto que seu coração reclama. Ele está só.

A solidão é enganadora. Ela se apresenta com falsas promessas e velhos disfarces. Promete liberdade e privacidade. Convence com seu jeito gentio e sorriso amistoso os infelizes que não sabem exatamente porque estão assim. Depois de seduzi-los, a solidão se revela em toda a sua feiúra e sordidez. Ele está exilado de sua própria história.

A chuva finalmente parou. No mundo exterior àquele apartamento a vida parece voltar ao seu ritmo normal. Em pouco tempo, nem mesmo as poças ou os galhos caídos devido à ventania, ou mesmo o ar gelado do fim de tarde serão suficientes para lembrar àqueles transeuntes que ele vê de sua janela, que há tão pouco tempo o mundo parecia desabar por causa da chuva.

Ele sente inveja das pessoas que esquecem tão facilmente de suas dores e tragédias. No seu mundo interior, ali, numa região em que alguns chamam de alma e outros de coração, a tempestade continua com seus ventos, raios, trovões, e horror.

Volta à estante. Desiste dos livros. Senta na escrivaninha. Pega a caneta e uma folha de papel. Decide compor versos. Precisa de alguma forma expelir os sentimentos que o atormentam. Não conhece técnica de poesia. Apenas gosta de ler poemas. Escreve o primeiro verso: “A Desgraça que me acompanha...” Não lembra de nenhum poema que tenha a desgraça como tema. Recorda-se que sua mãe detesta essa palavra. Decide mudar o verso, mas não consegue. A palavra desgraça começa voar pela sala. Ele a vê e fica assustado. Fecha os olhos. E começa a ouvir: “A desgraça que me acompanha...” Não tem jeito. Começa a escrever. As três primeiras estrofes ficam prontas:

A Desgraça que me acompanha,
Abrindo-me de vez todas as feridas.
Exibe-me como uma figura estranha,
À curiosidade dos convivas!

A Desgraça me toma pelo braço
E é a anfitriã desta festa macabra
E como uma psicopata, declara:
“Vejam-no! É o nosso astro!”

Jogado ao centro em andrajos
Exige que me ajoelhe e chore.
E com sarcasmo sugere: “foge!”
Enquanto me espeta com ígneos garfos

Empaca. Não sabe como terminar o poema. Não sabe sequer se o que vai acima é mesmo um poema. Tudo parece confuso e incerto. Ele só deseja acordar num mundo onde as coisas façam sentido. “É inútil. Esse mundo não existe.” Inicia mais uma estrofe: “O barulho aqui dentro me tortura..." Esse simples verso lhe causa dor física, embrulhando-o o estômago. Risca-o. O fenômeno do verso voando pela sala se repete, mas dessa vez ele vê e ouve tudo ao mesmo tempo. Tapa os ouvidos e fecha os olhos. A cabeça gira. Uma sensação de desmaio lhe acomete. Abre os olhos, pega a caneta e termina o poema como se ele estivesse alheio ao que escrevia. Como se não fosse ele a escrever.

O barulho aqui dentro me tortura
Choro e grito diante da Nefasta.
E quanto mais choro e grito, a Desgraça
Ri. “Eis a minha criatura.”

Há pouco o silêncio foi imposto
Meu corpo fustigado está inerme,
Enquanto sobre ele pequenos vermes
Refestelam-se como se eu estivesse morto.

Sente um alívio nervoso. Está esgotado mentalmente. Olha pela janela e percebe que as luzes dos postes, amarelas, estão acesas. As pessoas caminham. Algumas estão sozinhas, outras em grupo. Alguns casais conversam enquanto andam. Falam, possivelmente, sobre coisas banais, como as contas do mês, as peripécias dos filhos, as chatices do trabalho. Nenhuma daquelas pessoas está falando de sonhos e desejos, por isso parecem tranqüilas e felizes.

Decide descer e caminhar com elas.

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