25 janeiro, 2011

A carta de Genaro 1

Genaro estava sentado em sua cama com o olhar perdido nas grades da cela. Por dez anos ele estava encerrado naquele espaço desde a condenação... Não tivera direito à liberdade condicional e seus advogados, preocupados em demasia com clientes mais importantes e mais ricos, não se esforçaram o quanto podiam para que ele cumprisse a pena em regime semi-aberto.

A pena, no entanto, chegava ao fim. Genaro não sabia exatamente o que lhe aguardava do lado de fora. Havia, por decisão unilateral, perdido todo o contato e toda a proximidade que mantinha com amigos, família, filhos e mulher. Todos estavam vivos, e, possivelmente, com suas vidas refeitas depois daquela manhã chuvosa em que Genaro, por deliberação pessoal, cometera o crime inominável...

Nesse tempo todo de encarceramento, Genaro não recebeu uma visita sequer dos amigos, nem dos familiares. Apenas os advogados, em visitas rápidas e esporádicas, falavam com o detento.

Na cadeia, numa cela especial (única vantagem que o curso superior lhe ofereceu), dividida no início com mais três criminoso, ele se isolou.

Ficou anos num canto da cela. Contentou-se ou resignou-se a ocupar um espaço mínimo da prisão. Os prisioneiros se falavam pouco e Genaro menos ainda...Apenas lia. Lia e escrevia cartas.

Escreveu centenas delas. Só restou uma, porém. A última. As demais ele destruía um dia depois de escrevê-las. Mas a última carta, estranhamente, ele guardava havia um mês. Por diversas vezes tentou rasgá-la. Faltou-lhe coragem. Leu e releu o conteúdo daquelas linhas uma porção de vezes e mesmo tendo o impulso de modificar uma palavra, uma ideia ou refazer um parágrafo, não teve vontade ou ânimo para realizar as modificações.

Genaro estava com a carta na mão sentado na cama e com o olhar fixo nas grades da cela. Seus olhos cheio de lágrimas. Era um choro inutilmente contido. Genaro pensava na liberdade e não se sentia feliz...

A pior das penas não havia sido aquela que o Estado lhe impusera e que, após dez anos, ele cumprira. A pior das penas é quando o próprio sentenciado não se perdoa pelo crime que cometeu. Na cadeia, pelo menos, ele não teria que encontrar as pessoas cuja vida destruiu. Não teria que se deparar com as conseqüências dos seus atos. O presídio pelo menos era o ambiente destinado para expiar essas culpas... Lá fora, com a vida plena, com as chances que podia ter, Genaro se sentiria mal. Não se sentia merecedor da liberdade porque não se sentia livre. Ele não queria deixar a prisão porque reconhecia que o crime o acompanharia para sempre onde quer que fosse.

No corredor os passos do agente penitenciário se aproximavam da cela de Genaro. Havia no rosto desse carcereiro uma expressão fria. Cumpria o ritual de conduzir um prisioneiro à liberdade com a mesma fleuma que o conduzia a uma cela. Dizia com ar solene e pedante para o detento que chegava ou que saía: “Lá fora a prisão é só um pouco maior”. Uma bobagem sem tamanho, mas que dava àquele homem frio a sensação de ter dito algo original.

Chegou à cela de Genaro. Fazia dois anos que o prisioneiro não tinha companhia naquele cubículo sombrio. Encontrou-o deitado, na cama. As mãos espalmadas descansando sobre o peito, segurando um papel escrito. Seus olhos estavam abertos. O agente chamou o prisioneiro com uma voz firme e autoritária. Genaro não se mexeu. Parecia alheio a tudo. O carcereiro abriu a cela e constatou que Genaro estava morto. Havia no rosto do prisioneiro uma expressão serena, de quem tinha morrido feliz. De quem viu na morte a única liberdade que lhe poderia devolver a alegria. Genaro estava agora livre para não existir. Livre dos olhares acusadores. Livre do próprio remorso.

Os médicos da prisão investigaram a hipótese de envenenamento. Negativo. Assinaram o atestado de óbito que atestava a morte súbita.

Quando os parentes foram comunicados da morte de Genaro receberam a notícia com um pesar burocrático. Os filhos não se sentiam órfãos. A esposa, com a vida refeita, suspirou como se a notícia fosse antes um alívio que um fardo. Os amigos nem se lembravam mais dele...

2 comentários:

Alinne disse...

“Lá fora a prisão é só um pouco maior”. Muito interessante essa passagem, zé costa!
Mas vim lhe perguntar se não pretende comentar o plano de metas da educação, já que pelo que entendi você é professor. Achei que seria interessante esse tema abordado por alguém assim tão envolvido com ele... abraços

Anônimo disse...

Sim, chegara ao céu com o semblante sereno de quem veio de lugar algum, com destino ao nada. Mas São Pedro, já aguardando-o às portas do paraíso, perguntou-lhe o porquê da pressa. Genaro, sem entender, relembrou suas impressões cultivadas na cela: a solidão de seus dias, a falta de um olhar afetuoso dos seus familiares, a existência tão vazia que parecia um buraco a aumentar dentro dele mesmo... São Pedro, com um sorriso singelo, contou-lhe que, ao voltar os olhos ao solo, com a cabeça pesada de tanta tristeza, Genaro deixara de apreciar as flores do caminho e os olhares que permaneciam mudos aguardando um retorno dentre os pés que lhe passavam ao lado. São Pedro mostrou-lhe que, por entre as grades, a liberdade insistia em crescer a cada raio de sol que adentrava as celas escuras, a cada flor que crescia num buraquinho do concreto, a cada gesto de solidariedade que se podia notar mesmo entre os párias da sociedade... Genaro percebeu que não estava preso se não em seus próprios sentimentos. Percebeu que nenhuma parede ou muro poderia conter o poder de mudar sua vida, de fazer novos sonhos e, principalmente, de alcançá-los. Bateu-lhe, então, a pior das dores humanas: o arrependimento, a sensação de uma vida não vivida plenamente... Sentiu a mão de São Pedro tocar-lhe o ombro e, ao abrir os olhos, percebeu o guarda ao seu lado a sacudir de leve seu braço para despertá-lo. Depois daquele sonho, ou viagem, levantou-se diferente. Lavou o rosto e enchergou um brilho no olhar semelhante àquele dos dias de sua infância. Pôs-se a escrever cartas a todos os que conhecera na vida, ainda que rapidamente. Pediu desculpas, chorou, relembrou momentos engraçados, confessou seus sentimentos, falou da saudade que ardia o peito. Pensou nas muitas lições que queria compartilhar com os filhos e, de lápis na mão, escreveu lindas manhãs de domingo que gostaria de ter passado com aqueles a quem amava. Deixou todas as cartas num canto da cela e, covarde, não as enviou. Percebeu que, um dia, após a limpeza do lugar, elas haviam sumido, provavelmente jogadas fora por algum daqueles frios policiais que vistoreavam tudo vez ou outra, surrupiando bens de pouco valor presenteados pelos familiares. Não se importou com o sumiço das cartas, pois tinha a certeza de que indo ao lixo não teria que se decepcionar esperando por respostas que nunca viriam...
No fim de semana seguinte ao sumiço, um guarda o chamou para a área da visitação. Não era dia de visita e a mudança em sua rotina gerava um pequeno frio na barriga.
Diante de uma porta que ficava ao fim do corredor, o guarda que o acompanhava disse-lhe: "Não costumamos abrir excessões, mas tendo tanta gente dizendo a mesma coisa, fazendo vigília na porta do responsável pela prisão, o chefe acabou permitindo..." Permitindo o quê? Do que o guarda estaria falando? Nada fazia sentido ao Genaro... Quando a porta se abriu, lá estavam eles. Uma multidão de vinte pessoas, aproximadamente. Eram amigos, filhos, irmãos, ex-colegas de trabalhos... Com lágrima nos olhos, Genaro percebeu cada um com uma de suas cartas nas mãos. Naquele dia não precisou dizer mais nada. Os abraços falaram por si só. Continuaria preso por alguns anos, mas agora sentia sua alma voar pelo mundo. Já tinha planos para quando saísse da cadeia. E enquanto os dias passavam, entendia que estava livre preparando a vida que queria ter.
Genaro aprendeu que nunca houvera muros que o prendessem de fato, sua prisão sempre foi o coração pesado.
Muito tempo depois, Genaro, já velhinho, sentindo ainda suas mãos envolta pelas mãos joviais de seus netos, lembrando-se do tanto que viveu após ver-se vivo, mas sem vida na prisão,viu-se chegando novamente ao céu. Lá estava São Pedro, com o mesmo sorriso discreto. Genaro olhou-o como um amigo de infância e perguntou baixinho: "Para quê tanta chave, santo homem, se quando porta se fecha a vida insiste em abrir duas outras janelas?"
Flor da serra