30 janeiro, 2011

As aventuras chatas de Sammy

Ontem fui ao Pátio Brasil assistir a um filme com o meu filho mais velho, o bravo Estêvão. O filme era As aventuras de Sammy, ou algo assim. A história de uma tartaruguinha que se depara na sua busca por alguma coisa que o espectador não sabe exatamente o que é, com as agressões ao meio-ambiente feitas, é claro, por nós, os humanos. Aliás, os poucos humanos do bem no filme são os militantes verdes, aqueles que querem proteger o planeta e criticam o nosso consumismo. Eles disfarçam, mas a crítica que eles fazem é mesmo contra o capitalismo.

No filme há uma pesquisadora de bom coração, que salva animais marinhos do risco de extinção, e que na sua juventude foi uma hippie cheia de substâncias lisérgicas na cabeça, defensora de um mundo mais... pacífico, feliz, livre, legal, humano, essas coisas que todo mundo quer, entenderam?

O filme é tão politicamente correto que chega a ser chato. Não há uma piada que valha o ingresso. É tudo muito tchucotchuco, bonzinho e certinho; quem não presta somos nós, os humanos, com exceção dos militantes ecológicos que, na boa, não parecem ser muito humanos, não é?

As crianças, meu filho inclusive, perderam o interesse pelo filme rapidamente. No caso de Estêvão, ele pegou o meu celular e começou a tirar fotos, fazer vídeos, jogar e me perguntava a todo momento: "o filme acabou?" Prestei atenção nas outras crianças e a maioria depois de 15 minutos de iniciada a sessão já estavam entediadas.

Saímos da sala um pouco antes de acabar o filme e fomos numa loja - é assim que se chama? - próxima ao cinema e que tem vários brinquedos e vídeo-games. Foi muito mais divertido lá.

28 janeiro, 2011

A minha rua dos cataventos*

Aos meus filhos.



- Ei, meninos! Vamos aproveitar o tempo!

E brincar na rua dos cataventos.


- Papai, papai! Você tá vendo?

Choveu. Tá tudo molhado!

Olha aquele menino correndo

Olha o avô do Bernardo


- Vistam uma roupinha que o vento

que balança aquelas folhas,

está gelado e vocês tremendo...


(Fecho os olhos e nos meus pensamentos

Lembro da rua dos cataventos)


Infância no sítio.*

Aos meus filhos Estêvão e Timóteo


Quando eu era pequeno
Assim bem tenro
Eu tinha tantos sonhos
E fazia tantos planos...

Quando eu era menino
Assim bem franzino
Eu catava mangas no sítio
E esperava o nascer do sol

Hoje, homem feito, ou mal feito;
não tenho sonhos nem faço planos.
Os pés de manga morreram.
O sítio acabou.
E o alvorecer é só uma lembrança
De quando eu era pequeno,
De quando eu era menino,
De quando eu era criança.

* Poema escrito no dia 26 de janeiro de 2011.


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25 janeiro, 2011

Duas músicas, uma imagem e algumas metáforas.








A carta de Genaro 1

Genaro estava sentado em sua cama com o olhar perdido nas grades da cela. Por dez anos ele estava encerrado naquele espaço desde a condenação... Não tivera direito à liberdade condicional e seus advogados, preocupados em demasia com clientes mais importantes e mais ricos, não se esforçaram o quanto podiam para que ele cumprisse a pena em regime semi-aberto.

A pena, no entanto, chegava ao fim. Genaro não sabia exatamente o que lhe aguardava do lado de fora. Havia, por decisão unilateral, perdido todo o contato e toda a proximidade que mantinha com amigos, família, filhos e mulher. Todos estavam vivos, e, possivelmente, com suas vidas refeitas depois daquela manhã chuvosa em que Genaro, por deliberação pessoal, cometera o crime inominável...

Nesse tempo todo de encarceramento, Genaro não recebeu uma visita sequer dos amigos, nem dos familiares. Apenas os advogados, em visitas rápidas e esporádicas, falavam com o detento.

Na cadeia, numa cela especial (única vantagem que o curso superior lhe ofereceu), dividida no início com mais três criminoso, ele se isolou.

Ficou anos num canto da cela. Contentou-se ou resignou-se a ocupar um espaço mínimo da prisão. Os prisioneiros se falavam pouco e Genaro menos ainda...Apenas lia. Lia e escrevia cartas.

Escreveu centenas delas. Só restou uma, porém. A última. As demais ele destruía um dia depois de escrevê-las. Mas a última carta, estranhamente, ele guardava havia um mês. Por diversas vezes tentou rasgá-la. Faltou-lhe coragem. Leu e releu o conteúdo daquelas linhas uma porção de vezes e mesmo tendo o impulso de modificar uma palavra, uma ideia ou refazer um parágrafo, não teve vontade ou ânimo para realizar as modificações.

Genaro estava com a carta na mão sentado na cama e com o olhar fixo nas grades da cela. Seus olhos cheio de lágrimas. Era um choro inutilmente contido. Genaro pensava na liberdade e não se sentia feliz...

A pior das penas não havia sido aquela que o Estado lhe impusera e que, após dez anos, ele cumprira. A pior das penas é quando o próprio sentenciado não se perdoa pelo crime que cometeu. Na cadeia, pelo menos, ele não teria que encontrar as pessoas cuja vida destruiu. Não teria que se deparar com as conseqüências dos seus atos. O presídio pelo menos era o ambiente destinado para expiar essas culpas... Lá fora, com a vida plena, com as chances que podia ter, Genaro se sentiria mal. Não se sentia merecedor da liberdade porque não se sentia livre. Ele não queria deixar a prisão porque reconhecia que o crime o acompanharia para sempre onde quer que fosse.

No corredor os passos do agente penitenciário se aproximavam da cela de Genaro. Havia no rosto desse carcereiro uma expressão fria. Cumpria o ritual de conduzir um prisioneiro à liberdade com a mesma fleuma que o conduzia a uma cela. Dizia com ar solene e pedante para o detento que chegava ou que saía: “Lá fora a prisão é só um pouco maior”. Uma bobagem sem tamanho, mas que dava àquele homem frio a sensação de ter dito algo original.

Chegou à cela de Genaro. Fazia dois anos que o prisioneiro não tinha companhia naquele cubículo sombrio. Encontrou-o deitado, na cama. As mãos espalmadas descansando sobre o peito, segurando um papel escrito. Seus olhos estavam abertos. O agente chamou o prisioneiro com uma voz firme e autoritária. Genaro não se mexeu. Parecia alheio a tudo. O carcereiro abriu a cela e constatou que Genaro estava morto. Havia no rosto do prisioneiro uma expressão serena, de quem tinha morrido feliz. De quem viu na morte a única liberdade que lhe poderia devolver a alegria. Genaro estava agora livre para não existir. Livre dos olhares acusadores. Livre do próprio remorso.

Os médicos da prisão investigaram a hipótese de envenenamento. Negativo. Assinaram o atestado de óbito que atestava a morte súbita.

Quando os parentes foram comunicados da morte de Genaro receberam a notícia com um pesar burocrático. Os filhos não se sentiam órfãos. A esposa, com a vida refeita, suspirou como se a notícia fosse antes um alívio que um fardo. Os amigos nem se lembravam mais dele...

14 janeiro, 2011

As cheias...



"Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu"¹


Essa cenas gravadas pelo cinegrafista da TV Globo são o emblema de uma tragédia e a prova definitiva de que a solidariedade humana é capaz de atos heróicos. Quem conhece de perto as aflições de uma enchente, quem já presenciou a força das águas e a rapidez com que o rio sobe engolindo tudo que encontra pelo caminho, sentiu, ao presenciar essas cenas, uma emoção difícil de descrever.

Que Deus abençoe essas pessoas que salvaram essa pobre senhora da morte certa.


1- Manuel Bandeira, Evocação ao Recife.

03 janeiro, 2011

2011...


LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa