31 dezembro, 2010

Lula, acabou, tá?

Muito se saúda - com indisfarçável tom apologista - os oitos anos do Governo Lula. Muito se enaltece um presidente que, vindo do povo, conseguiu governar para essa gente simples que "nunca antes na história desse país" teve tantas conquistas materiais. Muito se diz que nenhum outro presidente repetirá o fenômeno que foi Luiz Inácio Lula da Silva. E eu digo: "ainda bem".

No último dia de seu governo, o presidente, não sei se intencionalmente, oferece a todos nós um símbolo do pouco apreço às Leis e às instituições democráticas. O governo acabou de anunciar que o terrorista e o assassino Cesare Batisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos, ficará no Brasil, livre, lépido e fagueiro. O governo italiano reagiu com indignação, mas isso é o que menos importa. O que importa é a decisão de um governo que viola um acordo de extradição, que ri da constituição e que faz pouco caso do regime democrático de um país aliado.

No último dia, Lula deixa como símbolo de seus oitos anos o apreço pelos assassinos e pelos corruptos.

Finalmente, muito se disse que a chegada de Lula ao poder em 2003, pela via democrática, era o derradeiro teste da nossa democracia. Não concordo. O verdadeiro teste para a democracia brasileira ocorrerá quando aqueles que se opõem ao PT vencerem as eleições presidenciais, e o PT tiver que passar o poder para os opositores. Se isso acontecer sem problemas ou crises, aí sim, nossa democracia se provará madura.

Se hoje o presidente que deixa o poder parece inconformado com isso, mesmo passando a faixa para a sua criatura eleitoral, o que não aconteceria caso o vencedor das eleições presidenciais fosse o candidato José Serra?

Do próximo governo não espero muita coisa. A única certeza é que os anos de bonança se foram. Não teremos mais um presidente inimputável que possa dizer as maiores tolices e grosserias e todo mundo achar engraçado.

Lula vai embora hoje, não tem jeito. Mas o seu legado de crimes contra a constituição, o decoro e à verdade ainda permancerá no mínimo por mais 4 anos.

24 dezembro, 2010

Feliz Natal





Timóteo, que pela graça de Deus nasceu forte como um touro e bravo como um soldado, tem o sorriso mais encantador do mundo. Mesmo sendo tão tenro, é capaz com um grito de contentamento e com um riso maroto desmontar sem dificuldade todo o sistema de defesa de um pai que se esforça para parecer bravo e forte...

Timóteo é branco como uma macaxeira. Tem os olhos escuros, vivos, e como quem tem pressa, já fala palavras como bola, alô e mamãe. Mas ele também é briguento e, como o irmão, resoluto naquilo que quer. Chora e se contorce caso se queira impedi-lo de pegar algo ou de ir para algum lugar perigoso da casa. Tenta-se, em vão, ludibriá-lo com alguma distração. Ele, esperto, finge ludibriar-se para baixarmos a guarda e assim, finalmente, ter o que desejava ou chegar aonde queria. Assim é Timóteo, expert na arte do ludíbrio...

Obrigado, meu Senhor, pelo sorriso de Timóteo e pelo abraço de Estêvão. Eu, que tão pouco mereço essas graças, agradeço-vos em oração.

Feliz Natal!!!

Em janeiro de 2008, escrevi:

Estêvão está, pela primeira vez, sob os meu exclusivos cuidados. Temo que ao fim, quem precise de cuidados seja eu. Já dei a papinha dele e nessa operação consegui sujar a cadeirinha, a roupa - minha e dele - o chão, até as cortinas! O que sobrou, ele comeu.

De reprente ele começou a querer braço e a choramingar de uma maneira irritante. Sem alternativa, aquiesci ao seu choramingado, e para minha surpresa, em pouco tempo ele desmaiava... de sono.


Dormiu 1 hora. Essa é a média dele, seja de dia, à tarde ou de madrugada.

Acordou meio chato, acho que todos acordam um tanto mal humorados. Passeei com ele. E ele ficou sério. Parecia não querer papo. E olhe que me esforcei: fiz besourinho, voz de imbecil, ajoelhei-me, mostrei gato, cachorro, passarinho... Nada o demovia da atitude solene de observar ao redor sem qualquer demonstração de satisfação.


Ao final do passeio ele começou a esboçar um protesto. Voltei para casa. Tentei dar maçã - sempre acho que quando ele chora ou fica chato só pode ser duas coisas: bumbum sujo ou fome. A primeira hipótese eu tinha descartado, pois acabara de trocar a fralda dele. A segunda, pensei resolver com a maçã RED, mas ela estava intragável e, claro, ele não comeu. Apelei para a ameixa vermelha, deu certo. Ele comeu duas.


Parou de chorar e começou a mexer nos meus livros. A prateleira mais baixa já foi dessarumada, todos os livros e revistas no chão.... "Não Estêvão! Não pode ras..."


preciso ir.

18 dezembro, 2010

Música do fim de semana com poesia e pintura

Uma noite em Paris, Vincent Van Gogh




Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

10 dezembro, 2010

música do fim de semana com poesia

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A música acima faz parte da trilha do filme A dupla vida de Verônica, do diretor Kieslowski. Ela foi composta por Zbigniew Preisner. Espero que apreciem.

Alberto Caeiro
XXVIII - Li Hoje
Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.