30 novembro, 2010

A Canção de Maria

Que é de ti melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida dos meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.

Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?

Clavadel, Suíça, 1913.

Para quem não sabe, o que certamente não é muita gente, o poeta Manuel Bandeira passou cinco anos, de 1913 a 1918, internado no hospício de Clavadel, na Suiça, como parte de um tratamento contra a tuberculose, diagnosticada anos antes, quando o jovem Manuel era um estudante de engenharia no Rio de Janeiro.

Do período suíço, há produções poéticas belíssimas, na minha opinião, deixo claro. O poema Canção de Maria, lido agora com essas informações, tem ou não tem um sentido diferente? Dessa fase há também o encantador Alumbramento que você pode conferir aqui.

23 novembro, 2010

A rua dos cataventos...

Amanhã faço 34 anos.

Abaixo, deixo alguns versos de Quintana e uma música para eu mesmo ler e ouvir depois, e depois, e depois...

A Rua dos Cataventos (VIII) (Recordo Ainda)

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galhardia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!
(Mario Quintana)



20 novembro, 2010

Músicas do fim de semana
















Marina de La Riva é uma dessas cantoras que, seja pela voz, pelo repertório ou, como posso dizer... pela plástica, deveria ser muito mais apreciada do que é.

Quem porventura chegar a esta página e ignorar o talento dessa moça, não há mais desculpas. Escutem, vejam e me digam depois se não estou certo.




09 novembro, 2010

Editorial do Estadão

Vejam o título do editorial do Estadão e depois leiam o post abaixo.

“Novo fiasco do Enem”:

Se havia alguma dúvida sobre a capacidade do Ministério da Educação (MEC) de recuperar a imagem do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e evitar que sua desmoralização comprometesse todo o sistema de avaliação escolar, ela foi desfeita nesse fim de semana com a prova aplicada a cerca de 3,4 milhões de estudantes. Além de avaliar a qualidade do ensino médio, o Enem é usado como processo seletivo para muitas instituições públicas de ensino superior - principalmente as universidades federais.

Dessa vez os problemas decorreram de falhas de montagem de um dos cadernos da prova, o que levou os estudantes a se deparar com textos repetitivos e falta de questões. Além disso, os cartões de resposta foram impressos de forma invertida - fato que não foi comunicado à maioria dos candidatos. No sábado, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o mesmo que fracassou na organização do Enem de 2009, divulgou que quem foi induzido a erro, no preenchimento do cartão, poderá solicitar que a prova seja corrigida “ao contrário”. Isso dá a medida da inépcia administrativa do MEC.

Por um balanço extraoficial, os problemas ocorridos com o Enem envolveram 20 mil provas. Mas, segundo o reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Souza Jr., o número de provas impressas com falhas seria de 30 mil. A instituição foi encarregada, juntamente com a Fundação Cesgranrio, de preparar as questões.

Embora as autoridades educacionais tenham afirmado que nenhum aluno será prejudicado, nem o Inep nem o MEC sabem ainda qual é a extensão das falhas ocorridas e de que modo elas poderão ser corrigidas. A aplicação da prova foi classificada como um “desastre” pela OAB. O Ministério Público Federal anunciou que poderá ingressar com ação judicial pedindo a anulação do exame. A Defensoria Pública da União anunciou que tomará iniciativa semelhante. No Ceará, a Justiça Federal concedeu liminar determinando a suspensão imediata do Enem. E a Associação Nacional das Instituições Federais de Ensino Superior reconheceu que a insegurança jurídica acarretará para as universidades problemas ainda mais graves do que os criados pelo Enem de 2009.

No ano passado, os problemas começaram quando se constatou que o MEC não dispunha de infraestrutura adequada para fazer inscrições pela internet. Em seguida, o Inep determinou que vários estudantes deveriam prestar o exame em colégios situados a mais de 300 quilômetros das escolas em que estavam matriculados. Depois, a prova vazou dois dias antes de sua realização, deixando claro que as autoridades educacionais não haviam tomado as medidas de segurança necessárias. Isso as obrigou a preparar um novo teste às pressas, a um custo superior a R$ 30 milhões, e aplicá-lo dois meses após a data prevista, o que desorganizou o calendário das universidades. Na sequência de confusões, constatou-se que várias questões da nova prova tinham viés ideológico. E, no dia em que ela foi aplicada, o MEC divulgou o gabarito errado.

Em 2010, as dificuldades começaram com falhas de logística e amadorismo no planejamento, o que levou à substituição do presidente do Inep. Em seguida, descobriu-se que os dados pessoais dos candidatos às três últimas edições do Enem tinham vazado. Com isso, informações que deveriam ser mantidas em sigilo foram expostas no site do Inep com acesso livre. Depois o MEC se atrapalhou na escolha dos órgãos responsáveis pela formulação das questões, o que acabou criando problemas para a licitação da gráfica e atrasando a contratação de cerca de 300 mil pessoas, entre coordenadores, aplicadores e profissionais encarregados da correção.

Esse é o quadro, descrito com o máximo de objetividade, da desmoralização do Enem. Mas o principal responsável por ele não parece preocupado. Muito pelo contrário. De fato, o presidente do Inep, José Joaquim Soares Neto, dizendo-se “orgulhoso” pela aplicação do Enem, considera que “não houve problemas graves”.

Apreciação sobre a qual os alunos prejudicados teriam muito a opinar…

07 novembro, 2010

O novo fiasco do ENEM

Desde que o MEC decidiu divulgar um ranking das escolas de acordo com o desempenho dos alunos nas provas do ENEM, esse ranking vem sendo utilizado como propaganda pelas escolas que obtém as melhores colocações.

Embora o próprio MEC e especialitas relativizem esse ranking, as escolas não se pejam de exibir seus resultados como um selo de qualidade das suas práticas pedagógicas.

Desde 2009, quando o ministro Fernando Hadad decidiu inovar e transformar o ENEM numa prova que poderia dar acesso às universidades sem a necessidade do vestibular, esse exame se tornou uma dor de cabeça para alunos e pais que vêm sendo desrespeitados pela incompetência do MEC e do INEP, responsáveis pelas provas.

Ano passado o exame precisou ser adiado porque as provas tiveram seus sigilos violados. No início desse ano informações pessoais dos candidatos que pleiteavam uma vaga nas universidades ficaram expostas na internet à mercê de golpistas e estelionatários. Ontem, no primeiro dia de prova, os cartões-resposta da prova de Ciências Humanas e Ciências da Natureza estavam invertidos, causando transtorno e confusão nos candidatos quando eles passavam as respostas da prova para o gabarito. O pior é que ninguém do MEC ou do INEP se deu conta do erro, e, quando perceberam, limitaram-se a dizer aos alunos que ignorassem o que estava escrito no cartão-resposta.

Hoje, o presidente do INEP, o professor Joaquim Jose Soares Neto, bastante nervoso, tentou minimizar os problemas dizendo que foram "incidentes" normais num exame de magnitude nacional. Chegou a dizer que a quantidade de problemas que ocorreram na prova de 2010 foi bem pequena se levarmos em conta a quantidade de inscrições.

Não quero, por enquanto, tratar da qualidade das questões, que foram, na média, sofríveis; mas apenas dizer o seguinte: como um exame com tantos problemas e tantas falhas, com questões que fariam muita gente rir, pode se tornar um parâmetro para a qualidade das escolas do ensino médio no Brasil?

Acabei de ler na internet que o MEC ameaçou pelo twiter estudantes que estão denegrindo o exame. É um acinte.

O ENEM, infelizmente, foi desmoralizado pelo ministro Hadad e pelo INEP.

04 novembro, 2010

Vida a retalho, é vida?


-Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?

- Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.

- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é a cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?

- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

- Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite:
fora da ponte e da vida

Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto.

01 novembro, 2010

Eleições aqui no DF

Aqui no DF as opções eram, para mim, impossíveis!!! Entre Roriz, na sua versão Dilma, e Agnelo Queiroz, do PT, o senso de decoro me impedia de escolher qualquer um dos dois. Tanto no primeiro quanto no segundo turno anulei meu voto.

Engana-se, penso, quem acredita que a política no DF ficará mais ética com o vitória do PT. E há duas razões simples para o meu pessimismo. Agnelo venceu cooptando líderes que até outro dia gravitavam na órbita do Roriz. Esse grupo está mais do que preparado para fazer no DF o que sempre fez, entendem? A outra razão é que o PT, em matéria de corrupção, é insuperável!!!!

Penso que o partido dos trabalhadores criou, a partir de 2003, um valor: se o PT rouba, pelo menos ajuda o povo, e assim o roubo é perdoado.

Pobre do DF!!! Pobre do Brasil!!!


Para o dia de amanhã...


DOÍDA ALEGRIA

Durante anos

foi a minha constante companhia

aonde eu estava

ele vinha

e ronronando

em meu colo se acolhia

Até que um dia...

Faz anos já que a casa está vazia

Mas eis que

inesperado

ele de novo chega

e se deita ao meu lado

Não me atrevo

a olhá-lo

pois é melhor não vê-lo

que não vê-lo.

Nada pergunto

apenas vivo

a doída ilusão

de tê-lo junto.


Ferreira Gullar; Em alguma parte alguma.