03 setembro, 2010

"Cala a boca, Zé Paulo!" Ou: Contra o oposto da verdade, só mesmo o oposto da mentira!






O tema desse post é muito delicado. Peço desculpas antecipadas se o texto ficar muito longo. Pela primeira vez, desde o ano 2000, quando comecei a dar aula para adolescentes no nível fundamental e médio da escola básica, fui advertido por conta das minhas opiniões em sala de aula.


A advertência veio revestida com um ar bonachão, de quem procurava dar um conselho, não um pito. Mas se as palavras eram polidas, se as considerações sobre o meu trabalho em sala, elogiosas; se a afirmação de que para a escola eu era uma peça chave, as intenções subterrâneas de toda aquela atenção e todo aquele discurso eram inequívocas: "Cala a boca, Zé!" "Evite, em ano eleitoral, posicionar-se politicamente."

Quem me conhece sabe que tenho ojeriza de transformar a sala de aula em palanque. Quem me conhece sabe que tenho um compromisso sagrado com a informação correta, fundamentada e verificável. Quem me conhece sabe que não recorro à mistificação nem a deturpação de números ou de fatos. Quem me conhece sabe que diante do erro, da falsidade, do engano, eu estou e sempre estarei pronto para corrigir os enganos, os erros, e combater, com o oposto da mentira e sem meias palavras, o oposto da verdade.

Nunca exigi dos meus alunos, nas avaliações, que reproduzissem aquilo que eu penso. Minhas avaliações são públicas e estão à disposição de quem quer que seja, e desafio qualquer um a encontrar nelas o menor indício de doutrinação ideológica. Jogaram na minha cara uma acusação que cairia como uma luva nas mãos deles.

Jamais reuni alunos para protestar contra qualquer governo. Jamais dei nota a alunos que reproduzissem exatamente as minhas crenças. Jamais constrangi, fingindo estar brincando, um aluno, porque ele não votaria no candidato de minha preferência. Jamais me utilizei do ludíbrio, da informação truncada, inexata, para dar ares de seriedade a argumentos que eram apenas empulhação.

Fui acusado, vejam só, de em sala de aula mostrar apenas o lado negativo do governo Lula. Não estou em sala de aula para mostrar o lado negativo ou positivo de qualquer governo. Acaso pensam eles que, eventualmente, os alunos possam ser influenciados por mim, e assim sendo, decidirem a eleição? Acaso pensam eles que o meu discurso em sala seja assim tão irresistível?

Meu compromisso com os alunos é com a verdade. Se as privatizações ocorridas na década de 1990 foram boas para o país, se a diminuição do tamanho do Estado brasileiro na economia trouxe uma série de ganhos, os números provam, vou dizer o contrário? Se em 1994 o Brasil debelou a inflação criando as condições para o crescimento econômico da década seguinte e implantando no país práticas fiscais responsáveis que se tornaram o sustentáculo da estabilidade, hoje tão decantada, e eu afirmo que aqueles que na época estavam na oposição criticaram o Plano Real e entraram na Justiça contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, vou dizer o contrário ou que isso não aconteceu?

Se o proer, programa que reestruturou o sistema financeiro brasileiro carcomido nas suas bases por uma cultura hiper-inflacionária, foi na época tachado por aqueles que estão hoje no poder de “programa para socorrer banqueiros”, provou-se um programa eficaz e que trouxe solidez ao nosso sistema financeiro, elogiado em 2009, pelo próprio presidente Lula, convencido, agora, de que o programa não era ruim, como ele e os petistas afirmavam, eu estaria sendo parcial ao trazer para os alunos essas informações? É ser parcial não deturpar números? É parcial ser preciso? Afinal, é parcial dizer a verdade?

O que incomoda nas minhas palavras é que elas são irrefutáveis! Do contrário, não me pediriam para que eu me calasse. Claro que o pedido não foi feito assim, na lata. Foi um pedido sinuoso, escorregadio, mas bastante claro nas suas intenções. Fui "avisado", "alertado" que alguns alunos e alguns pais questionaram a escola porque, segundo eles, eu sou muito contundente na crítica que faço ao governo Lula. Que não falo das coisas positivas do governo que, afinal, tem 12.587 % de aprovação popular. Fui alertado que esses pais zelosos enviaram matérias de jornal dizendo do perigo que é a doutrinação ideológica em sala de aula. Pedi, então, uma reunião com os alunos que se sentiam incomodados e com os pais desses alunos. Queria debater com eles de forma franca e provar que tais acusações se dirigidas a mim eram de uma injustiça atroz. Não fui atendido.

Percebam, leitores, que se eu exaltasse o Governo Lula e desancasse o Governo Fernando Henrique Cardoso eu não estaria doutrinando ninguém, mas expondo minhas opiniões. Percebam, leitores, que se de forma cínica eu, para provar minha isenção, falasse mal do governo Lula, mas também falasse bem, eu não estaria doutrinando ninguém. Mas, como ousei, em sala de aula, corrigir informações que são fruto da picaretagem, como argumentei com provas e desmascarei as mentiras contadas pelo governo, exaltadas nas propagandas oficiais e divulgada pela militância que se disfarça de professores gente boa, fui advertido do perigo desta minha postura. Desafio que qualquer um desminta o conteúdo das minhas informações. Aceito ser advertido porque menti ou enganei meus alunos, mas repilo qualquer advertência ou ameaça porque cumpri o meu papel de professor que é o de levar a informação correta, precisa e, acima de tudo, verdadeira para os alunos.

Eu sei que incomodo algumas pessoas. Eu sei que tem muita gente que não gosta de mim. Eu sei que sou visto como o chato, o presunçoso, o arrogante. Mas tudo isso é administrável para eles. O que eles não toleram em mim, o que para eles é inaceitável, é que eu pense por mim mesmo. Que eu não siga a manada. Que eu tenha a ousadia de confrontar os mitos e os consensos ocos. Tivessem o espírito democrático que julgam ter deveriam aplaudir a minha postura, afinal, os alunos teriam a chance do contraditório, mas não! Querem que suas crenças e seus discursos não sejam contestados, confrontados com números e fatos! Querem ouvir no final da missa de mistificações, o amém da assembleia!

O que vem incomodando é que o discurso deles em sala começa a ser confrontado por alguns alunos. Quando eles vêm dizer que as privatizações foram uma negociata, que a Vale do Rio Doce foi vendida a preço de banana, os alunos perguntam se a Vale, hoje, é uma empresa mais pujante do que era quando estatal. Quando eles dizem que o Governo FHC tentou privatizar a Petrobrás, os alunos perguntam se na PEC de 1997, o projeto não era acabar com o monopólio na exploração do petróleo e abrir o capital da empresa, permitindo, por exemplo, que dez anos depois o país alcançasse a autossuficência na produção de petróleo.

Ao sub-reptício, “cala a boca, Zé Paulo!” Reajo: “Não, não vou calar! Vou sempre combater o oposto da verdade com o oposto da mentira!”

Um comentário:

Thiago Henrique Santos disse...

Rapaz, te entendo completamente.

Vivemos nessa sociedade protecionista, que morre de medo de a gente destruir a ilusão das criancinhas (e de todas as outras faixas etárias).

Eu não dou aulas (ainda), estou aqui terminando meu mestrado. Mas o próprio tema dele, que questiona os sistemas tradicionais de peer-review, e o papel que se acostumou dar à divulgação científica ou a apologia que faz ao uso da filosofia e história das ciências na comunicação da ciência, é o suficiente pra fazer com que uma série de meus "colegas" se desespere.

Daí que vivo tomando esse tipo de cala a boca sutil. Vivo sendo lembrado que é preciso ser cuidadoso pra não ofender fulano ou sicrano. Isso, veja você, em uma área que se orgulha em dizer que gosta de ser questionada, provocada.

Mas concordo com sua posição. Temos que ser quem somos, ainda que isso incomode a maioria ou desconstrua o mundo maravilhoso das criancinhas.

Se não fosse assim, boa parte dos nossos consagrados gênios não seriam eles próprios classificados como tais.

É como eu sempre costumo dizer, estivesse vivo hoje, Galileu coitado, jamais seria publicado na Nature, ou Kepler na Science, mas em suas respectivas épocas, permaneceram eles mesmo e são lembrado até hoje por isso.

Então, vamos em frente. É sempre preciso ter um Leming apontando pro lado oposto do precipício. Com sorte salvamos um ou dois :)