29 agosto, 2010

A adesão é o primeiro passo para a servidão

Um dos valores mais caros ao trabalho intelectual é a clareza e a objetividade sustentada em fatos que, aé podem ter interpretações distintas, mas que não podem ser distorcidos. Se a um político esses valores, embora desejáveis, não são imperiosos; a um intelectual eles distinguem o sério do fanfarrão.


Que o presidente Lula recorra nos palanques país afora à mentira com pertinaz e assombrosa desenvoltura, que rebaixe as instituições e achincalhe com despudor a oposição, é sórdido, mas está na natureza do líder e na de seu partido. Agora, que a imprensa e os intelectuais nas universidades se calem diante de evidências gritantes da deterioração da democracia, dos direitos e das instituições, sem enxergar ou fingindo não ver o perigo que isso - a persistir o quadro de terra arrasada que áulicos do petismo estão construindo no país pode levar à nossa sociedade - é aviltante!


É espantoso que a violação do sigilo fiscal de membros da oposição, apenas para ficar no último escândalo, não tenha provocado a reação que uma ilegalidade desse tamanho provocaria em democracias maduras e levadas a sério. Essa lassidão da nossa Intelligentsia, a frouxidão com que a imprensa – com raras exceções – trata do assunto, relegando esse imbróglio a uma mera troca de acusações como se não houvesse o fato da violação, como se os documentos com dados obtidos pela ação ilegal de funcionários do Estado não tivesse circulado pelas mãos daqueles que participam da campanha governista, são indícios que deveriam preocupar a todos que têm a democracia como um valor inegociável.


O país passa, e não é de hoje, por um momento em que os valores liberais e democráticos (aquilo que fez a grandeza da civilização ocidental), estão sendo preteridos por outros valores que têm história e que, em maior ou menor grau, seqüestraram os indivíduos, agrilhoaram a intelectualidade e levaram o mundo a uma disputa entre os amigos do povo (eles), e os inimigos do povo (os outros).


Leio assombrado o embevecimento de colunistas, jornalistas, empresários e intelectuais com o atual governo. Os índices de popularidade e aprovação do presidente, que fariam Sadam Hussein, ditador iraquiano, morrer de inveja, parecem ter criado para esses grupos a convicção de que um líder ou o seu governo com tamanha aprovação pode tudo, até mesmo violar os direitos mais fundamentais que protegem o cidadão. Estaríamos voltando à Era da Experimentação, que marcou os anos 20 e 30 do século passado, e que fez, naquela época, muita gente saudar como novidades alvissareiras movimentos como o comunismo soviético, o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão? Temo que sim. E temo, sobretudo, porque sei que os desdobramentos dessa era de experimentação foram desastrosos para a nossa civilização.


O poeta polonês, Czeslaw Milosz, que viveu sob o regime nazista e comunista na Polônia, escreveu um conjunto de ensaios que revela a natureza adesista dos intelectuais aos regimes totalitários. O livro, Mente Cativa, escrito na década de 1950, é ao mesmo tempo uma advertência e um diagnóstico de como a intelectualidade pode ser seduzida pelo “poder”. Não obstante, todos os que aderiram, seja por convicção, seja por interesse, acabaram em desgraça, porque o regime que decidiram abraçar estava alicerçado em valores que exigiam deles, em todos os momentos, obediência cega. A menor tentativa de ser livre, de pensar por si mesmo, de destoar das determinações da cúpula governamental, transformava os adesistas em inimigos do povo.


Analisem, senhores intelectuais, os discursos do presidente Lula em que os adversários políticos são chamados de picaretas, revelando o desprezo do presidente pela oposição e, sendo honestos consigo mesmos, digam se tais palavras não revelam a natureza autoritária e fascista do nosso presidente. Reflitam se a elaboração de dossiês, se a violação dos sigilos fiscais, telefônicos e bancários de todos aqueles que são considerados empecilhos ao projeto de poder, não se constituem uma prática totalitária. Digam, finalmente, se a satanização da oposição não é a prova indelével da matriz ideológica fascista do presidente, de sua candidata e do seu partido.


Em 3 de outubro, nas eleições gerais, é possível que o projeto que ameaça as liberdades e os valores do liberalismo vença da mesma forma que, em 1933, venceu o projeto que levou a Alemanha à ruína. É possível que daqui a quatro anos, não existam mais vozes dissonantes, ou oposição política, ou liberdade de expressão, ou garantias aos direitos individuais, enfim, tudo o que caracteriza uma democracia. É possível que daqui a quatro anos aqueles que por convicção ou interesse aderiram ou venham a aderir ao governo, refestelem-se nas cátedras, nos gabinetes, nas redações, nas repartições como arautos de um novo Brasil. Mas, se isso acontecer, acreditem, a adesão precisará ser total, pois do contrário, inevitavelmente, eles cairão em desgraça.

Para terminar, lembro que a adesão vergonhosa de gente que tem por dever de ofício ser livre, independente e séria, é o primeiro passo para a servidão.

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