19 junho, 2010

Falemos da África, mas sem esconder nada!

Chegou à escola onde trabalho uma solicitação da secretaria de educação do GDF perguntando o que a instituição de ensino fez nos últimos cinco anos para promover a cultura africana no ambiente escolar. No pedido, a secretaria deu um prazo de 30 dias para a escola fornecer as informações.

Como professor de história fui impelido pela direção a escrever um relatório a fim de atender a solicitação exigida pela secretaria de educação do GDF. Com bastante enfado, escrevi um pequeno relatório onde expus o conteúdo de história relacionado ao que se chama por aí de "cultura afro-brasileira".

Meus alunos aprendem que Zumbi dos Palmares, elevado à condição de herói pelo Movimento Negro, tinha escravos, e que Palmares, o quilombo, nunca foi um local onde reinavam a paz, a justiça e a igualdade.

Meus alunos aprendem que a escravidão moderna não foi obra de europeus maus e ganaciosos que aprisionavam africanos bons que corriam lépidos e fagueiros num paraíso onde, segundo o poeta, "a terra esposa a luz". Aprendem que o instituto da escravidão era bastante difundido no continente africano bem antes da chegada das naus portuguesas, holandesas e britânicas. Aprendem que muitos reis africanos aprisionavam seu povo para trocá-lo por mercadorias negociadas por traficantes europeus.

Explico que o período denominado de neocolonialismo, se provocou a exploração das riquezas do continenente africano pelas potências industriais europeias, também levou uma série de avanços para o continente. Se esses avanços não chegavam aos nativos, hoje, os descendentes desses mesmos nativos usufruem desses avanços. Dificilmente as populações africanas teriam como usufruir de conhecimentos médicos avançados, ou acesso a meios de transporte modernos, não fosse o período de dominação europeia. Não devemos esquecer também que os genocídios na África foram mais constantes após a descolonização do continente que durante a vigência do domínio colonial europeu.

A lei que obriga as escolas a falarem sobre a cultura africana quer, na verdade, esconder essas verdades incovenientes.

13 junho, 2010

Ferreira Gullar e as ilusões de esquerda

Em entrevista à revista cultural Dicta&Contradicta, o poeta Ferreira Gullar, prêmio Camões deste ano, fala de seu processo de criação e de seus anos de engajamento – e desilusão – na política



"Marx está certo ao criticar o capitalismo do século XIX. Quando propõe a sociedade futura, está errado"



Oscar Cabral, foto.

Engajamento

Quando escrevi romances de cordel na época da ditadura, queria fazer mais subversão do que arte. Estava usando a minha poesia para fazer política. A preocupação principal era levar as pessoas a ter consciência dos problemas sociais, como a reforma agrária, as favelas, a desigualdade. Não havia uma preocupação estética. (...) Lembro-me de quando fomos, com o Centro Popular de Cultura, à favela da Praia do Pinto, para fazer um espetáculo, um auto antiamericano, anti-imperialista. Quando chegamos lá, todos os adultos foram embora, ficaram só as crianças ouvindo o Vianinha (o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho) berrar contra o imperialismo. Olhava aquilo e ficava pensando: "O que é isso? Pregando o anti-imperialismo para menino de 5 anos na favela da Praia do Pinto?". Isso foi a um mês do golpe de 1964. Comecei a perceber que a ideia de fazer arte com baixa qualidade só para atingir o povo era falsa.

Enganos da esquerda

Vivi a experiência da União Soviética, em Moscou, e depois vivi o drama e a derrota do (presidente) Allende no Chile – eu estava lá quando ele foi derrubado. Tudo isso me levou a ter uma visão crítica em relação à revolução, em relação às coisas em que nós acreditávamos, aos procedimentos que adotávamos. Aprendi que a coisa era muito mais complexa do que imaginávamos. Sonhávamos em chegar ao poder – e então chegamos ao poder no Chile, com Salvador Allende. E aí? O que aconteceu? Houve uma grande confusão: as esquerdas não se entendiam. Os radicais queriam obrigar Allende a fazer o que não podia ser feito – o que ele sabia que não podia fazer, porque seria derrubado. No fim, foi a própria esquerda que causou a queda de Allende. Aquilo me deixou arrasado. Sacrifiquei minha vida, meus filhos, para me meter numa confusão dessas.

Comunismo

Um professor meu de economia política marxista lá em Moscou me disse o seguinte: "Você sabe quanto tempo levou para que em Paris houvesse, todo dia, às 8 da manhã, croissant para todo mundo, leite para todo mundo, pão para todo mundo, café para todo mundo, e tudo saindo na hora? Alguns séculos". A revolução desmonta uma coisa que os séculos criaram. Agora, o Partido resolve, e não vai ter café, não vai ter pão, leite, nada. Resultado? Trinta anos de fome na União Soviética. Você desmonta a vida! E havia outra porção de erros: afirmavam que quem faz a riqueza é o trabalhador. Mentira! O trabalhador também faz isso, mas, se não existe um Henry Ford, não existe a fábrica de automóvel e não vai ter emprego para você. Nem todo mundo pode ser Bill Gates, nem todo mundo pode inventar uma coisa. Marx está correto quando critica o capitalismo selvagem do século XIX. Quando propõe a sociedade futura, está completamente errado.