23 maio, 2010

Romance XXXVIII OU DO EMBUÇADO*






Homem ou mulher? Quem soube?
Tinha o chapéu desabado.
A capa embrulhava-o todo:
Era o Embuçado.

Fidalgo? Escravo? Quem era?
De quem trazia o recado?
Foi no quintal? Foi no muro?
Mas de que lado?

Passou por aquela ponte?
Entrou naquele sobrado?
Vinha de perto ou de longe?
Era o Embuçado.

Trazia chaves pendentes?
Bateu com o punho apressado?
Viu a dona com o menino?
Ficou calado?

A casa não era aquela?
Notou que estava enganado?
Ficou chorando o menino?
Era o Embuçado.

"Fugi, fugi, que vem tropa,
que sereis preso e enforcado..."
Isso foi tudo o que disse
o mascarado?

Subiu por aquele morro?
Entrou naquele valado?
Desapareceu na fonte?
Era o Embuçado.

Homem ou mulher? Quem soube?
Veio por si? Foi mandado?
A que horas foi? De que noite?
Visto ou sonhado?

Era a Morte, que corria?
Era o Amor, com seu cuidado?
Era o Amigo? Era o Inimigo?
Era o Embuçado.

*O Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles, página 143.

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