30 maio, 2010

Ignora e ignoram




"Dos vendedores ambulantes que frenquentavam a Rua da União, dois me interessavam particularmente: a preta das bananas, com seu vistoso xale de pano da costa, e o homem dos sapatos. Este chegava com o seu grande baú de folha-de-flandres, abria-o na saleta de entrada e ficava esperando pela freguesia, que eram as senhoras de casa e da vizinhança. Eu gostava de olhar aquela confusão de borzeguins, chinelas e sapatos rasos. Mas, um dia, o sujeito, que era robusto e falava grosso, me interpelou:

- Já vai ao colégio? Estuda geografia? Qual é a capital do Espírito Santo?

Embatuquei, e o sapateiro tripudiou:

-Ignora?

O que eu esperava, o que eu ouvia dizer em tais ocasiões era: "Não Sabe?" Aquele "ignora", que eu jamais ouvira, soou-me duro. Senti-me insultado, afastei-me do baú, nunca mais me aproximei do tal homem. E até hoje implico com esse inocente verbo "ignorar", sobretudo no singular do presente do indicativo."

(Andorinha, andorinha) Manuel Bandeira, Seleta em Prosa e Verso, José Olympio editora, 6a edição; pág 49.


Lembrei dessa crônica ontem, quando passeava no Parque Olhos D'Água com Estêvão. Atento a tudo ele reparou nas lixeiras do parque e perguntou para que serviam. Disse-lhe que as lixeiras servem para que as pessoas não joguem o lixo no chão, emporcalhando o parque. Sem titubear ele emendou:

- E por que aquela tampa de refrigerante está no chão, Papai?

Respondi que algumas pessoas ignoravam a lixeira e que por isso jogavam o lixo onde não deviam. Ele então, com aquela fonética típica dos três anos, continuou:

- E por que as pessoas ignoram?

Ri do jeito que ele falou a palavra "ignoram", sobretudo na terceira pessoa do plural do presente do indicativo.


Um comentário:

Anônimo disse...

No primeiro caso, "ignorar" doeu como doe a todos os que têm paixão pelo conhecimento:doi não saber algo, mas é esta mesma "ignorância" que move os bons aprendizes. Já no segundo, "ignorar" já não significa não saber, mas saber e não ligar. A mim dói mais este tipo, quando alguém ignora uma situação (finge não entendê-la), a dor do outro, não considerando sua própria ação.
Estrela
O pequeno Estêvão já começou a aprender o sentido da palavra, por isso usou-a, com tanta propriedade e surpreendendo pelo vocábulo nada comum para seu tamanho...