14 abril, 2010

O Fascismo na Lei Anti-Fumo.

No posto abaixo, uma leitora considerou infeliz a minha sugestão de que a Lei anti-fumo, aprovada em São Paulo, têm um caráter fascista. Ela, então, opina que "fascista são os fumantes que "caminham soltando sua fumaça para os lados e intoxicam as pessoas, mulheres grávidas,crianças... Consideram que todos têm de respeitar seu vício e, se preciso for, adoecer com a fumaça em virtude de sua "liberdade" de agir." E arremata: "Não gostei mesmo do exemplo... Neste sentido, pode me chamar de facista e até ditadora: se pudesse, obrigaria o fim do tabagismo!"

A Lei anti-fumo é mesmo poderosa porque dificilmente seremos contrários a idéia de nos livrarmos da fumaça deletéria de um cigarro. Mesmo assim, reafirmo: a lei que obriga o fumante, num ambiente privado, a não fumar, em nome da saúde de todos, tem um caráter fascista sim!

Ao afirmar isso não estou sendo condescendente com o fumo. E para provar, republico um post que escrevi a respeito e indico um texto que considero valioso sobre o tema.


28 Agosto, 2009

A Lei Antifumo é fascista?



Quando a lei anti-fumo foi aprovada em São Paulo, não me importei com a polêmica que ela suscitou. Entendi a reclamação dos que viam na lei um viés autoritário,como uma reação natural daqueles que não conseguem viver sem uma tragadinha. Avaliei que os benefícios que essa lei traria, como garantir nos ambientes fechados um ar mais puro e livre da insuportável fumaça de um cigarro, superavam, e muito!, algumas injustiças que naturalmente essa lei provocaria. Estava tão satisfeito com o resultado prático da lei que negligenciei um aspecto que para mim é inadmissível: o caráter fascista da Lei Antifumo!

Não, senhores. Não vou defender o cigarro. Acho fumar um hábito nojento. Considero que toda a beleza, toda a graça, todo o charme que pode existir numa pessoa desaparece no mesmo instante que essa pessoa acende um cigarro. Por minha vontade os mais jovens não cairiam nesse vício e os mais velhos o abandonariam. Mas esse meu desejo, essa minha vontade particular, não me dá o direito de alijar do convívio social, o fumante. É o que essa lei faz. Não tenho o direito, nem em nome da saúde, de tratar um fumante como um pária! Abomino seu vício, mas não posso constrangê-lo por causa dele. É isso que a Lei Antifumo provoca.

O colunista da Folha, Luiz Felipe Pondé, em dois artigos decisivos, revelou de forma clara minha negligência nesse aspecto da lei. Provou com argumentos precisos, o quão totalitária e fascista é essa lei aprovada no estado de São Paulo. As palavras de Pondé são uma importante advertência para cidades como Curitiba, Belo Horizonte e Brasília que já se movimentam para aprovar lei semelhante.

A história nos ensinou que não devemos dar a menor chance, a menor mesmo, para idéias e valores totalitários que sempre vêm com boas intenções, mas que no final acabam tolhendo a liberdade do indivíduo. Não esqueço da valiosa advertência do cineasta italiano Bernardo Bertolucci que afirmava: "os fascistas começaram caçando tarados". Parece que o estado de São Paulo quer começar caçando os fumantes.

Leia aqui os artigos de Pondé.

04 abril, 2010

Fascista é você, Mané!


Você já foi acusado de fascista, leitor? Se foi, acredite, é muito provável que a pessoa que o injuriou seja de esquerda ou filo-esquerdista. Pode não parecer, mas ao acusá-lo de fascista ela o toma por espelho...

O sociólogo norte-americano Michael Mann, em um livro obrigatório, Fascistas, explica que o conhecimento que temos hoje do fascismo, de suas práticas violentas e racistas, enfim, de seus crimes, faz com que a gente associe o termo a uma injúria. A grande tese de Mann é dizer que hoje o fascismo só prospera como insulto.

Mann, no entanto, ressalta que elementos fascistas estão presentes hoje em dia em alguns países, ou melhor: nos governos desses países. Esses aspectos não tornam o governo desses países, fascistas; mas alerta para os efeitos nocivos que esses elementos têm para uma vida civilizada. Destaque para países muçulmanos que apóiam o terror islâmico, como o Irã, e para grupos terroristas como a AL Qaeda, que Mann rotula de islamo-fascistas. Mas me desviei do foco.

No excelente livro Fascismo de Esquerda, do americano Jonah Goldberg, um think tank do Partido Republicano, ele tenta demolir a imagem boazinha de muitos presidente americanos, todos, invariavelmente, do Partido Democrata, acusando-os de terem adotado políticas cuja origem ou inspiração foi a doutrina fascista. Numa palavra: cansado de ser tachado de fascista, como normalmente são os conservadores americanos, Jonah devolve a acusação com uma argumentação contundente e fatos que se não são desprovidos de controvérsia, têm uma lógica implacável. Ainda estou no início do livro, mas o que li já me ensinou bastante.

Volto, então, para a pergunta: o que exatamente é ser fascista? Quando o acusarem disso, caro leitor, do que exatamente o estarão acusando? Conhecer essa definição é importante porque com ela podemos devolver ao acusador: "Ignorante! Fascista é você!

Vejam a definição de Jonah Goldberg

"... fascismo é uma religião de Estado. Ele presume a unidade orgânica do corpo político e almeja um líder nacional afinado com a vontade do povo. É totalitário no sentido de que vê tudo como político e sustenta que qualquer ação do Estado é justificada quando se trata de alcançar o bem comum. Ele assume responsabilidades por todos os aspectos da vida, inclusive a nossa saúde e nosso bem-estar, e busca impor uniformidade de pensamento e ação, seja pela força ou por meio de regulamentações e pressões social. Tudo, inclusive a economia e a religião, tem que estar alinhado com seus objetivos. Qualquer identidade rival é parte do "problema" e, portanto, definida como inimigo"¹

O autor, ao longo do livro, pelo que pude ler na introdução, tem um propósito: demonstrar que o chamado liberalismo moderno americano, nada tem do liberalismo clássico, pelo contrário! É antes devedor da doutrina fascista que da teoria Liberal Clássica.

H G Wells, que no dizer de Jonah Goldberg, foi "uma das maiores influências sobre a mente progressista no século XX", inventou a expressão "fascismo-liberal", e, pasmem! não como algo negativo: "Os progressistas devem tornar-se "fascistas liberais" e "nazistas esclarecidos", disse ele [ H G Wells] aos Jovens Liberais de Oxford num discurso em julho de 1932."² Por isso, o termo "fascismo-liberal" antes de ser um oxímoro crasso, é para o autor, no caso específico do liberalismo americano - mas que bem poderia ser estendido para o esquerdismo no mundo - uma prova cabal de que o que a gente chama de progressismo nada mais é que um fascismo limpinho, agradável, ou na definição feliz que o autor pegou emprestado de George Calim, um "fascismo da carinha-sorridente".

Peraí, Zé Paulo, quer dizer que os defensores de uma vida saudável, aqueles que abominam o fumo ou a alimentação rica em gordura saturada, são fascistas? Respondo com as palavras de Jonah Goldberg: "O que é fascista é a noção de que, numa comunidade nacional orgânica, o indivíduo não tem nenhum direito de não ser saudável; e de que o Estado, portanto, tem a obrigação de nos forçar a ser saudável para o nosso próprio bem"³ Lembraram das leis anti-fumo? Pois é...

Por isso, leitor, quando algum "ongueiro" sustentado pelo governo, ou intelectual de meia-tigela que defende o controle social da mídia, e acha muito certo leis que ferem nossa liberdade individual, vier acusá-lo de fascista, responda: "Fascista é você, Mané!"



Notas:

1- Fascismo de esquerda, Jonah Goldberg; pág 33

2 - idem: pag 30

3 - ibidem: pag 29.