03 março, 2010

As amigas - parte 1

Lídia e Dagmar nunca tinham se visto antes até trabalharem juntas na mesma escola. A afeição entra as duas foi tão natural e imediata que muitos custavam a crer que elas só eram amigas há pouco mais de seis meses.

Não havia fim de semana que uma não estivesse na casa da outra ou com a outra nos bares ou nos clubes por pelo menos algumas horas. Não havia encontro de colegas depois do expediente em que elas não estivessem lado a lado, em cochichos e confidências. Tanta afeição tinha que ter algum motivo.

Os comentários mais maldosos, tanto da ala feminina da escola quanto da ala masculina, é que aquela amizade estava íntima demais para ser apenas amizade. Comentava-se à voz baixa que toda aquela proximidade mal disfarçava o romance que elas deveriam manter secreto. Houve quem ouvisse de gente que ouviu de outras gentes, que elas foram vistas trocando beijos e carinhos no estacionamento 10 do Parque da Cidade numa sexta-feira à noite.

Não quero criar em você leitor uma falsa expectativa. Elas não eram lésbicas. Não sei se algum leitor ou leitora decepcionou-se com essa revelação tão imediata. Talvez esperassem que essa narrativa tratasse de assunto tão corriqueiro hoje em dia. Não trata. Elas eram amigas, muito amigas. Dessas que se uma sofre a outra sofre junto. Apenas isso.

Lídia era delgada. De uma magreza exagerada, embora não fosse anoréxica. Seus cabelos pretos, que iam até a cintura, chamavam atenção pela finura dos fios. Seu rosto era comprido, com olhos pequenos que ficavam ainda menores quando sorria. Sua boca, de lábios finos, era um tanto grande e via-se isso com clareza quando ela gargalhava jogando a cabeça para trás, abrindo a boca de onde podia ver seus dentes perfeitos e brancos. Suas mãos eram compridas e os dedos longos. Não usava qualquer adorno nos dedos.

Lídia era quase sempre tímida e pudica, e quando o assunto discorria sobre certas intimidades do universo feminino seu rosto, levemente moreno, ficava rubro. Não que ela desconhecesse o assunto, mas só de falar em certas coisas, enrubescia-se. No entanto, bastava ela tomar duas ou três taças de vinho e perdia todo o pudor que fazia questão de mostrar no trabalho.

Dagmar também era magra. Bem mais do que Lídia, diga-se. Aqui temos a primeira semelhança entre elas. Haverá mais. Mais morena que amiga, também era mais alta. O rosto, menos comprido quando comprado ao de Lídia, agradava menos. Talvez o nariz adunco, o queixo proeminente e as órbitas oculares fundas não formassem um quadro tão atraente. Para compensar, porém, tinha mais sensualidade no andar, nos gestos, no jeito de olhar. Enquanto Lídia fazia o tipo moça recatada, pudica, ingênua; Dagmar fazia o tipo moça vivida, experiente, resoluta. Aqui temos uma das poucas diferenças entre elas...

No início do ano, na chamada Semana Pedagógica (aquela reunião onde os professores se reencontram para comentar onde estiveram nas últimas férias e onde ouvem as boas vindas de diretores e coordenadores para logo em seguida dar início àquele interminável rosário de palestras, avisos, recomendações e às famigeradas dinâmicas...)

Uma das coisas mais humilhantes dessas reuniões da Semana Pedagógica é justamente essas dinâmicas. O objetivo, dizem, é estreitar relações, quebrar o gelo, sair da rotina. Isso até acontece, mas a principal sensação que a todos acomete é da patetice da maioria delas. Foi justamente numa dessas dinâmicas de grupo que Lídia e Dagmar, que nunca tinham se visto antes, iniciaram a estreita amizade que marcou a vida delas desde então.

A dinâmica consistia no seguinte: duas fileiras de professores, uma de frente para a outra, deveria, ao som de uma música, fazer uma coreografia que seria imitada pelo professor que estivesse na frente do outro. De frente para Dagmar, Lídia deveria ficar atenta aos movimentos da colega para reproduzi-los assim que eles fossem feitos. A regra é que não poderiam se tocar, de jeito nenhum! A coreografia que Dagmar apresentou era frenética. Jogou os braços para cima e para os lados num movimento expansivo e perigoso – movimento que quase machuca uma professora de Artes, d. Adélia, conhecida pela cara ranzinza.

Novata na escola e com uma personalidade mais reservada, Lídia relutou a imitar a colega, mas procurou se esforçar para atender às regras da dinâmica. Dagmar ria como se aquela brincadeira fosse uma terapia. Como se aquele encontro dos professores fosse a coisa mais feliz que tivesse acontecido na sua vida. E era...

Continua...

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