07 março, 2010

A adulteração da inteligência ou Dr. Dioclécio: um boçal!

Eu sou um vira-lata, vocês sabem. Aliás, se me permitirem o oximoro, sou um vira-lata puro! Como uma pessoa irrelevante, sem títulos ou galardões onde eu possa me apoiar ou me jactar, não preciso ser brilhante quando escrevo. Muito menos, claro.

Um dos motivos que me fizeram perder o entusiasmo pela carreira acadêmica - além de minha incapacidade natural de chalerar os orientadores - foi ter lido algumas teses produzidas por essa gente especial. Quase nunca os doutores, pós-doutores, mestres, o diabo, conseguiam escrever um parágrafo que fizesse sentido ou que me revelasse alguma coisa importante. Eu poderia brincar e dizer que na maior parte dos casos o acadêmico que decide se especializar precisa comprovar, além do conhecimento em inglês, a falta de familiaridade com a língua portuguesa. Mas não é verdade. Essa deficiência é pregressa e não existe interesse em corrigi-la.

Foi publicado um artigo hoje no Correio Braziliense de um médico, que é identificado como professor titular do departamento de medicina da Unb e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, o Dr. Dioclécio Campos Júnior. No artigo ele adverte que a infância está sendo adulterada. Que ninguém se preocupa com as crianças. Que a sociedade capitalista acaba com a infância. Que a sanha empresarial só pensa em ganhar dinheiro em cima dos pequeninos. Que a força pandêmica do consumo destrói a beleza da infância.

Há outras tantas boçalidades no artigo publicado na edição deste domingo, que só ganharam esse espaço, certamente porque o articulista é médico, professor titular da Unb e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Pior para ele. Se fosse eu a escrever essas tolices, teria a meu favor a desculpa da irrelevância e, sobretudo, da ignorância. O dr. Dioclécio, infelizmente, não pode se proteger nessas desculpas.

Tentem acompanhar alguns trechos do artigo.

"A infância é um ciclo de vida em risco de extinção. Evidências sobejas demonstram o efeito danoso da modernidade sobre esse período existencial. A criança desfigura-se no contexto avassalador da economia de negócios. Perde a essência diferenciada que a distingue. Dissolve-se num meio ambiente desfavorável. Anula-se no vendaval dos interesses consumistas que comandam a orquestra regida pelos maestros do mundo econômico"

O que vai acima não é agradável de se ler. O que vai acima é apenas palavrório de quem não conhece o sentido exato das palavras. O que vai acima é um conjunto de termos e de metáforas rasteiras que tentam, pela embalagem supostamente atraente, esconder o conteúdo vazio do pacote que ele pretende oferecer. Afinal, o que ele quis dizer com "perde a essência diferenciada que a distingue"? Como uma criança pode dissolver-se num meio ambiente desfavorável? Meu Deus! Quanta boçalidade num só parágrafo.

Tem mais, vejam:

"Os centos urbanos ignoram os moradores infantis. O automóvel é o habitante privilegiado. (...) Os animais domésticos contam com vias floridas para bucólicos passeios diários, durante os quais evacuam e urinam prazerosamente no tronco de frondosas árvores ou em verdejantes gramados."

"A criança não tem lugar próprio Salvo algum parquinho, o diminutivo apropriado à restrição espacial em que os pequenos ficam ilhados ao lado de perdidas babás, balançando-se em geringonças perigosas, junto a cachorrinhos amigos que contaminam a areia e lhes transmitem doenças diversas, sem sempre benignas."

Prometo que não transcrevo mais nada. O que vai acima já basta para comprovar a indigência do artigo. Vejam a riqueza dos argumentos: Automóvel é habitante. Os cães fazem cocô e xixi quando passeiam bucolicamente pelas alamedas e a pobre da criança nem pode fazer isso. Mas a melhor parte é quando ele, médico, pediatra, professor titular do departamento de medicina da Unb escreve que os cachorrinhos amigos contaminam a areia dos parquinhos transmitindo doenças aos pequenos, doenças (peraí que eu vou rir), nem sempre benignas.

Haverá, certamente, os que lerão tal artigo e dirão: "Vejam que coisa mais linda!" "Que poético!" "Que bela conjunção de palavras!" "Vejam a riqueza literária das imagens, das metáforas, que homem culto!"

Os ignorantes costumam enaltecer os que se fingem de sábios. Eu, que sou esquisito, que não me intimido com títulos, que aprecio a escrita clara, direta e objetiva; que invejo aqueles que escrevem com naturalidade, digo que o artigo do dr. Dioclécio é a pura manifestação da boçalidade tão comum na academia. Que o Correio lhe dê espaço para escrever tais asneiras é uma prova do rebaixamento intelectual da imprensa no DF.

2 comentários:

Anônimo disse...

Me causa espanto o texto ter sido escrito por um pediatra, alguém que, ao menos supostamente, deveria ter maior ligação com as crianças...
Do jeito que as retratou, se poderia pensar em pequenos tristonhos, vivendo amedrontados e reclusos, sem sorrir, sem o brilho da infância...
Trabalho com crianças, mas mesmo quem não trabalha compreende que eles são ainda a alegria da vida, do mundo.
Não, as crianças não estão massacradas por um sistema que já vigora há anos (mesmo quando este médico era criança).
O que ocorre é que o mundo vem mudando (ainda bem!) e as crianças, por não viverem fora dele, também são diferentes da geraão anterior. Por certo que determinadas características da atualidade são negativas à infância e poderiam ser diferentes... Mas não se pode querer que os pequenos vivam como viveram seus pais. O mundo muda, a infância também. Cabe a nós lutarmos para que as mudanças sejam as melhores possíveis, não desejar que as crianças permaneçam as mesmas, que o mundo não se transforme. Isto seria parar no tempo. Isto seria desconsiderar todo o lado favorável dos novos tempos.

Anônimo disse...

Acho que o objetivo do texto foi exatamente servir de piada para alegrar as tristes criancinhas!
A vida acadêmica tem sido algo ridículo, onde é necessário bajular "deuses" e no curso de medicina também isso é uma realidade, especialmente se o objetivo é mestrado ou doutorado. Especialmente na UFPE, onde me formei e não sinto falta. Residencia é visto como um meio para um fim, que não chega nunca, por sinal. Normalmente se faz pediatria pensando em fazer outra coisa como neonatologia, gastroenterologia e etc. Então, se há riscos para as crianças, o principal risco não é o mundo capitalista malvado mas sim a falta de pediatras que ofereçam informações necessárias para as mães criarem seus filhos da forma mais satisfatória possível. Mas não informações inúteis como essa do texto. Que os pediatras ensinem às mães como realizar uma alimentação correta ( alimentação inadequada, por falta de informação, de fato, é um risco para as crianças), ensinem como proceder em resfriados, ensinem a reconhecer possíveis complicações dos mesmos e quando e como levarem as crianças em uma urgência. Pois observo que as urgêcias vivem lotadas de crianças com resfriado, algo que poderia ser tratado em domicílio se o pediatrada do ambulatório estivesse preocupado em orientar a mãe e não com seu próximo artigo inútil a ser escrito. Ensinem que uma diarreia normalmente é um evento autolimitado, não sendo necessário que as mães levem as crianças por 5 dias consecutivos ( média da duração da diarreia) em uma urgência por conta da diarreia. Expliquem quando realmente devem levar. Em suma, esse texto mostra o seguinte princípio : Se não se resolve um problema (ou problemas) crie um problema para suspostamente resolvê-lo e assim justificar seu salário!