27 março, 2010

Vida Severina

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O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.


Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

13 março, 2010

Timóteo é nascido!

"—— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido. "

(Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto)

No dia nove de março de 2010, pesando 3395 gramas e medindo 49 cm, Timóteo, meu segundo filho "saltou para dentro da vida", como diria o poeta. Assim como fiz com Estêvão, agora alçado ao posto de irmão mais velho, dedico, ao ainda pequenino Timóteo, a canção que segue abaixo. Acompanhem a letra.




É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem


De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem


Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.

07 março, 2010

A adulteração da inteligência ou Dr. Dioclécio: um boçal!

Eu sou um vira-lata, vocês sabem. Aliás, se me permitirem o oximoro, sou um vira-lata puro! Como uma pessoa irrelevante, sem títulos ou galardões onde eu possa me apoiar ou me jactar, não preciso ser brilhante quando escrevo. Muito menos, claro.

Um dos motivos que me fizeram perder o entusiasmo pela carreira acadêmica - além de minha incapacidade natural de chalerar os orientadores - foi ter lido algumas teses produzidas por essa gente especial. Quase nunca os doutores, pós-doutores, mestres, o diabo, conseguiam escrever um parágrafo que fizesse sentido ou que me revelasse alguma coisa importante. Eu poderia brincar e dizer que na maior parte dos casos o acadêmico que decide se especializar precisa comprovar, além do conhecimento em inglês, a falta de familiaridade com a língua portuguesa. Mas não é verdade. Essa deficiência é pregressa e não existe interesse em corrigi-la.

Foi publicado um artigo hoje no Correio Braziliense de um médico, que é identificado como professor titular do departamento de medicina da Unb e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, o Dr. Dioclécio Campos Júnior. No artigo ele adverte que a infância está sendo adulterada. Que ninguém se preocupa com as crianças. Que a sociedade capitalista acaba com a infância. Que a sanha empresarial só pensa em ganhar dinheiro em cima dos pequeninos. Que a força pandêmica do consumo destrói a beleza da infância.

Há outras tantas boçalidades no artigo publicado na edição deste domingo, que só ganharam esse espaço, certamente porque o articulista é médico, professor titular da Unb e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Pior para ele. Se fosse eu a escrever essas tolices, teria a meu favor a desculpa da irrelevância e, sobretudo, da ignorância. O dr. Dioclécio, infelizmente, não pode se proteger nessas desculpas.

Tentem acompanhar alguns trechos do artigo.

"A infância é um ciclo de vida em risco de extinção. Evidências sobejas demonstram o efeito danoso da modernidade sobre esse período existencial. A criança desfigura-se no contexto avassalador da economia de negócios. Perde a essência diferenciada que a distingue. Dissolve-se num meio ambiente desfavorável. Anula-se no vendaval dos interesses consumistas que comandam a orquestra regida pelos maestros do mundo econômico"

O que vai acima não é agradável de se ler. O que vai acima é apenas palavrório de quem não conhece o sentido exato das palavras. O que vai acima é um conjunto de termos e de metáforas rasteiras que tentam, pela embalagem supostamente atraente, esconder o conteúdo vazio do pacote que ele pretende oferecer. Afinal, o que ele quis dizer com "perde a essência diferenciada que a distingue"? Como uma criança pode dissolver-se num meio ambiente desfavorável? Meu Deus! Quanta boçalidade num só parágrafo.

Tem mais, vejam:

"Os centos urbanos ignoram os moradores infantis. O automóvel é o habitante privilegiado. (...) Os animais domésticos contam com vias floridas para bucólicos passeios diários, durante os quais evacuam e urinam prazerosamente no tronco de frondosas árvores ou em verdejantes gramados."

"A criança não tem lugar próprio Salvo algum parquinho, o diminutivo apropriado à restrição espacial em que os pequenos ficam ilhados ao lado de perdidas babás, balançando-se em geringonças perigosas, junto a cachorrinhos amigos que contaminam a areia e lhes transmitem doenças diversas, sem sempre benignas."

Prometo que não transcrevo mais nada. O que vai acima já basta para comprovar a indigência do artigo. Vejam a riqueza dos argumentos: Automóvel é habitante. Os cães fazem cocô e xixi quando passeiam bucolicamente pelas alamedas e a pobre da criança nem pode fazer isso. Mas a melhor parte é quando ele, médico, pediatra, professor titular do departamento de medicina da Unb escreve que os cachorrinhos amigos contaminam a areia dos parquinhos transmitindo doenças aos pequenos, doenças (peraí que eu vou rir), nem sempre benignas.

Haverá, certamente, os que lerão tal artigo e dirão: "Vejam que coisa mais linda!" "Que poético!" "Que bela conjunção de palavras!" "Vejam a riqueza literária das imagens, das metáforas, que homem culto!"

Os ignorantes costumam enaltecer os que se fingem de sábios. Eu, que sou esquisito, que não me intimido com títulos, que aprecio a escrita clara, direta e objetiva; que invejo aqueles que escrevem com naturalidade, digo que o artigo do dr. Dioclécio é a pura manifestação da boçalidade tão comum na academia. Que o Correio lhe dê espaço para escrever tais asneiras é uma prova do rebaixamento intelectual da imprensa no DF.

03 março, 2010

As amigas - parte 1

Lídia e Dagmar nunca tinham se visto antes até trabalharem juntas na mesma escola. A afeição entra as duas foi tão natural e imediata que muitos custavam a crer que elas só eram amigas há pouco mais de seis meses.

Não havia fim de semana que uma não estivesse na casa da outra ou com a outra nos bares ou nos clubes por pelo menos algumas horas. Não havia encontro de colegas depois do expediente em que elas não estivessem lado a lado, em cochichos e confidências. Tanta afeição tinha que ter algum motivo.

Os comentários mais maldosos, tanto da ala feminina da escola quanto da ala masculina, é que aquela amizade estava íntima demais para ser apenas amizade. Comentava-se à voz baixa que toda aquela proximidade mal disfarçava o romance que elas deveriam manter secreto. Houve quem ouvisse de gente que ouviu de outras gentes, que elas foram vistas trocando beijos e carinhos no estacionamento 10 do Parque da Cidade numa sexta-feira à noite.

Não quero criar em você leitor uma falsa expectativa. Elas não eram lésbicas. Não sei se algum leitor ou leitora decepcionou-se com essa revelação tão imediata. Talvez esperassem que essa narrativa tratasse de assunto tão corriqueiro hoje em dia. Não trata. Elas eram amigas, muito amigas. Dessas que se uma sofre a outra sofre junto. Apenas isso.

Lídia era delgada. De uma magreza exagerada, embora não fosse anoréxica. Seus cabelos pretos, que iam até a cintura, chamavam atenção pela finura dos fios. Seu rosto era comprido, com olhos pequenos que ficavam ainda menores quando sorria. Sua boca, de lábios finos, era um tanto grande e via-se isso com clareza quando ela gargalhava jogando a cabeça para trás, abrindo a boca de onde podia ver seus dentes perfeitos e brancos. Suas mãos eram compridas e os dedos longos. Não usava qualquer adorno nos dedos.

Lídia era quase sempre tímida e pudica, e quando o assunto discorria sobre certas intimidades do universo feminino seu rosto, levemente moreno, ficava rubro. Não que ela desconhecesse o assunto, mas só de falar em certas coisas, enrubescia-se. No entanto, bastava ela tomar duas ou três taças de vinho e perdia todo o pudor que fazia questão de mostrar no trabalho.

Dagmar também era magra. Bem mais do que Lídia, diga-se. Aqui temos a primeira semelhança entre elas. Haverá mais. Mais morena que amiga, também era mais alta. O rosto, menos comprido quando comprado ao de Lídia, agradava menos. Talvez o nariz adunco, o queixo proeminente e as órbitas oculares fundas não formassem um quadro tão atraente. Para compensar, porém, tinha mais sensualidade no andar, nos gestos, no jeito de olhar. Enquanto Lídia fazia o tipo moça recatada, pudica, ingênua; Dagmar fazia o tipo moça vivida, experiente, resoluta. Aqui temos uma das poucas diferenças entre elas...

No início do ano, na chamada Semana Pedagógica (aquela reunião onde os professores se reencontram para comentar onde estiveram nas últimas férias e onde ouvem as boas vindas de diretores e coordenadores para logo em seguida dar início àquele interminável rosário de palestras, avisos, recomendações e às famigeradas dinâmicas...)

Uma das coisas mais humilhantes dessas reuniões da Semana Pedagógica é justamente essas dinâmicas. O objetivo, dizem, é estreitar relações, quebrar o gelo, sair da rotina. Isso até acontece, mas a principal sensação que a todos acomete é da patetice da maioria delas. Foi justamente numa dessas dinâmicas de grupo que Lídia e Dagmar, que nunca tinham se visto antes, iniciaram a estreita amizade que marcou a vida delas desde então.

A dinâmica consistia no seguinte: duas fileiras de professores, uma de frente para a outra, deveria, ao som de uma música, fazer uma coreografia que seria imitada pelo professor que estivesse na frente do outro. De frente para Dagmar, Lídia deveria ficar atenta aos movimentos da colega para reproduzi-los assim que eles fossem feitos. A regra é que não poderiam se tocar, de jeito nenhum! A coreografia que Dagmar apresentou era frenética. Jogou os braços para cima e para os lados num movimento expansivo e perigoso – movimento que quase machuca uma professora de Artes, d. Adélia, conhecida pela cara ranzinza.

Novata na escola e com uma personalidade mais reservada, Lídia relutou a imitar a colega, mas procurou se esforçar para atender às regras da dinâmica. Dagmar ria como se aquela brincadeira fosse uma terapia. Como se aquele encontro dos professores fosse a coisa mais feliz que tivesse acontecido na sua vida. E era...

Continua...