06 fevereiro, 2010

O professor de geografia - parte 2

(Leia primeiro o post abaixo)

Em sala de aula o professor João era uma lástima. Sua dicção era sofrível. Falava baixo, numa língua estranha aos alunos e, suspeito, aos terráqueos. Parecia que o pão que ele comera às pressas ainda estava na sua boca, recusando-se a descer pelo esôfago para se acomodar no estômago.

Ciente de sua dificuldade, o professor sempre trazia para a sala de aula o seu caderno com as anotações para os alunos. O caderno era velho, as folhas sujas, com nódoas amarelas de café. Todas as folhas continham anotações numa letra que lembrava os primórdios da escrita. Só ele entendia o que estava escrito naquelas páginas. Para não tornar inútil a cópia que fazia do caderno no quadro, o professor João escrevia em letra de forma, numa tentativa de aproximar do nosso alfabeto os sinais pictográficos que ele tinha escrito no caderno.

As aulas de Geografia do primeiro ano do ensino médio eram modorrentas. Os alunos mais aplicados, categoria em que eu estava naturalmente excluído, resignavam-se em escrever por cem minutos sem qualquer descanso. Os mais folgados e descompromissados desenhavam, escreviam bilhetes com pilhérias e obscenidades e riam de forma estridente porque além de tudo o professor João estava ficando surdo.

Ninguém aprendeu Geografia no Primeiro Ano. Nem os mais aplicados. As provas eram tolas e não avaliavam nada. Aliás, justiça seja feita ao professor João. Ele nunca cobrou de nós que provássemos ter aprendido alguma coisa, pois sabia que ele não tinha conseguido nos ensinar nada. Era um homem, apesar de tudo, justo. Como não havia retenção na turma, a direção da escola não se importava com a qualidade da aula nem com o nosso aprendizado. Se as notas estavam acima da média não havia razão para se medir a aprendizagem, não é? E o professor João, por não ter alunos em recuperação, era sempre elogiado pelos diretores e recebia, todo ano, um diploma, como se fosse uma medalha, pelo trabalho de professor aplicado e eficiente.

A verdade é que podíamos responder qualquer coisa na prova de geografia que o professor encontrava uma forma de considerar nossa resposta correta.

- O Brasil na América Central? Hum... Vou considerar uns décimos, afinal o Brasil tá na América, não é rapaz?!

Francisco, o rei das piadas da turma, péssimo aluno e de caráter duvidoso, exigiu uma nova correção para essa questão. Argumentava que ele merecia alguns décimos também porque se é verdade que o Brasil não está no continente africano, está próximo, com apenas um oceano a separá-los e, além disso, tanto a África quanto o Brasil estão no planeta Terra, portanto, ele merecia alguns décimos também.

O professor João não sabia brigar, contra-argumentar, mostrar para o aluno o absurdo de seu pedido, e aquiescia, sem resistência, às exigências mais disparatadas dos alunos. Com essa postura, alunos como Francisco e como o narrador, mesmo sem estudar, passando a aula caçoando dos colegas e do professor, eram aprovados com mérito.

Mais de vinte anos depois, penso do que terá sido feito do professor João, de geografia. Será que ele morreu? Está num asilo? Nunca se soube de filhos, mulher, parentes, com exceção da avó que já era falecida há tempos, nem amigos ele tinha...

No caminho da escola, eu passava por trás da Agência Central dos Correios, um local imundo, onde bêbados e mendigos se amontoavam a espera da comiseração dos transeuntes para comprar bebida. Muitas vezes pensei, olhando para aqueles rostos envelhecidos pelo álcool e pela miséria, que um dia encontraria o professor João ali, entre aquela gente. Jogado na sarjeta como um saco de lixo. Quantas daquelas pessoas que como eu passava todos os dias por ali virariam o rosto para ele, fugindo do incômodo daquelas súplicas irritantes, ou responderiam: “Tem não!” diante do seu pedido de necessitado com a mão estendida... Quantas dessas pessoas poderiam ter sido alunas do professor João no Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco? Quantos repetiriam como adultos o mesmo descaso e indiferença que lhe dispensavam quando alunos? Quantos o reconheceriam naquela condição? Quantos lembrariam que aquele pedinte era o fim anunciado de um homem derrotado, infeliz, triste, sem amigos, família ou parentes?

Hoje, mais de vinte anos depois, sinto vergonha de ter caçoado do professor João. Sinto vergonha de ter escondido seu caderno com as anotações para os alunos, deixando-o mudo por dois dias. Até que, finalmente, deixei o caderno na sala dos professores sem que ninguém visse.

Sinto vergonha de não ter visto o ser humano humilhado, derrotado, depressivo, de nunca ter me preocupado com o que a vida lhe fizera para ele ser daquele jeito ou ter tido aquele fim que eu imaginava quando passava por trás da Agência Central do Correios no caminho da escola.

Por uma dessas ironias da vida, acabei me tornando professor... É bem possível que em sala de aula eu não seja tão diferente do meu professor João, de geografia. Quem garante que o futuro que imaginei para o meu professor de geografia não seja o meu futuro? Quem garante que amanhã eu não esteja jogado na sarjeta, como um saco de lixo, como um pedinte com a mão estendida à espera da comiseração dos transeuntes...


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