06 fevereiro, 2010

O professor de geografia - parte 1

O professor João, de geografia, era o mais esquisito dos professores que tínhamos no Ensino Médio. De baixa estatura, com os ombros caídos, olhos fundos, olheiras horríveis, uma barba sempre rala e por fazer, além de óculos que pareciam enormes para a sua cara miúda, formando no conjunto um quadro que mais causava pena – se fosse comum esse sentimento nos adolescentes - que horror.

Detestava ser chamado de professor. Exigia, vacilante – tudo o que fazia tinha algo de hesitação – que os alunos o chamassem simplesmente de João. Era provável que se envergonhasse do título de professor que não lhe mudou a sorte como imaginava quando tinha vinte e poucos anos e saiu da UFPE com o título de Licenciatura Plena em Geografia.

Muitos colegas atenderam a exigência hesitante do professor, eu não. Sempre o chamei de professor. Não pense o leitor que eu me neguei a chamá-lo da forma que ele queria porque respeitava sua profissão ou o admirava. Da mesma forma que os colegas que o chamavam pelo nome o faziam mais por menoscabo do que por respeito à sua pessoa, minha insistência em antepor ao seu nome o título de professor era uma maldade mesquinha. Não gostava dele e faria de tudo para tornar a sua vida ainda mais chata mesmo que para isso fosse preciso chamá-lo de professor João.

Relembro dos passos vacilantes do mestre nos corredores do Liceu de Artes e Ofício de Pernambuco em direção à sala de aula. Andava com a cabeça baixa, os ombros arriados e uma expressão de que estava fazendo um esforço sobre-humano, como se carregasse nas costas o Mundo, como a figura mitológica de Atlas que ilustrava a capa de nosso livro didático. Poucas vezes vi um rosto revelar tão explicitamente o fracasso e a derrota como o rosto do professor João.

Diziam à época que o professor morava no centro do Recife, na Rua 24 de Maio, um lugar feio e sujo, com prédios antigos e mal cuidados, muitos ameaçando desabar a qualquer momento. O comércio que havia ali praticamente se restringia a lojas de autopeças e rolamentos, ocupadas por gente decadente, que se vestia com roupas surradas. Estavam sempre suando, fumando e tomando cafezinho à espera de algum cliente tolo para vender-lhe uma peça por um valor três ou quatro vezes superior ao preço real do produto. O ágio era embolsado pelo vendedor desonesto ou dividido como um butim por aqueles que participavam do golpe.

Era nesse ambiente de gatunos velhos, barrigudos, de prédios caindo aos pedaços, com suas paredes sem reboco e descascadas, que morava o meu professor de geografia do ensino médio.

Sua casa, conta-se, tinha três vãos: a sala, a cozinha e o quarto. Uma única janela que dava para a rua, ao lado da porta de entrada, ambas sempre cerradas, dando ao interior da residência um aspecto sombrio. Pela falta de luz solar, e por estar sempre fechada, a casa cheirava mal e as paredes descascadas eram úmidas e com vários pontos de mofo, sobretudo no inverno, por causa das goteiras.

O banheiro ficava nos fundos, fora da casa, e tinha um vaso mal assentado no chão, bambo e com vestígios de fezes que se pregavam na parte interna do aparelho sanitário. A descarga era cor de rosa, de material plástico, manchada de poeira e presa à parede por um barbante que se prendia num prego enferrujado, colocado há anos num dos buracos da parede do banheiro. Acionava-se a descarga puxando um cordão sujo e molambento. Por conta do racionamento de água, tão comum na cidade do Recife, às vezes a descarga não funcionava o que explica a imundície do vaso sanitário. Não havia chuveiro no banheiro. Da parede escura saía um cano de PVC, também muito sujo, de onde escoava uma água muito fria caindo com uma bica, tornando o ato de tomar banho algo penoso para o morador. A água do banho, misturada ao grude e a espuma do sabonete de coco que desciam do corpo esquálido do professor escorria por um buraco que existia na parede do banheiro, rente ao chão, e fazia, do lado de fora, no pequeno quintal, uma poça que servia de foco para as muriçocas que atazanavam o sono do professor João.

A sala, pequena, como os demais cômodos, tinha pouca mobília. Uma estante cheia de cupim que o professor herdou da avó morta há 15 anos, onde guardava os livros que fazia anos ele não abria. Todos, sem exceção, estavam com as folhas roídas pelas catitas que corriam pela sala sem qualquer desassossego. Eram como animais de estimação do morador. Ratos. Talvez o professor João, pelo tamanho, pela cara miúda e feia, pelo porte frágil e com o receio de olhar as pessoas de frente, se sentisse mesmo como uma catita.


No meio da sala havia um sofá duro, com o tecido todo rasgado e com a espuma à mostra. Ouvia-se com nitidez que os ratos também viviam ali. Era possível que houvesse uma ninhada dentro daquela espuma que escapulia pelos rasgões do tecido. João não se incomodava e dormia refestelado no sofá com a roupa que chegara do trabalho. De manhã, atrasado, levantava de sobressalto, escovava os dentes em dois minutos, punha os óculos enormes, pegava o caderno com as anotações para as aulas, comia o pão sem manteiga que deixara em cima da mesa na noite anterior e bebia um café frio num copo americano que ficava sempre na parte superior do filtro de barro esquecido na pia da cozinha.

Depois do café da manhã seguia para a escola que ficava no centro da cidade do Recife, a alguns minutos a pé de sua casa. Esse desleixo explicava o aspecto andrajoso das roupas e a expressão macilenta do professor todas as manhãs.

Continua...

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