14 fevereiro, 2010

Ontem à tarde quando o sol morria...




E agora, José?




José*


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem carinho¹,
está sem discurso²,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

* Carlos Drummond de Andrade.

1 e 2 - Os versos foram invertidos na canção. No poema original o verso "está sem carinho" vem depois do verso "está sem discurso."

06 fevereiro, 2010

O professor de geografia - parte 2

(Leia primeiro o post abaixo)

Em sala de aula o professor João era uma lástima. Sua dicção era sofrível. Falava baixo, numa língua estranha aos alunos e, suspeito, aos terráqueos. Parecia que o pão que ele comera às pressas ainda estava na sua boca, recusando-se a descer pelo esôfago para se acomodar no estômago.

Ciente de sua dificuldade, o professor sempre trazia para a sala de aula o seu caderno com as anotações para os alunos. O caderno era velho, as folhas sujas, com nódoas amarelas de café. Todas as folhas continham anotações numa letra que lembrava os primórdios da escrita. Só ele entendia o que estava escrito naquelas páginas. Para não tornar inútil a cópia que fazia do caderno no quadro, o professor João escrevia em letra de forma, numa tentativa de aproximar do nosso alfabeto os sinais pictográficos que ele tinha escrito no caderno.

As aulas de Geografia do primeiro ano do ensino médio eram modorrentas. Os alunos mais aplicados, categoria em que eu estava naturalmente excluído, resignavam-se em escrever por cem minutos sem qualquer descanso. Os mais folgados e descompromissados desenhavam, escreviam bilhetes com pilhérias e obscenidades e riam de forma estridente porque além de tudo o professor João estava ficando surdo.

Ninguém aprendeu Geografia no Primeiro Ano. Nem os mais aplicados. As provas eram tolas e não avaliavam nada. Aliás, justiça seja feita ao professor João. Ele nunca cobrou de nós que provássemos ter aprendido alguma coisa, pois sabia que ele não tinha conseguido nos ensinar nada. Era um homem, apesar de tudo, justo. Como não havia retenção na turma, a direção da escola não se importava com a qualidade da aula nem com o nosso aprendizado. Se as notas estavam acima da média não havia razão para se medir a aprendizagem, não é? E o professor João, por não ter alunos em recuperação, era sempre elogiado pelos diretores e recebia, todo ano, um diploma, como se fosse uma medalha, pelo trabalho de professor aplicado e eficiente.

A verdade é que podíamos responder qualquer coisa na prova de geografia que o professor encontrava uma forma de considerar nossa resposta correta.

- O Brasil na América Central? Hum... Vou considerar uns décimos, afinal o Brasil tá na América, não é rapaz?!

Francisco, o rei das piadas da turma, péssimo aluno e de caráter duvidoso, exigiu uma nova correção para essa questão. Argumentava que ele merecia alguns décimos também porque se é verdade que o Brasil não está no continente africano, está próximo, com apenas um oceano a separá-los e, além disso, tanto a África quanto o Brasil estão no planeta Terra, portanto, ele merecia alguns décimos também.

O professor João não sabia brigar, contra-argumentar, mostrar para o aluno o absurdo de seu pedido, e aquiescia, sem resistência, às exigências mais disparatadas dos alunos. Com essa postura, alunos como Francisco e como o narrador, mesmo sem estudar, passando a aula caçoando dos colegas e do professor, eram aprovados com mérito.

Mais de vinte anos depois, penso do que terá sido feito do professor João, de geografia. Será que ele morreu? Está num asilo? Nunca se soube de filhos, mulher, parentes, com exceção da avó que já era falecida há tempos, nem amigos ele tinha...

No caminho da escola, eu passava por trás da Agência Central dos Correios, um local imundo, onde bêbados e mendigos se amontoavam a espera da comiseração dos transeuntes para comprar bebida. Muitas vezes pensei, olhando para aqueles rostos envelhecidos pelo álcool e pela miséria, que um dia encontraria o professor João ali, entre aquela gente. Jogado na sarjeta como um saco de lixo. Quantas daquelas pessoas que como eu passava todos os dias por ali virariam o rosto para ele, fugindo do incômodo daquelas súplicas irritantes, ou responderiam: “Tem não!” diante do seu pedido de necessitado com a mão estendida... Quantas dessas pessoas poderiam ter sido alunas do professor João no Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco? Quantos repetiriam como adultos o mesmo descaso e indiferença que lhe dispensavam quando alunos? Quantos o reconheceriam naquela condição? Quantos lembrariam que aquele pedinte era o fim anunciado de um homem derrotado, infeliz, triste, sem amigos, família ou parentes?

Hoje, mais de vinte anos depois, sinto vergonha de ter caçoado do professor João. Sinto vergonha de ter escondido seu caderno com as anotações para os alunos, deixando-o mudo por dois dias. Até que, finalmente, deixei o caderno na sala dos professores sem que ninguém visse.

Sinto vergonha de não ter visto o ser humano humilhado, derrotado, depressivo, de nunca ter me preocupado com o que a vida lhe fizera para ele ser daquele jeito ou ter tido aquele fim que eu imaginava quando passava por trás da Agência Central do Correios no caminho da escola.

Por uma dessas ironias da vida, acabei me tornando professor... É bem possível que em sala de aula eu não seja tão diferente do meu professor João, de geografia. Quem garante que o futuro que imaginei para o meu professor de geografia não seja o meu futuro? Quem garante que amanhã eu não esteja jogado na sarjeta, como um saco de lixo, como um pedinte com a mão estendida à espera da comiseração dos transeuntes...


O professor de geografia - parte 1

O professor João, de geografia, era o mais esquisito dos professores que tínhamos no Ensino Médio. De baixa estatura, com os ombros caídos, olhos fundos, olheiras horríveis, uma barba sempre rala e por fazer, além de óculos que pareciam enormes para a sua cara miúda, formando no conjunto um quadro que mais causava pena – se fosse comum esse sentimento nos adolescentes - que horror.

Detestava ser chamado de professor. Exigia, vacilante – tudo o que fazia tinha algo de hesitação – que os alunos o chamassem simplesmente de João. Era provável que se envergonhasse do título de professor que não lhe mudou a sorte como imaginava quando tinha vinte e poucos anos e saiu da UFPE com o título de Licenciatura Plena em Geografia.

Muitos colegas atenderam a exigência hesitante do professor, eu não. Sempre o chamei de professor. Não pense o leitor que eu me neguei a chamá-lo da forma que ele queria porque respeitava sua profissão ou o admirava. Da mesma forma que os colegas que o chamavam pelo nome o faziam mais por menoscabo do que por respeito à sua pessoa, minha insistência em antepor ao seu nome o título de professor era uma maldade mesquinha. Não gostava dele e faria de tudo para tornar a sua vida ainda mais chata mesmo que para isso fosse preciso chamá-lo de professor João.

Relembro dos passos vacilantes do mestre nos corredores do Liceu de Artes e Ofício de Pernambuco em direção à sala de aula. Andava com a cabeça baixa, os ombros arriados e uma expressão de que estava fazendo um esforço sobre-humano, como se carregasse nas costas o Mundo, como a figura mitológica de Atlas que ilustrava a capa de nosso livro didático. Poucas vezes vi um rosto revelar tão explicitamente o fracasso e a derrota como o rosto do professor João.

Diziam à época que o professor morava no centro do Recife, na Rua 24 de Maio, um lugar feio e sujo, com prédios antigos e mal cuidados, muitos ameaçando desabar a qualquer momento. O comércio que havia ali praticamente se restringia a lojas de autopeças e rolamentos, ocupadas por gente decadente, que se vestia com roupas surradas. Estavam sempre suando, fumando e tomando cafezinho à espera de algum cliente tolo para vender-lhe uma peça por um valor três ou quatro vezes superior ao preço real do produto. O ágio era embolsado pelo vendedor desonesto ou dividido como um butim por aqueles que participavam do golpe.

Era nesse ambiente de gatunos velhos, barrigudos, de prédios caindo aos pedaços, com suas paredes sem reboco e descascadas, que morava o meu professor de geografia do ensino médio.

Sua casa, conta-se, tinha três vãos: a sala, a cozinha e o quarto. Uma única janela que dava para a rua, ao lado da porta de entrada, ambas sempre cerradas, dando ao interior da residência um aspecto sombrio. Pela falta de luz solar, e por estar sempre fechada, a casa cheirava mal e as paredes descascadas eram úmidas e com vários pontos de mofo, sobretudo no inverno, por causa das goteiras.

O banheiro ficava nos fundos, fora da casa, e tinha um vaso mal assentado no chão, bambo e com vestígios de fezes que se pregavam na parte interna do aparelho sanitário. A descarga era cor de rosa, de material plástico, manchada de poeira e presa à parede por um barbante que se prendia num prego enferrujado, colocado há anos num dos buracos da parede do banheiro. Acionava-se a descarga puxando um cordão sujo e molambento. Por conta do racionamento de água, tão comum na cidade do Recife, às vezes a descarga não funcionava o que explica a imundície do vaso sanitário. Não havia chuveiro no banheiro. Da parede escura saía um cano de PVC, também muito sujo, de onde escoava uma água muito fria caindo com uma bica, tornando o ato de tomar banho algo penoso para o morador. A água do banho, misturada ao grude e a espuma do sabonete de coco que desciam do corpo esquálido do professor escorria por um buraco que existia na parede do banheiro, rente ao chão, e fazia, do lado de fora, no pequeno quintal, uma poça que servia de foco para as muriçocas que atazanavam o sono do professor João.

A sala, pequena, como os demais cômodos, tinha pouca mobília. Uma estante cheia de cupim que o professor herdou da avó morta há 15 anos, onde guardava os livros que fazia anos ele não abria. Todos, sem exceção, estavam com as folhas roídas pelas catitas que corriam pela sala sem qualquer desassossego. Eram como animais de estimação do morador. Ratos. Talvez o professor João, pelo tamanho, pela cara miúda e feia, pelo porte frágil e com o receio de olhar as pessoas de frente, se sentisse mesmo como uma catita.


No meio da sala havia um sofá duro, com o tecido todo rasgado e com a espuma à mostra. Ouvia-se com nitidez que os ratos também viviam ali. Era possível que houvesse uma ninhada dentro daquela espuma que escapulia pelos rasgões do tecido. João não se incomodava e dormia refestelado no sofá com a roupa que chegara do trabalho. De manhã, atrasado, levantava de sobressalto, escovava os dentes em dois minutos, punha os óculos enormes, pegava o caderno com as anotações para as aulas, comia o pão sem manteiga que deixara em cima da mesa na noite anterior e bebia um café frio num copo americano que ficava sempre na parte superior do filtro de barro esquecido na pia da cozinha.

Depois do café da manhã seguia para a escola que ficava no centro da cidade do Recife, a alguns minutos a pé de sua casa. Esse desleixo explicava o aspecto andrajoso das roupas e a expressão macilenta do professor todas as manhãs.

Continua...

02 fevereiro, 2010

Por uma maldita vaga!!!


Estava no meu carro com o pequeno e bravo Estêvão, ele gosta de brincar de dirigir o carro do pai, quando chegou uma Toyota possante e, sem vagas disponíveis, parou atravessada para fazer o desembarque de uma família que a julgar pelas mochilas e malas, estava voltando das férias.

O motorista da Toyota era um senhor de idade avançada e os demais ocupantes eram dois adolescentes, um homem de meia-idade, depois soube que filho do motorista, e a mãe dos meninos, possivelmente mulher do filho do motorista.

Cansado, o homem de meia-idade me perguntou se eu iria sair com o carro porque pretendia estacionar a camionete do pai na vaga que eu ocupava. Respondi que não. Que estava ali brincando com o meu filho. Instantes depois, um carro saiu, abrindo a vaga que o homem tanto desejava. Sem demora, lá foi ele se plantar na vaga para garantir que o pai, um senhor bastante avançado em anos, pudesse ligar a camionete e fazer a manobra para estacionar. Nesse ínterim, uma mulher, num Ford Fiesta Sedan, ultrapassa a Toyota e inicia a manobra para estacionar na vaga onde o homem estava plantado. O homem de meia-idade, educado, explica à motorista que aquela vaga estava sendo guardada para a camionete. A mulher, certamente estressada com o dia, deblatera com o homem argumentando que não vira sinal da camionete indicado que a vaga estava reservada. O homem, ainda educado, com uma educação que é mais fruto do esgotamento físico do que da índole, insiste que a vaga é do pai dele. A mulher, visivelmente irritada, joga o carro para frente e aciona a marcha ré em direção à vaga. Nessa hora, o homem de meia-idade se transforma: joga-se no carro da mulher que continua dando ré em direção à vaga. A cena parece hilária, mas na hora foi bastante tensa, e aí, descontrolado, o homem de meia-idade começa a chutar a traseira do carro da mulher. "A vaga é de meu pai, minha senhora", berrava o homem enquanto chutava a mala do carro e batia com força no vidro traseiro. A motorista pára o carro e desce aos prantos acusando o homem de meia-idade de grosso, estúpido, maluco, troglodita. Diante da cena tentei intervir dizendo que se o problema era uma vaga, eu sairia com o meu carro para que ninguém brigasse. Era tarde, porém. O homem estava transtornado dizendo que a motorista tentou matá-lo e a motorista, em lágrimas, reagia acusando que ele só tinha feito aquilo porque ela era uma mulher. Meu filho que acompanhou a cena com assombro, perguntou a mim por que eles estavam brigando. "Por uma vaga, meu filho".

A confusão, o bate-boca, os impropérios ganhavam proporções alarmantes, chamando a atenção dos vizinhos e das pessoas que passavam por baixo do bloco próximo ao estacionamento.

Tudo se acalmou, aparentemente, com a chegada da Polícia Militar que decidiu levar os brigões para a delegacia.