27 janeiro, 2010

Sonhos de Uma Noite de Verão 1

Ato Segundo, Cena I


Demétrio - Não te amo, portanto, não me persigas. Onde estão Lisandro e a bela Hérmia? Matarei um e a outra me mata. Tu me disseste que eles se haviam refugiado neste bosque e aqui estou, tronco entre troncos porque não posso encontrar minha Hérmia. Vai-te embora e não me sigas mais!

Helena – Vós me atraís, ímã de coração empedernido; mas, não é o ferro que atraís, pois o meu coração é fiel como o aço. Deixai vosso poder de atração e não terei poder para seguir-vos.

Demétrio – Eu te atraio? Eu te encorajo? Ou, pelo contrário, não te digo claramente que não te amo nem posso amar-te?

Helena – E por isso mesmo, eu vos amo mais ainda. Sou vosso lebréu e quanto mais me baterdes, Demétrio, mais vos acariciarei. Tratai-me como vosso lebréu; desprezai-me, batei-me, esquecei-me, perdei-me; mas, por indigna que seja, permiti-me, ao menos, que vos siga. Que lugar mais humilde em vosso amor posso mendigar, quando peço que me trateis como vosso cão? E, no entanto, é para mim um lugar altamente desejável.

Demétrio – Não exasperes demais o ódio de minha alma, pois fico doente quando olho para ti.

Helena – E eu fico doente quando não olho para vós.

Demétrio – Aventuras excessivamente teu pudor abandonando a cidade e entregando-te à mercê de quem não te ama, expondo-te à oportunidade da noite e à má inspiração de um lugar solitário com o rico tesouro da tua virgindade.

Helena – Vossa honradez é meu escudo; porque para mim não é noite quando contemplo o vosso rosto e, portanto, não penso que esteja sob a noite. Nem falta a este bosque um mundo de pessoas, pois para mim sois o mundo inteiro. Como, então, pode ser dito que estou só, quando todo o mundo está aqui para olhar-me?

Demétrio – Fugirei de ti e ocultar-me-ei nas matas, deixando-te à mercê das feras.

Helena – A mais feroz não tem um coração como o vosso. Fugi quando quiserdes; a história será trocada: Apolo foge e Dafne o persegue; a pomba vai atrás do grifo; a mansa corça se atira para apanhar o tigre. Inútil pressa quando a covardia persegue e o valor foge!

Demétrio – Não quero discussões contigo; deixa-me ir; ou, se me seguires, fica certa de que te ultrajarei no bosque.

Helena – Sim, no templo, na cidade e no campo me ultrajais. Que indignidade, Demétrio! Vossas afrontas são um opróbrio para meu sexo. Nós não dispomos de armas iguais aos homens, quando lutamos por amor. Não fomos feitas para conquistar, mas para sermos conquistadas. (sai Demétrio.) Seguir-vos-ei e, fazendo um céu de um inferno, morrerei nas mãos de quem tanto amo. (Sai)


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ATO TERCEIRO. CENA II.

Hérmia – Escuta, noite, que, suspendendo as funções dos olhos, torna mais audíveis os sons e, debilitando o sentido da vista, duplicas a agudeza do ouvido! Meus olhos não te vêem, Lisandro, mas o som de tua voz me guiou em tua direção... Por que me deixaste tão duramente?

Lisandro – O amor de Lisandro, amor que não o permitiu ficar: a bela Helena, que faz a noite mais dourada do que esses globos incandescentes e esses olhos de luz, no firmamento. Por que me procuras? Não compreendeste que é o ódio que te dedico que me obrigou a deixar-te assim?

Hérmia – Não falas o que pensas; é impossível.

(...)

Lisandro – Fica, gentil Helena; escuta minha justificação, meu amor, minha vida, minha alma, minha encantadora Helena.

(...)

Hérmia – Que quer isto dizer, Lisandro?

Lisandro – Afasta-te, etípoe! (...) Vai enforcar-te, gata insuportável! Vil criatura, deixa-me ou te atiro para longe de mim como se arroja uma serpente.

Hérmia – Por que te tornaste tão grosseiro? Que mudança é esta? Doce amor...

Lisandro – Teu amor! Longe de mim, tártara escura, longe de mim! Longe de mim, repugnante droga! Vai-te, poção odiosa.

Hérmia – Não estás brincando?

(...)

Lisandro – Então? Devo feri-la, atacá-la, matá-la? Embora a odeie, não quero causar-lhe dano.

Hérmia - Que maior mal podes causa que odiar-me? Odiar-me! Por quê? Ai de mim! Que aconteceu contigo, meu amor? Não sou Hérmia? Não és Lisandro? Sou tão bela hoje quanto era ontem. No curto espaço de uma noite, tu me amaste e me abandonaste. Por que então me abandonaste? Oh! Que os deuses me livrem de acreditar! Falas seriamente?

Lisandro – Sim, por minha vida! E com a firme intenção de jamais tornar-te a ver-te. Assim, não tenhas mais esperança, incerteza, dúvida; é certo, nada de mais sério; não é brincadeira que eu te odeie e ame Helena.

Hérmia – Ai de mim!... Impostora, verme das flores, ladra de amor! Foste tu que apareceste esta noite e roubaste o coração de meu amor?

(...)

Lisandro – Vai saindo, anã, pigméia, feita de erva que prende o crescimento das crianças, bolinha de vidro, bolota de carvalho!

(...)

Hérmia - Estou assombrada e não sei o que dizer. (sai)


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