23 janeiro, 2010

Não as deixe entrar.


Você está ouvindo? São elas... Me ajude a fechar as portas, as janelas, rápido, vamos... Não as deixe entrar... Elas vão bater, elas vão chorar, elas vão implorar, mas não as deixe entrar de jeito nenhum... (...) É preciso que não sucumbamos, temos que resistir ou elas continuarão a destruir... A destruir com suas lágrimas, com seus risos, com suas graças, com suas fomes... Só daremos um basta nisso se não as deixarmos entrar... (...) Escute as batidas, e os pedidos doces misturados aos gritos... Tape os ouvidos... Não adianta, eu sei, os gritos são muito altos... (...) Você está ouvindo os passos nos telhados? Não é impressão... Começaram a sapatear, estão irritadas. Tente não ficar com medo... Eu também estou com medo... Estamos cercados, eu sei... Mas temos de resistir. Tente não imaginar o quão feliz você poderia ser com elas, porque... Suprima a imaginação, faça esse esforço, cesse essa agitação de fantoche... Nada disso é verdade... Elas não são a verdade que aparentam ser... São ilusões que esquecemos ser ilusões, lembre-se sempre... Não destranque a última porta, não desmonte a última barreira, está escutando? Não me deixe fazê-lo, se eu assim resolver, seu eu assim fraquejar. (...) É preciso dar um fim a isso, de uma vez por todas é preciso dar um fim ao horror que reproduzimos, ao horror que difundimos, ao horror que salgamos a terra. O horror nascido do amor... Mas se o amor é isso, então não há amor. (...) Somos nós lá fora, somos nós, você entende? Não as deixe entrar, não nos deixe entrar...*

O livro de contos A Boca da Verdade, de Mário Sabino, foi uma surpresa assim que me chegou por encomenda. Por um erro da gráfica, a parte interna do livro está invertida em relação à capa e contracapa, dessa forma, quando leio, as pessoas acham que estou lendo o livro de cabeça para baixo. Estranho? Algumas coisas só acontecem comigo mesmo.

O livro é desafiador. Não há um só personagem nos contos que seja um herói. Todos são humanos, desgraçadamente humanos. Do velho octagenário que prestes a dar uma palestra só pensa em sacanagem, passando pelo pai que revela em testamento que nunca amou os filhos, mas os suportou como a uma carga pesada em sem sentido - claro que essa confissão só é revelada aos filhos quando estes estão com 35 anos e já usufruíram da herança paterna - até um advogado ambicioso e petulante que por causa de um vaso considerado uma relíquia da mais alta arte - o vaso é uma imitação - decide, em conluio com a esposa, tirar da direção do escritório de advocacia o homem que lhe dera todas as oportunidades para crescer na carreira jurídica. Antes que o leitor se apiede dessa senhor traído pelo seu amigo mais próximo, é importante dizer que esse tal homem também não valia nada, era um frívolo! Um canalha!!! Todos os personagens desse livro de contos, como disse, são humanos, desgraçadamente humanos...

* Trechos do conto Não as deixe entrar, A Boca da Verdade, pág 49, 50 e 51.

Nenhum comentário: