19 janeiro, 2010

Angústia


Angústia é o terceiro romance que li do autor alagoano Graciliano Ramos. Os dois anteriores foram o clássico e merecidamente festejado Vidas Secas e o igualmente magistral São Bernardo. Angústia, porém, tem uma genialidade diferente. Diria que tem outra natureza...

O livro foi escrito em 1936, antes, portanto, de Vidas Secas que é de 1938, e depois de São Bernardo, que é de 1934. Na ocasião, o autor estava preso, vítima do autoritarismo de Vargas que depois da Intentona Comunista (1935) começou a perseguir e a prender os suspeitos de serem comunistas. Graciliano foi preso sob essa acusação. Acusação, diga-se, falsa! Graciliano só iria de filiar ao PCB na década seguinte, em 1945.

O que chama atenção neste romance é a estrutura da narrativa que Graciliano utiliza para contar a história de Luis da Silva, homem rude, solitário e cheio de complexos que tem uma paixão avassaladora por Marina, menina sonhadora e vazia. A estória do amor fracassado desses dois personagens marca o romance inteiro.

Abusando com maestria do recurso que em Cinema os especialistas chamam de flashback, Graciliano deixa nesse romance sua marca de Gênio. É impressionante como a narrativa é interrompida o tempo inteiro por esse recurso. Tal expediente poderia tornar o romance estranho e chato não fosse ele escrito por um ficcionista como Graciliano Ramos.

Outro ponto a favor da obra são as imagens que Luís, narrador-personagem, constrói através de suas memórias e imaginação. São surreais! Numa passagem que me chamou atenção, ao descrever os encontros amorosos entre D Rosália e o marido ou suposto marido, pois o autor deixa a dúvida no ar, Luís passa a ver no quarto imagens que os sussuros, os gritos, o resfolegar do casal apaixonado provocam na imaginação do personagem. Numa passagem cômica, Luís descreve e em seguida imagina:

O quarto de D Rosália ficava paredes meias com o meu. Antônia tinha-me dito, em confidência: - "O homem chegou." Devia ser o sujeito calvo e moreno que tocava o chapéu e rosnava um cumprimento. Agora se distinguia palavras claras: - "Bichinha, gordinha..." Não sei como aquelas criaturas se podiam amar assim em voz alta, sem ligar importância à curiosidade dos vizinhos. D Rosália resfolegava e tinha uns espamos longos terminados em ui! medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem saltava palavrões obscenos. Parecia que o meu quarto se enchia de órgãos sexuais soltos, voando. A brasa do cigarro iluminava corpos atracados, gemendo: - "Bichinha, gordinha..." - "Ui!" Na escuridão a parede estreita desaparecia. Estávamos os três na mesma peça, eu rebolando-me no colchão estreito, picado de pulgas, respirando o cheiro de pano sujo e esperma, eles agarrados, torcendo-se, espumando, mordendo-se. Aquilo iria prolongar-se por muitas horas.

O trecho acima é apenas um exemplo de como a narrativa de Graciliano, através de Luis da Silva, nos leva a momentos de puro surrealismo. Os exemplos abundam, como a recorrente lembrança que Luís tem de seu avô, seu Trajano, que certa feita acordou com uma cascavel enrolada no pescoço. Imaginaram o surrealismo da cena? As imagens mais impressionantes e mais surreais estão no final do romance, mas aí perderia a graça se eu contasse aqui. Fica a sugestão entusiasmada para quem quiser ler o livro.

Ah, uma última coisa: o suicídio de seu Evaristo me marcou profundamente. Valeria a pena transcrever palavra por palavra, mas o post ficaria enorme e vocês certamente desistiriam de ler até o fim. De qualquer forma, na edição que tenho aqui, começa na página 185 e vai até a página 188. Vale a pena ler! Destaco apenas um ponto: o suicídio de um velho parece mais lógico ou pelo menos mais desculpável do que o suicídio de um jovem. Seu Evaristo tinha 70 anos quando decidiu enforcar-se, e a maneira como ele se matou é importante no romance. Estava velho, humilhado, sem perspectiva... continuar vivendo daquele jeito por quê? Fica a questão e não a sugestão.

Um comentário:

Ilka disse...

Nossa Professor,

Muito legal esse comentário (resenha). Tenho essa obra aqui desde que cursei o magistério, por ser obra indicada no componente curricular, mas sinceramente não lí integralmente, fiz uma leitura "dinâmica" Aff!! Mas agora me deu vontade de ler, e o farei.