06 dezembro, 2009

O enem e a Política Externa.

O Enem, que continua hoje à tarde, como não poderia deixar de ser, trouxe algumas pérolas de cunho marcadamente ideológico. Uma delas, talvez a mais evidente, está na questão 65 que fala da Política Externa do país no século XX, embora o foco seja a política externa do Governo Lula. Vejam o enunciado da questão:

Questão 65

Colhe o Brasil, após esforço contínuo dilatado no tempo, o que plantou no esforço da construção de sua inserção internacional. Há dois séculos formularam-se os pilares da política externa. Teve o país inteligência de longo prazo e cálculo de oportunidade do mundo difuso da transição da hegemonia britânica para o século americano. Engendrou concepções, conceitos e teoria própria no século XIX, de José Bonifácio ao Visconde do Rio Branco. Buscou autonomia decisória no século XX. As elites se interessaram, por meio de calorosos debates, pelo destino do Brasil. O país emergiu, de Vargas aos militares, como ator responsável e previsível nas ações externas do Estado. A mudança de regime político para a democracia não alterou o pragmatismo externo, mas o aperfeiçoou.

SARAIVA, J. F. S. O lugar do Brasil e o silêncio do parlamento. Correio Braziliense, Brasília, 28 maio 2009 (adaptado).

Sob o ponto de vista da política externa brasileira no século XX, conclui-se que

A) o Brasil é um país periférico na ordem mundial, devido às diferentes conjunturas de inserção internacional.

B) as possibilidades de fazer prevalecer ideias e conceitos próprios, no que tange aos temas do comércio internacional e dos países em desenvolvimento, são mínimas.

C) as brechas do sistema internacional não foram bem aproveitadas para avançar posições voltadas para a criação de uma área de cooperação e associação integrada a seu entorno geográfico.

D) os grandes debates nacionais acerca da inserção internacional do Brasil foram embasados pelas elites do Império e da República por meio de consultas aos diversos setores da população.

E) a atuação do Brasil em termos de política externa evidencia que o país tem capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais.

Vamos começar pelo enunciado...

O articulista, professor titular da Unb, isso não me espanta, aqui o currículo, começa dizendo que "Colhe o Brasil, após esforço contínuo dilatado no tempo, o que plantou no esforço da construção de sua inserção internacional." Como o artigo foi escrito em maio de 2009, publicado nesse gigante órgão de imprensa, famoso pela sua seriedade, que é o jornal Correio Braziliense, trata-se, é claro, de uma referência direta ao governo atual. Para o autor, o Governo Lula colhe os louros de uma política externa séria e responsável que marcou o passado do Estado brasileiro. É claro que o autor pode pensar assim, mas intriga-me que ele não enxergue que o magalonanico, o chanceler Celso Amorim, só faz acumular derrotas e passar vexame nas nossas relações externas. Só para citar um caso recente, o imbroglio de Honduras, onde até hoje o maluco do Zelaya está aboletado na embaixada brasileira, transformou-se num dos maiores micos de nossa política externa. Foi o único caso? Infelizmente, não. Semana passada, na Alemanha, nosso presidente defendeu, por enquanto sozinho, que o Irã tem o direito de construir sua bomba, afinal, se os Estados Unidos, a Rússia, a China e outras potências têm as suas, que autoridade moral elas têm para impedir que o Irã desenvolva seu arsenal nuclear? Ah, Zé Paulo, o Lula não falou assim, diria o inocente útil ou o malandro esperto. É, não disse, mas a conclusão de sua fala na Alemanha, está óbvio, é esta.

Poderia citar também as derrotas na indicação da ministra do STF, Ellen Gracie, para a Corte Internacional em Haia, ou mesmo o apoio vergonhoso que o governo do Brasil deu ao egípcio antissemita para o cargo de presidente da Unesco, preterindo um brasileiro que, segundo fontes da ONU, ganharia com folga. Resultado: Nem o brasileiro nem o egípcio.

E o voto covarde do Governo em não condenar o massacre do Sudão? Em se abster de condenar o Irã pelo seu projeto nuclear, enquanto Rússia e China deram seu voto contrário ao país dos aiatolás.

Sei não, nossa política externa, pelos resultados que vem obtendo e pela moral que a vem norteando, insulta nossa famosa, histórica e até ontem, respeitada diplomacia. O que o governo atual vem se esmerando é em jogar por terra dois séculos de seriedade e responsabilidade que marcaram nossas relações internacionais. Os frutos, que o articulista diz que começamos a colher, haja vista nossa maior inserção nas decisões internacionais, é uma grande falácia. É mais um intelectual dessa malta que nos governa há oito anos.

Nas alternativas apresentadas como possíveis respostas ao enunciado, a correta, ou melhor: a que se esperava que o candidato marcasse, diz:

E) a atuação do Brasil em termos de política externa evidencia que o país tem capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais.

De fato, nos últimos tempos temos tomado decisões que atestam nossa capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais, como ficou claro na recepção calorosa que oferecemos ao presidente do Irã, aquele moço que com inveja de Hitler, nega o Holocausto para que ele mesmo faça o seu.

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