08 dezembro, 2009

Música, poesia e reminiscências.

Desde moleque o som do piano e do violino exercia sobre mim um efeito que na época eu não sabia nomear nem explicar. Hoje, adulto, continuou sem saber. O que sei é que há qualquer coisa de mágico numa sonata de Beethoven, num noturno de Chopin, num adágio de Albinoni ou no famosíssimo Concerto para piano, do russo Tchaikovsky

Na periferia do Recife, onde sempre morei até vir para a capital do Brasil, meu primeiro contato com o piano, na verdade com o som do piano porque nunca consegui tirar qualquer nota de qualquer instrumento, foi ouvindo, em vinil, um pianista chamado Richard Clayderman, famoso por levar para o piano músicas pop ou consagradas. Foi Clayderman que me despertou para esse som. Só depois dele é que me interessei pelos clássicos.

Tenho várias deficiências na minha formação. A que eu mais me ressinto é com certeza o fato de nunca ter aprendido a tocar um instrumento musical. Lembro que na adolescência alguns amigos se motivaram a aprender tocar violão. Compraram instrumentos, tomaram aulas e na empolgação fui junto com eles, mas sempre arregando os professores e os instrumentos. Nas primeiras aulas via a expressão de desânimo dos mestres com o meu desempenho. Não falavam, mas a expressão denunciava o que eles pensavam: "Zé, larga mão disso, vai." Larguei.

Quem toca um instrumento, penso, abre o espírito para ser tocado por Deus. Quem só pode escutar, recebe a centelha divina por via indireta, o que não é pouca coisa, mas está longe de ser tudo. Por isso, avulso leitor, se você toca algum instrumento, não largue mão. Toque. Toque com alma, com paixão, com saudade, com dor, com alegria, não importa o sentimento, apenas toque. E daí se ninguém vai valorizar? Toque sempre que puder. Quem sabe você não se torna uma nota feliz na vida sem música de alguma pessoa...

Eu preciso falar também de dois instrumentos que não têm, não sei a razão, a mesma nobreza do piano e do violino, mas que exerce sobre mim emoção análoga: o acordeon e a rabeca. A rabeca, instrumento que lembra, apenas lembra, ok?, um violino, eu conheci ouvindo Antônio Nóbrega. E, confesso, não há som mais encantador. Quanto ao acordeon, que a gente chama no nordeste de sanfona, meu avô materno tocava, ou dizia que tocava, pois não tenho lembranças muito nítidas dele tocando alguma coisa, apenas do instrumento sempre em cima do sofá da sala.

Finalmente, ouvir música é como ler poesia. É preciso estar disponível para a emoção. Há quem não goste de poesia, quem não veja sentido num verso, quem não consiga imaginar as imagens que um poeta cria; como há quem escute a nona de Beethoven e fique indiferente. Acho que essas pessoas ainda não se humanizaram. Os renascentistas diziam que o homem não nasce humano, mas humaniza-se. É impossível, acredito, humanizar-se sem apreciar música e poesia.
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Um dos muitos poemas de Manuel Bandeira que me marcou de forma especial é Pneumotórax, que diz:

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
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— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Abaixo, uma menina pernambucana, simples, pobre e com um talento invejável para o piano. Que Deus permita que essa menina não desista por conta das adversidades de uma vida de dificuldades e brilhe com sua música onde estiver.







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