22 dezembro, 2009

Minha Fraude.

"Eu vira uma borboleta
Como nunca vira um dia
Nela a mãe Natureza
Caprichou no que podia
E vi que coisa igual
Nenhum pintor pintaria"

Eu tinha 10 anos quando, remexendo num baú lá em casa, encontrei um livrinho com uma capa azul bem vagabunda e que continha várias poesias, mas só consigo lembrar dos versos acima. O autor? Não faço a menor idéia. Se ele ainda estiver vivo e por coincidência reconhecer como seus os versos que iniciam esse post, que venha aqui revelar o seu nome. Tenho algo a lhe dizer.

Acho que como poeta esse autor, por mim desconhecido, já conseguiu o objetivo máximo: tornar seus versos conhecidos e imortais. Não interessa que eu seja a única pessoa no mundo que saiba esse trecho de cor desde os meus 10 anos. Basta que uma pessoa guarde os versos de um poeta para que ele, o poeta meus caros, ainda que sem nome, torne-se imortal para esta pessoa.

Mas os versos acima também revelam um pouco de uma estória meio malandra. Estava na 5a série, era a primeira vez que eu deixava o bairro pobre de Monsenhor Fabrício, tomava um comboio, como se chama em Portugual o ônibus, e ia para o centro do Recife com seus perigos, descobrertas e alumbramentos.

Por esta época eu tinha 11 anos e lembro que atravessar a Av. Guararapes sem respeitar a Faixa de Pedestre ou mesmo o semáforo era um risco subestimado e que quase me custou a vida algumas vezes. Passava pela Agência Central dos Correios, um edifício enorme, pomposo, cujo relógio localizado no ponto mais alto do prédio nunca funcionava.

Entrava na rua do Sol. Do meu lado esquerdo o rio Capibaribe e mais adiante, na outra margem, a rua da Aurora. Por esta época eu ainda não conhecia Manuel Bandeira. Mais alguns metros, chegava ao prédio onde funcionava o Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco. Era um colégio púbico que gozava -e aqui utilizo o verbo no sentido que os lusitanos o empregam - de um certo prestígio na cidade. Ah, mas eu falava da poesia...

Chegando atrasado no meu primeiro dia de aula, a professora de português, digo, de Língua Portuguesa, D. Niza Galiza Guimarães, uma senhora bem velhinha, mas com os olhos muito vivos, sorriu para mim e me convidou para sentar. Havia tanto afeto nos olhos dessa professora e tanta gentileza no tom da sua voz que nem me incomodei de ter atrapalhado a aula. A tarefa que já tinha começado era a gente escrever uma poesia. Fazer versos. "E eu sabia lá escrever poesia!", pensei. Contudo, eu não podia decepcionar a professora. Depois de pensar muito tempo, uns cinco minutos, entreguei-lhe a poesia. Ela leu, muito séria. A turma de novatos olhou para mim com espanto e inveja, afinal eu tinha sido o último a chegar e o primeiro a entregar a tarefa.

- José Paulo, você é o nosso poeta ecólogo! - Disse D Niza com muita gravidade.

Fiquei envergonhado com as palavras dela. Ela então leu minha poesia:

"Eu vira uma borboleta
Como nunca vira um dia
Nela a mãe Natureza
Caprichou no que podia
E vi que coisa igual
Nenhum pintor pintaria"

Eu sabia que a poesia não era minha. Mas eu não sabia de quem era. Não sei até hoje. D Niza sabia que não era minha também. Afinal, como um aluno na 5a série iria usar o pretério mais-que-perefeito? Mas ela silenciou. Fingiu que acreditou em mim. Não sei por que motivo. Talvez ela se admirasse que eu soubesse versos de cor.

D Niza morreu pouco depois. Nunca me admoestou por causa da minha fraude. Ela tinha fama de brava, rigorosa e severa. Dizem que pessoas assim quando ficam boazinhas é porque estão perto de morrer... Será?

Por favor, se alguém conhece o autor desses versos, diga-lhe que na 5a série roubei a sua obra. Diga-lhe que estou envergonhado e que me arrependo de tê-lo feito.

PS: A chuva não pára de cair hoje...


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