11 dezembro, 2009

Lula fala "merda" pela terceira vez.


Há uma obra que pelo que tem de reveladora, é indispensável. Falo, é claro, do último livro de Ali Kamel: Dicionário Lula. A obra, que traz o mérito de não fazer juízo de valor sobre as palavras do presidente nesses dois mandatos, disseca com método todos, ou a maioria dos discursos do presidente nesse período.

Com esse trabalho, o jornalista e diretor de Jornalismo da TV Globo, descortina a essência moral do homem que há sete anos nos governa e que ultimamente tem sido elevado à categoria de um semi-deus.

Todas as vezes, meu caro, que você se escandalizar com alguma metáfora chula, com alguma declaração inadequada do presidente, recorra ao livro do Kamel e você irá constatar que a mesma já havia sido usada antes em mais de uma ocasião e que não foi fruto do improviso e da espontaneidade do presidente, muito pelo contrário. Como diria Apolônio sobre Hamlet, "É loucura, mas com método"

Kamel, com o seu dicionário, nos mostra o homem Lula e, ao menos para mim, a revelação foi aterradora.

Jornalistas que se fingem de sérios e outros que nem se preocupam mais em fingir, procuram minimizar as palavras chulas do presidente dizendo que Lula foi apenas didático e que por não ter falso moralismo ou um pretenso senso de decoro, por falar ao povo sem "frescura", é que ostenta os índices de popularidade tão altos! A oposição, coitada, tão moralista, fica chupando dedo. Essa gente torpe quando evoca os números de aprovação do Governo Lula para justificar qualquer coisa mostra a sua moral.

Não me interessa se o baixo calão do presidente lhe dá popularidade. Não me interessa que o zé povinho, a arraia miúda entre em êxtase quando escuta o presidente falar "merda" em discurso. A popularidade de Lula não lhe dá o direito nem de fazer o que quer, muito menos de dizer o que quer, enquanto chefe de Estado. O decoro do cargo, a liturgia da função precisa ser respeitada em nome das instituições.

Se numa igreja um sacerdote para falar ao povo começa a usar de tais expedientes, vai obter, com razão, a censura dos fiéis. Se no ambiente do trabalho o decoro com a função não for respeitada, o chefe, em pouco tempo, no mínimo, vai perder o respeito da equipe.

A explicação de que é muito melhor falar "merda" em discurso do que roubar seria apenas uma estupidez, mesmo que Lula fosse um homem probo e íntegro.

Falar "merda" em discurso não é tão grave, dizem, quanto ter o cinismo de se locupletar ou favorecer amigos, mesmo mantendo o decoro e a liturgia do cargo.

Toda essa explicação, repito, seria apenas tolice, ainda que o nosso presidente fosse um "santo" de boca suja. Mas Lula foi o presidente do mensalão, do dossiê dos aloprados, do favorecimento do filho que em tempo recorde passou de monitor de zoológico a empresário de comunicação, com a ajuda da Telemar, é claro.

Por isso e por muito mais, invocar a honestidade do presidente ou sua imensa popularidade para justificar sua patifaria e sua grosseria em discurso no Maranhão, não é só estupidez ou tolice, é sobretudo, alinhar-se a moral dos brutos e ver nessa moral algo genuínamente brasileiro. Vai ver eles têm mesmo razão...

Na sua obra, Ali Kamel diz:

“Repetição, metáforas facilmente entendidas pelo cidadão comum, linguagem simples e convencional, essa é a fórmula de Lula. Mas há ainda outro ingrediente. Quando necessário, Lula não se importa nem mesmo de usar imagens fortes, que poderiam ser vistas como de mau gosto. Essa linguagem “forte”, embora não freqüente, é usada sem constrangimento sempre que o presidente a considera necessária: a fala flui sem ressalvas, não há nenhum pedido de licença para se usar uma linguagem mais con­tundente. Se seu objetivo é comunicar-se, ele usa todos os recursos.” (página 35)

Em outro trecho, Ali Kamel esclarece:

"Se relaciono aqui tantos exemplos, é porque desejo que o leitor tenha a dimensão do fenômeno, o que não seria possível apenas com uma ou outra citação. No período analisado, podem-se achar cinco menções a “cocô”; duas a “merda”; vinte a “fezes”; seis a “útero”; uma a “bunda”; trinta e três a “rato”; seis a “barata”; quatro a “piolho”; nove a “fedentina”; oito a “porrada”; qua­tro a “porreta”; cinco a “sacanagem”; quatro a “urina”; e sete a “defecar”. Os redatores da Secretaria de Comunicação da Presidência responsáveis pela transcrição dos discursos apoiaram-se 370 vezes na palavra “inaudível” para substituir um termo que ou não tenham entendido (a maior parte dos ca­sos, acredito) ou que tenham considerado inapropriado. Um bom exemplo é o discurso de 4/12/08, na cerimônia de lançamento das linhas de ação do Fundo Setorial do Audiovisual. Lula criticava os que o criticavam por tentar passar otimismo para a população como forma de não retrair o consumo e piorar ainda mais a crise econômica iniciada em setembro de 2008:

“Imaginem vocês, se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente, o que vocês falariam para ele? “Olha, companheiro, o senhor tem um proble­ma, mas a medicina já avançou demais, a ciência avançou demais, nós vamos dar tal remédio e você vai se recuperar.” Ou você diria: “Meu, ’sifu’.” Vocês fala­riam isso para um paciente de vocês? Vocês não falariam.”

Na transcrição, “sifu”, um eufemismo para “se fodeu” popularizado pelo jornal O Pasquim, foi substituída por “inaudível” (depois que a im­prensa “denunciou” o fato, houve promessas de que o “sifu” seria reincor­porado ao texto, mas nada aconteceu nesse sentido). Isso considerado, a frequência de palavras “fortes” que registrei há pouco parece ser expressi­va. Trata-se de algo realmente inédito no exercício da Presidência: de fato, jamais, antes de Lula, um presidente deliberada e conscientemente falou a linguagem das ruas, da mais leve à mais pesada, sem restrições, com o objetivo de se comunicar bem." (páginas 38 e 39)


Dicionário Lula, um presidente exposto por suas próprias palavras, de Ali Kamel, tem a vantagem de a gente, depois de conhecer o livro, não se espantar com as palavras do presidente, mas ainda assim reforçar aquela sensação de constragimento que sempre toma conta das pessoas minimamente decentes.

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