30 dezembro, 2009

Cotovia


— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?


— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.


— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.


— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .


— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?


— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.


— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!


— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.




Há nos versos de Cotovia, do poeta Manuel Bandeira, uma nostalgia terna. Há na música executada pelo violonista Yamandu Costa, o lirismo de um tempo que dificilmente voltará. A música é da década de 1940, a lembrança do poeta bem mais antiga... Em ambas ,uma saudade, embora triste como toda saudade, boa se sentir. Aliás, em Natal de 1964, Manuel Bandeira ensina que a saudade é um prolongamento da vida daqueles que se foram.

Leiam a poesia e depois escutem a música.

Nenhum comentário: