09 dezembro, 2009

Alberto Caeiro

De todos os heterônimos do poeta Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é com certeza o mais provocador. “Espere um pouco” - diria um leitor especialista em Fernando Pessoa - “ Você, Zé Paulo, agora é literato”? Como eu saio dessa?

Vou me socorrer com Álvaro de Campos, outro heterônimo do poeta lusitano, que escreveu em Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Mesmo assim, um especialista em Fernando Pessoa não ficaria convencido, muito menos satisfeito com a minha opinião sobre Alberto Caeiro. E com razão, afinal o especialista é ele. Vou recuar e mudar a minha frase. De todos os heterônimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é o que mais me provoca. Ficou melhor? Espero que sim.

O próprio poeta resumiu a biografia do seu heterônimo da seguinte maneira: "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."

Sei pouca coisa ou quase nada sobre essa biografia e não é dela que quero falar, mas da provocação dos versos desse “guardador de rebanhos”. Não consigo ficar indiferente a versos como:

Há Metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Às vezes nosso estado de espírito está justamente como esse homem simples que apreende o mundo pelos sentidos e não pela inteligência. Quanto melhor seria não procurar o sentido oculto das coisas? Sequer considerar que há sentido oculto nelas. “Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum.”

A pior coisa que pode acontecer a um ser humano é se dar uma importância desmedida. Não, é se dar qualquer tipo de importância, mesmo a mais mínima. Seríamos muito mais felizes se assumíssemos para nós mesmos que a realidade não precisa de nós. Que nossa morte não tem importância nenhuma, que as estações do ano sempre se alternarão quer a gente goste quer não, e assim é porque assim seria mesmo que a gente não gostasse. Um especialista em Fernando Pessoa, e especificamente em Alberto Caeiro, identificaria que as idéias e as imagens que essas frases encerram não são minhas, mas desse homem simples que apesar de ter nascido em Lisboa era um homem do campo, sem estudo nem sofisticação.

Alberto Caeiro não sonha grande. Seu sonho é antes a comunhão com a natureza. Ele não espera amores, afetos, reconhecimentos, adulações, ele só espera a liberdade de sentir o sol, deitar à relva e ver passar o rio de sua aldeia que apesar de desconhecido é para ele o mais importante dos rios justamente porque é o rio de sua aldeia. Num dos seus poemas, ele confessa: “Se eu morrer muito novo, ouçam isto:/Nunca fui senão uma criança que brincava.”

Há momentos em que não ter metafísica é a melhor das metafísicas:

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem

Nem saber o que não sabem?

Mas nós, seres humanos tolos e pueris, teimamos em esperar da vida o que ela não pode nos dar. Se eu fosse como Alberto Caeiro eu não esperaria nada e talvez eu fosse alegre ou quem sabe triste ou nenhuma das duas coisas. Esperançoso, eu até poderia ser quase alegre. Uma quase alegria de quem se cansa de estar triste. Tá, eu sei, especialista, essas palavras também não são minhas, mas de Caeiro.

Deixarei para o leitor avulso, nesse mês de dezembro, alguns poemas de Alberto Caeiro, aguardem.

Um comentário:

Carlos F disse...

Que bom que voltou à ativa.