30 dezembro, 2009

Cotovia


— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?


— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.


— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.


— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .


— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?


— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.


— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!


— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.




Há nos versos de Cotovia, do poeta Manuel Bandeira, uma nostalgia terna. Há na música executada pelo violonista Yamandu Costa, o lirismo de um tempo que dificilmente voltará. A música é da década de 1940, a lembrança do poeta bem mais antiga... Em ambas ,uma saudade, embora triste como toda saudade, boa se sentir. Aliás, em Natal de 1964, Manuel Bandeira ensina que a saudade é um prolongamento da vida daqueles que se foram.

Leiam a poesia e depois escutem a música.

28 dezembro, 2009

José Egito Freire, por onde andas, amigo?


Nunca vou esquecer o dia em que uma dessas figuras que sempre aparecem na nossa vida para moficá-la por inteira, emprestou-me um livro de bolso que continha as poesias completas do poeta baiano, Antônio Frederico de Castro Alves. Estou falando do hoje padre, José Egito Freire.

Lembro que na época a Rede Globo transmitia a novela Sinhá Moça, aquela com a Lucélia Santos, o Marcos Paulo e o Rubens de Falco. A novela contava a estória de amor de dois jovens que traziam convicções abolicionistas. Não me lembro dos detalhes, mas lembro bem que numa cena famosa, Dimas, o filho bastardo do Barão de Araruna, declamava a poesia Tragédia no Lar, do poeta baiano. A declamação e as imagens que os versos criaram na minha imaginação de 10 para 11 anos, foram indeléveis. Rapidamente decorei um trecho e o vivia repetindo a todo momento:

"Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas do noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio
como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
que é livre, que livre voa."

E a poesia seguia...

Ao me ouvir repetir os versos, Freire lembrou de que tinha em casa um livro com as poesias completas de Castro Alves (exatamente este que está no início do post) e decidiu, vejam bem, emprestar a um moleque de menos de 12 anos, o tal livro.

Li com entusiasmo. Toda a grandiloquência de Castro Alves, com o seu vocabulário rebuscado e um tanto obsoleto para os dias de hoje, criavam-me algumas dificuldades, mas o ritmo, a força das rimas, as imagens que provocavam a minha imaginação me faziam ter a certeza de que algo muito bonito havia ali.

A primeira poesia de Poesias Completas... que decorei foi O Livro e a América, é o segundo poema de Espumas Flutuantes, única obra publicada em vida pelo autor que morreu na flor dos seus 24 anos, vítima não sou da tuberculose, mas sobretudo da infelicidade pessoal. O tal poema, mesmo para um pirralho de 11 anos, era bastante imagético:

"Talhado para as Grandezas
P'ra crescer, criar, subir,
O novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir
- Estatuário de colossos
cansado d'outros esboços
Disse um dia Jeová:
Vai, Colombo, abre a cortina
Da minha eterna oficina...
Tira a América de lá."

Mais adiante, os versos mais famosos desse poema:

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva, que faz o mar.

Ainda não havia lido O navio negreiro, nem Vozes D'África, as poesias mais conhecidas do livro Os Escravos e que deu ao bardo o título de O Poeta dos Escravos.

Antes desse Castro Alves que usava os versos como arma contra o estatuto da escravidão no Brasil na Segunda Metade do século XIX, conheci o Castro Alves lírico, romântico, naquele romantismo tão ao gosto do século XIX, um tanto Byroniano. E foi aí que descobri, encantado, O Laço de Fita, que reproduzo para vocês abaixo. Vale a pena ler cada verso.

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.


Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.



A Poesia, que me rondava desde muito pequeno, chegou até a mim com força mesmo, pelos versos de Castro Alves.

Pena que nunca tenha tido talento para compor versos... Até me arrisquei, na adolescência, a escrever alguns, cheguei a participar de concursos na ETFPE e até consegui algumas menções honrosas, mas só. Ademais, essas menções honrosas não passavam de um artifício, comum aos professores de Língua Portuguesa, de incentivar um pobre estudante que se esforçava, mas que não tinha talento.

Até recentemente, sobretudo depois de ler poetas modernos (favor não confundir com modernistas), achei que para escrever poesia bastava sentir. Foi Manuel Bandeira que me explicou que eu estava absolutamente equivocado. Diz o poeta pernambucano que poesia não se faz com sentimentos, mas com palavras. Por isso, se algum leitor, sobretudo jovem, sentir vontade de compor um poema, atente para esta dica: municie-se de um vasto vocabulário para escolher as palavras mais adequadas na hora de compor esse poema. Assim, aquele sentimento (ainda que seja só uma dor de cotovelo) vai encontar os termos mais apropriados para serem expostos em versos.

José Egito Freire, amigo, veja o que você fez!

26 dezembro, 2009

E o ano está acabando...





A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos*
Presença, 20, Coimbra, Abril-Maio, 1929

* Heterônimo do poeta Fernando Pessoa.

22 dezembro, 2009

Minha Fraude.

"Eu vira uma borboleta
Como nunca vira um dia
Nela a mãe Natureza
Caprichou no que podia
E vi que coisa igual
Nenhum pintor pintaria"

Eu tinha 10 anos quando, remexendo num baú lá em casa, encontrei um livrinho com uma capa azul bem vagabunda e que continha várias poesias, mas só consigo lembrar dos versos acima. O autor? Não faço a menor idéia. Se ele ainda estiver vivo e por coincidência reconhecer como seus os versos que iniciam esse post, que venha aqui revelar o seu nome. Tenho algo a lhe dizer.

Acho que como poeta esse autor, por mim desconhecido, já conseguiu o objetivo máximo: tornar seus versos conhecidos e imortais. Não interessa que eu seja a única pessoa no mundo que saiba esse trecho de cor desde os meus 10 anos. Basta que uma pessoa guarde os versos de um poeta para que ele, o poeta meus caros, ainda que sem nome, torne-se imortal para esta pessoa.

Mas os versos acima também revelam um pouco de uma estória meio malandra. Estava na 5a série, era a primeira vez que eu deixava o bairro pobre de Monsenhor Fabrício, tomava um comboio, como se chama em Portugual o ônibus, e ia para o centro do Recife com seus perigos, descobrertas e alumbramentos.

Por esta época eu tinha 11 anos e lembro que atravessar a Av. Guararapes sem respeitar a Faixa de Pedestre ou mesmo o semáforo era um risco subestimado e que quase me custou a vida algumas vezes. Passava pela Agência Central dos Correios, um edifício enorme, pomposo, cujo relógio localizado no ponto mais alto do prédio nunca funcionava.

Entrava na rua do Sol. Do meu lado esquerdo o rio Capibaribe e mais adiante, na outra margem, a rua da Aurora. Por esta época eu ainda não conhecia Manuel Bandeira. Mais alguns metros, chegava ao prédio onde funcionava o Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco. Era um colégio púbico que gozava -e aqui utilizo o verbo no sentido que os lusitanos o empregam - de um certo prestígio na cidade. Ah, mas eu falava da poesia...

Chegando atrasado no meu primeiro dia de aula, a professora de português, digo, de Língua Portuguesa, D. Niza Galiza Guimarães, uma senhora bem velhinha, mas com os olhos muito vivos, sorriu para mim e me convidou para sentar. Havia tanto afeto nos olhos dessa professora e tanta gentileza no tom da sua voz que nem me incomodei de ter atrapalhado a aula. A tarefa que já tinha começado era a gente escrever uma poesia. Fazer versos. "E eu sabia lá escrever poesia!", pensei. Contudo, eu não podia decepcionar a professora. Depois de pensar muito tempo, uns cinco minutos, entreguei-lhe a poesia. Ela leu, muito séria. A turma de novatos olhou para mim com espanto e inveja, afinal eu tinha sido o último a chegar e o primeiro a entregar a tarefa.

- José Paulo, você é o nosso poeta ecólogo! - Disse D Niza com muita gravidade.

Fiquei envergonhado com as palavras dela. Ela então leu minha poesia:

"Eu vira uma borboleta
Como nunca vira um dia
Nela a mãe Natureza
Caprichou no que podia
E vi que coisa igual
Nenhum pintor pintaria"

Eu sabia que a poesia não era minha. Mas eu não sabia de quem era. Não sei até hoje. D Niza sabia que não era minha também. Afinal, como um aluno na 5a série iria usar o pretério mais-que-perefeito? Mas ela silenciou. Fingiu que acreditou em mim. Não sei por que motivo. Talvez ela se admirasse que eu soubesse versos de cor.

D Niza morreu pouco depois. Nunca me admoestou por causa da minha fraude. Ela tinha fama de brava, rigorosa e severa. Dizem que pessoas assim quando ficam boazinhas é porque estão perto de morrer... Será?

Por favor, se alguém conhece o autor desses versos, diga-lhe que na 5a série roubei a sua obra. Diga-lhe que estou envergonhado e que me arrependo de tê-lo feito.

PS: A chuva não pára de cair hoje...


21 dezembro, 2009

Para ouvir nas férias...


Quase ninguém lê esse blog. Depois do que eu postar agora, é bem provável que os poucos que leem, desistam! Poderia dizer que não me importo, mas estaria mentindo. Se escrevo ou publico aqui alguma coisa, por mais tola que seja, é para que alguém por aí, no mundo da internet, veja e goste. A novidade de hoje é que poderá ouvir também.

Escutem a declamação sem talento de Evocação do Recife, do poeta Manuel Bandeira. Prestem atenção ao versos e sejam indulgentes comigo que não tenho voz de locutor.


Férias!

Hoje, finalmente, as férias chegaram... Nada melhor do que iniciá-las com a múscia dos Beatles. Há quem considere os Beatles apenas uma "boy bands", uma espécie de menudos dos anos 60. Talvez por isso os menudos tenham tido a mesma importância para a música pop que o grupo de Liverpool teve.

Veja na história traz uma matéria muito instrutiva sobre a entrada dos Beatles no mercado norte-americano. Era o ano de 1964 e vale a pena para quem é fã ou apenas tem curiosidade, dar uma olhada no site.

Um filme antigo que em português teve o título de Febre da Juventude (I Wanna Hold Your Hand, 1978) acho que produzido pelo Steven Spielberg, dramatiza essa estada do grupo britânco em Nova Iorque.

Não posso deixar de lembrar do filme Across the Universe. Um musical feito apenas com música dos Beatles. Abaixo, a primeira cena do filme.




A quem vai descansar: bom descanso. A quem vai viajar: boa viagem.

Abaixo, duas canções dos Beatles.




19 dezembro, 2009

Quando vier a Primavera...








Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Os versos acima fazem parte da série Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa.


15 dezembro, 2009

Alberto Caeiro - Se eu morrer novo

O guardador de rebanhos, de Luigi Chialiva


Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro - Poemas Inconjuntos

11 dezembro, 2009

Lula fala "merda" pela terceira vez.


Há uma obra que pelo que tem de reveladora, é indispensável. Falo, é claro, do último livro de Ali Kamel: Dicionário Lula. A obra, que traz o mérito de não fazer juízo de valor sobre as palavras do presidente nesses dois mandatos, disseca com método todos, ou a maioria dos discursos do presidente nesse período.

Com esse trabalho, o jornalista e diretor de Jornalismo da TV Globo, descortina a essência moral do homem que há sete anos nos governa e que ultimamente tem sido elevado à categoria de um semi-deus.

Todas as vezes, meu caro, que você se escandalizar com alguma metáfora chula, com alguma declaração inadequada do presidente, recorra ao livro do Kamel e você irá constatar que a mesma já havia sido usada antes em mais de uma ocasião e que não foi fruto do improviso e da espontaneidade do presidente, muito pelo contrário. Como diria Apolônio sobre Hamlet, "É loucura, mas com método"

Kamel, com o seu dicionário, nos mostra o homem Lula e, ao menos para mim, a revelação foi aterradora.

Jornalistas que se fingem de sérios e outros que nem se preocupam mais em fingir, procuram minimizar as palavras chulas do presidente dizendo que Lula foi apenas didático e que por não ter falso moralismo ou um pretenso senso de decoro, por falar ao povo sem "frescura", é que ostenta os índices de popularidade tão altos! A oposição, coitada, tão moralista, fica chupando dedo. Essa gente torpe quando evoca os números de aprovação do Governo Lula para justificar qualquer coisa mostra a sua moral.

Não me interessa se o baixo calão do presidente lhe dá popularidade. Não me interessa que o zé povinho, a arraia miúda entre em êxtase quando escuta o presidente falar "merda" em discurso. A popularidade de Lula não lhe dá o direito nem de fazer o que quer, muito menos de dizer o que quer, enquanto chefe de Estado. O decoro do cargo, a liturgia da função precisa ser respeitada em nome das instituições.

Se numa igreja um sacerdote para falar ao povo começa a usar de tais expedientes, vai obter, com razão, a censura dos fiéis. Se no ambiente do trabalho o decoro com a função não for respeitada, o chefe, em pouco tempo, no mínimo, vai perder o respeito da equipe.

A explicação de que é muito melhor falar "merda" em discurso do que roubar seria apenas uma estupidez, mesmo que Lula fosse um homem probo e íntegro.

Falar "merda" em discurso não é tão grave, dizem, quanto ter o cinismo de se locupletar ou favorecer amigos, mesmo mantendo o decoro e a liturgia do cargo.

Toda essa explicação, repito, seria apenas tolice, ainda que o nosso presidente fosse um "santo" de boca suja. Mas Lula foi o presidente do mensalão, do dossiê dos aloprados, do favorecimento do filho que em tempo recorde passou de monitor de zoológico a empresário de comunicação, com a ajuda da Telemar, é claro.

Por isso e por muito mais, invocar a honestidade do presidente ou sua imensa popularidade para justificar sua patifaria e sua grosseria em discurso no Maranhão, não é só estupidez ou tolice, é sobretudo, alinhar-se a moral dos brutos e ver nessa moral algo genuínamente brasileiro. Vai ver eles têm mesmo razão...

Na sua obra, Ali Kamel diz:

“Repetição, metáforas facilmente entendidas pelo cidadão comum, linguagem simples e convencional, essa é a fórmula de Lula. Mas há ainda outro ingrediente. Quando necessário, Lula não se importa nem mesmo de usar imagens fortes, que poderiam ser vistas como de mau gosto. Essa linguagem “forte”, embora não freqüente, é usada sem constrangimento sempre que o presidente a considera necessária: a fala flui sem ressalvas, não há nenhum pedido de licença para se usar uma linguagem mais con­tundente. Se seu objetivo é comunicar-se, ele usa todos os recursos.” (página 35)

Em outro trecho, Ali Kamel esclarece:

"Se relaciono aqui tantos exemplos, é porque desejo que o leitor tenha a dimensão do fenômeno, o que não seria possível apenas com uma ou outra citação. No período analisado, podem-se achar cinco menções a “cocô”; duas a “merda”; vinte a “fezes”; seis a “útero”; uma a “bunda”; trinta e três a “rato”; seis a “barata”; quatro a “piolho”; nove a “fedentina”; oito a “porrada”; qua­tro a “porreta”; cinco a “sacanagem”; quatro a “urina”; e sete a “defecar”. Os redatores da Secretaria de Comunicação da Presidência responsáveis pela transcrição dos discursos apoiaram-se 370 vezes na palavra “inaudível” para substituir um termo que ou não tenham entendido (a maior parte dos ca­sos, acredito) ou que tenham considerado inapropriado. Um bom exemplo é o discurso de 4/12/08, na cerimônia de lançamento das linhas de ação do Fundo Setorial do Audiovisual. Lula criticava os que o criticavam por tentar passar otimismo para a população como forma de não retrair o consumo e piorar ainda mais a crise econômica iniciada em setembro de 2008:

“Imaginem vocês, se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente, o que vocês falariam para ele? “Olha, companheiro, o senhor tem um proble­ma, mas a medicina já avançou demais, a ciência avançou demais, nós vamos dar tal remédio e você vai se recuperar.” Ou você diria: “Meu, ’sifu’.” Vocês fala­riam isso para um paciente de vocês? Vocês não falariam.”

Na transcrição, “sifu”, um eufemismo para “se fodeu” popularizado pelo jornal O Pasquim, foi substituída por “inaudível” (depois que a im­prensa “denunciou” o fato, houve promessas de que o “sifu” seria reincor­porado ao texto, mas nada aconteceu nesse sentido). Isso considerado, a frequência de palavras “fortes” que registrei há pouco parece ser expressi­va. Trata-se de algo realmente inédito no exercício da Presidência: de fato, jamais, antes de Lula, um presidente deliberada e conscientemente falou a linguagem das ruas, da mais leve à mais pesada, sem restrições, com o objetivo de se comunicar bem." (páginas 38 e 39)


Dicionário Lula, um presidente exposto por suas próprias palavras, de Ali Kamel, tem a vantagem de a gente, depois de conhecer o livro, não se espantar com as palavras do presidente, mas ainda assim reforçar aquela sensação de constragimento que sempre toma conta das pessoas minimamente decentes.

10 dezembro, 2009

Da mais alta janela da minha casa...

Da Mais Alta Janela da Minha Casa, Alberto Caeiro
XLVIII

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Extraído de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

09 dezembro, 2009

Alberto Caeiro

De todos os heterônimos do poeta Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é com certeza o mais provocador. “Espere um pouco” - diria um leitor especialista em Fernando Pessoa - “ Você, Zé Paulo, agora é literato”? Como eu saio dessa?

Vou me socorrer com Álvaro de Campos, outro heterônimo do poeta lusitano, que escreveu em Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Mesmo assim, um especialista em Fernando Pessoa não ficaria convencido, muito menos satisfeito com a minha opinião sobre Alberto Caeiro. E com razão, afinal o especialista é ele. Vou recuar e mudar a minha frase. De todos os heterônimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é o que mais me provoca. Ficou melhor? Espero que sim.

O próprio poeta resumiu a biografia do seu heterônimo da seguinte maneira: "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."

Sei pouca coisa ou quase nada sobre essa biografia e não é dela que quero falar, mas da provocação dos versos desse “guardador de rebanhos”. Não consigo ficar indiferente a versos como:

Há Metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Às vezes nosso estado de espírito está justamente como esse homem simples que apreende o mundo pelos sentidos e não pela inteligência. Quanto melhor seria não procurar o sentido oculto das coisas? Sequer considerar que há sentido oculto nelas. “Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum.”

A pior coisa que pode acontecer a um ser humano é se dar uma importância desmedida. Não, é se dar qualquer tipo de importância, mesmo a mais mínima. Seríamos muito mais felizes se assumíssemos para nós mesmos que a realidade não precisa de nós. Que nossa morte não tem importância nenhuma, que as estações do ano sempre se alternarão quer a gente goste quer não, e assim é porque assim seria mesmo que a gente não gostasse. Um especialista em Fernando Pessoa, e especificamente em Alberto Caeiro, identificaria que as idéias e as imagens que essas frases encerram não são minhas, mas desse homem simples que apesar de ter nascido em Lisboa era um homem do campo, sem estudo nem sofisticação.

Alberto Caeiro não sonha grande. Seu sonho é antes a comunhão com a natureza. Ele não espera amores, afetos, reconhecimentos, adulações, ele só espera a liberdade de sentir o sol, deitar à relva e ver passar o rio de sua aldeia que apesar de desconhecido é para ele o mais importante dos rios justamente porque é o rio de sua aldeia. Num dos seus poemas, ele confessa: “Se eu morrer muito novo, ouçam isto:/Nunca fui senão uma criança que brincava.”

Há momentos em que não ter metafísica é a melhor das metafísicas:

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem

Nem saber o que não sabem?

Mas nós, seres humanos tolos e pueris, teimamos em esperar da vida o que ela não pode nos dar. Se eu fosse como Alberto Caeiro eu não esperaria nada e talvez eu fosse alegre ou quem sabe triste ou nenhuma das duas coisas. Esperançoso, eu até poderia ser quase alegre. Uma quase alegria de quem se cansa de estar triste. Tá, eu sei, especialista, essas palavras também não são minhas, mas de Caeiro.

Deixarei para o leitor avulso, nesse mês de dezembro, alguns poemas de Alberto Caeiro, aguardem.

08 dezembro, 2009

Música, poesia e reminiscências.

Desde moleque o som do piano e do violino exercia sobre mim um efeito que na época eu não sabia nomear nem explicar. Hoje, adulto, continuou sem saber. O que sei é que há qualquer coisa de mágico numa sonata de Beethoven, num noturno de Chopin, num adágio de Albinoni ou no famosíssimo Concerto para piano, do russo Tchaikovsky

Na periferia do Recife, onde sempre morei até vir para a capital do Brasil, meu primeiro contato com o piano, na verdade com o som do piano porque nunca consegui tirar qualquer nota de qualquer instrumento, foi ouvindo, em vinil, um pianista chamado Richard Clayderman, famoso por levar para o piano músicas pop ou consagradas. Foi Clayderman que me despertou para esse som. Só depois dele é que me interessei pelos clássicos.

Tenho várias deficiências na minha formação. A que eu mais me ressinto é com certeza o fato de nunca ter aprendido a tocar um instrumento musical. Lembro que na adolescência alguns amigos se motivaram a aprender tocar violão. Compraram instrumentos, tomaram aulas e na empolgação fui junto com eles, mas sempre arregando os professores e os instrumentos. Nas primeiras aulas via a expressão de desânimo dos mestres com o meu desempenho. Não falavam, mas a expressão denunciava o que eles pensavam: "Zé, larga mão disso, vai." Larguei.

Quem toca um instrumento, penso, abre o espírito para ser tocado por Deus. Quem só pode escutar, recebe a centelha divina por via indireta, o que não é pouca coisa, mas está longe de ser tudo. Por isso, avulso leitor, se você toca algum instrumento, não largue mão. Toque. Toque com alma, com paixão, com saudade, com dor, com alegria, não importa o sentimento, apenas toque. E daí se ninguém vai valorizar? Toque sempre que puder. Quem sabe você não se torna uma nota feliz na vida sem música de alguma pessoa...

Eu preciso falar também de dois instrumentos que não têm, não sei a razão, a mesma nobreza do piano e do violino, mas que exerce sobre mim emoção análoga: o acordeon e a rabeca. A rabeca, instrumento que lembra, apenas lembra, ok?, um violino, eu conheci ouvindo Antônio Nóbrega. E, confesso, não há som mais encantador. Quanto ao acordeon, que a gente chama no nordeste de sanfona, meu avô materno tocava, ou dizia que tocava, pois não tenho lembranças muito nítidas dele tocando alguma coisa, apenas do instrumento sempre em cima do sofá da sala.

Finalmente, ouvir música é como ler poesia. É preciso estar disponível para a emoção. Há quem não goste de poesia, quem não veja sentido num verso, quem não consiga imaginar as imagens que um poeta cria; como há quem escute a nona de Beethoven e fique indiferente. Acho que essas pessoas ainda não se humanizaram. Os renascentistas diziam que o homem não nasce humano, mas humaniza-se. É impossível, acredito, humanizar-se sem apreciar música e poesia.
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Um dos muitos poemas de Manuel Bandeira que me marcou de forma especial é Pneumotórax, que diz:

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
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— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Abaixo, uma menina pernambucana, simples, pobre e com um talento invejável para o piano. Que Deus permita que essa menina não desista por conta das adversidades de uma vida de dificuldades e brilhe com sua música onde estiver.







06 dezembro, 2009

O professor Sombra

Este Sombra é menos perigoso, acreditem.


A respeito do artigo de onde foi retirado um trecho que serviu de referência na Questão 65 do Enem, encontrei-o na íntegra na internet, num blog de uma senhora que se define como historiadora, educadora, autora e etc...

O artigo na íntegra é ainda mais deletério que o trecho selecionado no ENEM. De forma geral, o professor Sombra critica duramente o parlamento brasileiro que segundo ele se apequena diante da, cada vez maior, importância do Brasil no cenário internacional. O artigo nada mais é que um panegírico do Governo Lula, mormente de sua política externa. Faltou pouco para o professor Sombra pedir para o Congresso fechar, afinal está aquém de sua missão e responsabilidade históricas.

O professor que é Phd em Londres e tem títulos acadêmicos a perder de vista. Vai ganhar mais um aqui do meu blog: o de mistificador. Ele vê sucesso numa política onde só há fracassos. Confunde, e aposto que é por má fé ou disciplina ideológica e partidária, a condescendência com que alguns governos importantes do mundo têm dispensado ao presidente Lula, com o êxito de uma política externa que, como é mesmo?, deu ao Brasil o papel de construtor de conceitos, é isso? Vejam esse trecho:

O Brasil ficou grande demais para o seu meio sul-americano. Migrou de importador de regras para construtor de conceitos na cena internacional. Há crescente confiança no país como interlocutor no xadrez da política internacional.

Agora, meus caros, quero só um exemplo, basta um, que ateste a afirmação do Sombra, o professor que pelo talento também poderia ser prestidigitador, não é mesmo? Procurem, mas adianto, não encontrarão.

Aliás, nesse campo, o que tem se avolumado são as nossas derrotas e o nosso vexame. A arrogância do governo, por exemplo, fez o Ministério das Relações Exteriores propor qu eo Brasil se tornasse interlocutor entre Estados Unidos e Irã. A falta de senso de rídiculo é mesmo insuperável.

O professor que deve encher seus alunos de orgulho, adverte que um país que não procura convergir política interna com política externa, que antes só se preocupa com temas de sua política interna, tende a ficar irrelevante no cenário internacional. Oferece como exemplos a Argentina e os países andinos que, segundo ele, por conta de suas elites medíocres, tornaram-se irrelevantes no contexto internacional.

O artigo é um puxão de orelhas no Parlamento, talvez porque o mesmo protele a decisão de incluir a Venezuela no MERCOSUL, o sonho de intelectuais como o Sombra, que veem no país de Chavez um parceiro importante e consideram a Venezuela um baluarte da democracia popular, como todos sabem.

Sombra não falou, mas se fosse apertado, diria: "Se o Congresso se recusa a participar desse momento gigante de nossa política externa, para que existir?"

Retomo o desafio: mostre-me um só exemplo do aumento da importância do Brasil no cenário internacional, mas exemplo mesmo, não promessas vazias, burocráticas de governos que querem mais ser gentis do que fiadores de nossas pretensões internacionais.

Sombra devia falar do apoio de nosso governo a ditadores, a assassinos, a corruptos , a gente que, se fôssemos sérios, estaríamos a léguas de distância e não visitando ou recebendo visita com direitos a abraços apertados e tapinhas nas costas.

A íntegra do artigo do Sombra da Unb, aqui

O enem e a Política Externa.

O Enem, que continua hoje à tarde, como não poderia deixar de ser, trouxe algumas pérolas de cunho marcadamente ideológico. Uma delas, talvez a mais evidente, está na questão 65 que fala da Política Externa do país no século XX, embora o foco seja a política externa do Governo Lula. Vejam o enunciado da questão:

Questão 65

Colhe o Brasil, após esforço contínuo dilatado no tempo, o que plantou no esforço da construção de sua inserção internacional. Há dois séculos formularam-se os pilares da política externa. Teve o país inteligência de longo prazo e cálculo de oportunidade do mundo difuso da transição da hegemonia britânica para o século americano. Engendrou concepções, conceitos e teoria própria no século XIX, de José Bonifácio ao Visconde do Rio Branco. Buscou autonomia decisória no século XX. As elites se interessaram, por meio de calorosos debates, pelo destino do Brasil. O país emergiu, de Vargas aos militares, como ator responsável e previsível nas ações externas do Estado. A mudança de regime político para a democracia não alterou o pragmatismo externo, mas o aperfeiçoou.

SARAIVA, J. F. S. O lugar do Brasil e o silêncio do parlamento. Correio Braziliense, Brasília, 28 maio 2009 (adaptado).

Sob o ponto de vista da política externa brasileira no século XX, conclui-se que

A) o Brasil é um país periférico na ordem mundial, devido às diferentes conjunturas de inserção internacional.

B) as possibilidades de fazer prevalecer ideias e conceitos próprios, no que tange aos temas do comércio internacional e dos países em desenvolvimento, são mínimas.

C) as brechas do sistema internacional não foram bem aproveitadas para avançar posições voltadas para a criação de uma área de cooperação e associação integrada a seu entorno geográfico.

D) os grandes debates nacionais acerca da inserção internacional do Brasil foram embasados pelas elites do Império e da República por meio de consultas aos diversos setores da população.

E) a atuação do Brasil em termos de política externa evidencia que o país tem capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais.

Vamos começar pelo enunciado...

O articulista, professor titular da Unb, isso não me espanta, aqui o currículo, começa dizendo que "Colhe o Brasil, após esforço contínuo dilatado no tempo, o que plantou no esforço da construção de sua inserção internacional." Como o artigo foi escrito em maio de 2009, publicado nesse gigante órgão de imprensa, famoso pela sua seriedade, que é o jornal Correio Braziliense, trata-se, é claro, de uma referência direta ao governo atual. Para o autor, o Governo Lula colhe os louros de uma política externa séria e responsável que marcou o passado do Estado brasileiro. É claro que o autor pode pensar assim, mas intriga-me que ele não enxergue que o magalonanico, o chanceler Celso Amorim, só faz acumular derrotas e passar vexame nas nossas relações externas. Só para citar um caso recente, o imbroglio de Honduras, onde até hoje o maluco do Zelaya está aboletado na embaixada brasileira, transformou-se num dos maiores micos de nossa política externa. Foi o único caso? Infelizmente, não. Semana passada, na Alemanha, nosso presidente defendeu, por enquanto sozinho, que o Irã tem o direito de construir sua bomba, afinal, se os Estados Unidos, a Rússia, a China e outras potências têm as suas, que autoridade moral elas têm para impedir que o Irã desenvolva seu arsenal nuclear? Ah, Zé Paulo, o Lula não falou assim, diria o inocente útil ou o malandro esperto. É, não disse, mas a conclusão de sua fala na Alemanha, está óbvio, é esta.

Poderia citar também as derrotas na indicação da ministra do STF, Ellen Gracie, para a Corte Internacional em Haia, ou mesmo o apoio vergonhoso que o governo do Brasil deu ao egípcio antissemita para o cargo de presidente da Unesco, preterindo um brasileiro que, segundo fontes da ONU, ganharia com folga. Resultado: Nem o brasileiro nem o egípcio.

E o voto covarde do Governo em não condenar o massacre do Sudão? Em se abster de condenar o Irã pelo seu projeto nuclear, enquanto Rússia e China deram seu voto contrário ao país dos aiatolás.

Sei não, nossa política externa, pelos resultados que vem obtendo e pela moral que a vem norteando, insulta nossa famosa, histórica e até ontem, respeitada diplomacia. O que o governo atual vem se esmerando é em jogar por terra dois séculos de seriedade e responsabilidade que marcaram nossas relações internacionais. Os frutos, que o articulista diz que começamos a colher, haja vista nossa maior inserção nas decisões internacionais, é uma grande falácia. É mais um intelectual dessa malta que nos governa há oito anos.

Nas alternativas apresentadas como possíveis respostas ao enunciado, a correta, ou melhor: a que se esperava que o candidato marcasse, diz:

E) a atuação do Brasil em termos de política externa evidencia que o país tem capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais.

De fato, nos últimos tempos temos tomado decisões que atestam nossa capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais, como ficou claro na recepção calorosa que oferecemos ao presidente do Irã, aquele moço que com inveja de Hitler, nega o Holocausto para que ele mesmo faça o seu.