01 novembro, 2009

Para o dia de amanhã... 3





Manuel Bandeira

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

3 comentários:

ilka disse...

Estou sentindo faltos seus "inteligentíssimos" posts!

Alexandre Valdevino disse...

Zé: que nuvens negras andam rondando o seu céu, amigo??? Tomara que elas passem logo. Inté.
Alexandre Valdevino

Carlos F. disse...

Zé Costa,
São tocantes os poemas que você postou, especialmente esse do Bandeira. Qual seria a sua visão da morte?