29 novembro, 2009

Correio Braziliense: uma história nada bonita.

Leiam abaixo, volto depois.

Para fugir da censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805, onde criou o Correio três anos mais tarde. "Hipólito era um English Wig", escreveu o historiador americano Roderick J. Barman, referindo aos liberais que no Parlamento britânico defendiam os direitos individuais e a limitação dos poderes do rei. "Acreditava numa constituição equilibrada e justa, num Congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais."

O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e ideias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, D Domingos de Sousa Coutinho, a partir de 1812 Hipólito passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo de D João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. " O público nunca tomou conhecimento desse acordo", afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito se mostrava simpático à Coroa Portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. "Ele sempre tratou D João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência", registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos.

Voltei.

O trecho acima está no livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes, nas páginas 135 e 136. Trouxe esse trecho à tona para revelar que desde seus primóridos, o Correio Braziliense mantinha relações bastante próximas com os donos do poder.

Neste domingo, Brasília não recebeu jornais de São Paulo, mormente o Estadão e a Folha. De fora, apenas o Globo, que custa aqui nessas paragens, seis reais!!!

A Primeira Página do Correio, deste domingo, foi constrangedora. Enquanto todos os jornais importantes do país revelavam a denúncia fartamente documentada de corrupção na cúpula do GDF, envolvendo inclusive o governador e o vice, o Correio falava de Crack. Embaixo, uma manchete discreta lembrava que a OAB-DF vai pedir explicações sobre denúncias de suposta propina recebida pelo governador, assessores e deputados. O jornalista Ricardo Noblat denunciou essa postura vexatória do Correio num post intitulado Brasília , uma cidade sem Imprensa. Reproduzo o post

Isto é tudo que você encontrará na capa da edição de hoje do Correio Braziliense sobre o escândalo que ameaça derrubar o governador José Roberto Arruda (DEM), do Distrito Federal, seu vice, secretários de Estado e deputados distritais, além de complicar a vida de poderosos empresários:

Título na parte de baixo da página:

OAB-DF pede explicações sobre denúncias

E o texto:

"Instituição determina abertura de processo para analisar suposto esquema de corrupção no GDF. Com vários distritais citados no inquérito, Câmara não chega a consenso. TV divulga vídeos gravados pelo ex-secretário Durval Barbosa, exonerado do cargo."

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* "Com vários distritais citados no inquérito..." - só deputados distritais? O governador, não? Nem o vice? Nem secretários de Estado? Nem alguns dos empresários mais conhecidos da cidade?

* "TV divulga vídeos gravados..." - nenhuma referência ao vídeo que mostra Arruda recebendo dinheiro do ex-secretário Durval? E conversando com ele sobre como levar o dinheiro para casa sem correr o risco de chamar atenção?

Manchete da edição de hoje do Jornal de Brasília:

DEM pressiona governador




Arruda, sai daí, sai!

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do DEM, está sem saída. Ou melhor: sua única saída será sair do governo. Não há como explicar o que está claro. Ele, junto com alguns secretários e outros tantos deputados distritais, recebiam, quinzenalmente, propinas pagas por empresas que tinham negócio com o governo do Distrito Federal. O dinheiro não era para caixa dois, mas para enriquecimento ilícito e "compra de consciência de deputados da assempbléia legislativa", como definiu o corrupto colaborador, Durval Barbosa, que em troca de redução da pena decidiu armar contra os companheiros de quadrilha.

Em agosto de 2006, na campanha para o governo do GDF, expliquei aqui neste blog porque não votaria em Arruda para governador. Abaixo, republico o post.

Ah! Arruda, meu querido! Sai logo daí, sai.

26 de agosto de 2006

Arruda perdeu hoje o meu voto. Ele vai perder a eleição porque decidi não votar nele? Claro que não! Quem tem 54% de intenções de voto, não deve se importar com um mísero eleitor. “Mas por que você se desencantou com o Arruda, Zé Paulo?”, perguntaria um dos meus 3 leitores. Não tem nada a ver com o velho episódio da violação do painel do senado, naquele caso ele se sacrificou para não entregar gente maior, foi o mártir dos envolvidos,.As razões são mais recentes. Vamos a elas:

Acho um acinte o PFL*, um partido importante, comportar-se como legenda de pouca expressão na disputa pelo senado. Primeiro, de forma improvisada e desesperada, lançou a mulher de Paulo Otávio, que de peso político só tem o sobrenome, Kubitschek Depois inventou a candidatura de um empresário, Marcos Cardoso, cuja única credencial é ser amigo do Arruda. (pelo menos foi isso que ele disse no Horário Eleitoral). Alguns dias depois ele sumiu da TV, e agora o partido só exibe um lembrete com o nome e o número do candidato. Não deve ter mesmo o que dizer, está lá só para fazer fita, porque o candidato de Arruda até a raiz, é o Roriz, e ele não esconde isso de ninguém. Uma vergonha para um partido do tamanho do PFL.

· A decepção maior veio hoje. Em comício no Parque da Cidade, falando para um público de neopentecostais, o candidato Arruda defendeu o Sanguessuga, Pastor Jorge Pinheiro, do PL*. Aquele que na TV aparecia todo de branco, tentando mostrar pureza, isso depois do PL ser flagrado no escândalo do mensalão, e que recentemente desistiu de concorrer à reeleição à Câmara Federal. Pois saibam: Arruda disse que o Pastor das ambulâncias superfaturadas, das unidades de saúde com propina, estava sendo vítima de perseguição, até um “Deus Proverá” apareceu no discurso. Pobre de Jesus, só porque levou para o paraíso um dos ladrões que o acompanhava no suplício, todos os outros acham que podem ter o mesmo benefício. Meu critério para essa eleição é não votar em candidato que apóie ou seja apoiado por corruptos. Por isso, José Roberto Arruda hoje perdeu o meu voto. Vai ganhar a eleição com um mísero voto a menos.

* O PFL mudou o nome para DEM e o PL para PR. Os nomes mudaram, mas os vícios...


01 novembro, 2009

Para o dia de amanhã... 3





Manuel Bandeira

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

Para o dia de amanhã... 2





Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousando em mim.

A morte deveria ser assim:
Um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim.

Mário Quintana.

para o dia de amanhã...





Cruz na Porta

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa